Na cadeira principal de RH das Américas dentro de uma das maiores empresas de transporte marítimo do planeta, executivo explica que multinacionais não terão sucesso se tentarem impor suas governanças ignorando as características de cada região
Durante muito tempo, a contratação de pessoas refugiadas ocupou um espaço relativamente restrito nas organizações brasileiras. Era uma iniciativa frequentemente associada à responsabilidade social, à diversidade ou aos compromissos ESG. Nos últimos anos, porém, uma transformação silenciosa começou a alterar essa lógica. Pressionadas pelo envelhecimento da população, pela dificuldade crescente para preencher vagas e pela disputa por profissionais em diversos setores, empresas passaram a olhar para essa força de trabalho sob uma perspectiva mais pragmática: a da competitividade.
Os números de uma pesquisa inédita ajudam a explicar essa mudança de perspectiva. Conduzido pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, o estudo reúne uma das análises mais abrangentes já realizadas no país sobre os impactos econômicos e sociais da contratação de pessoas refugiadas e migrantes.
Os resultados mostram que esses profissionais registram 16,1% menos dias de afastamento do trabalho, apresentam menor probabilidade de desligamento nos primeiros meses de contrato e alcançam produtividade equivalente à de trabalhadores brasileiros com perfil semelhante – imediatamente em alguns setores e, na média nacional, após cerca de 27 meses de vínculo. Entre 2018 e 2024, também contribuíram com mais de R$ 17 bilhões em tributos e contribuições previdenciárias, enquanto o impacto sobre os gastos municipais com assistência social permaneceu inferior a 3%.
O levantamento analisou dados nacionais sobre mercado formal de trabalho, produtividade, arrecadação tributária e contas públicas, além de entrevistas com gestores e trabalhadores e pesquisas de campo em empresas dos setores alimentício, têxtil e metalúrgico. A combinação dessas diferentes metodologias permitiu construir um retrato inédito sobre a contribuição econômica dessa população e sobre os desafios da sua integração ao mercado de trabalho brasileiro.
“Reunimos dados administrativos nacionais, contas públicas municipais e a escuta direta de empresas e trabalhadores – e todas as frentes apontam na mesma direção: a inserção laboral de pessoas refugiadas e migrantes gera ganhos concretos e mensuráveis para a economia brasileira”, afirma Carolina Moulin Aguiar, professora do Departamento de Ciências Econômicas da UFMG, pesquisadora do Cedeplar e coordenadora geral da pesquisa.
Os resultados também ajudam a desmontar alguns dos principais mitos que ainda cercam a contratação de pessoas refugiadas. A produtividade, por exemplo, alcança a de trabalhadores brasileiros com perfil equivalente em cerca de 27 meses na média nacional. Em grandes empresas, nas ocupações de maior qualificação e em setores como serviços e indústria de alimentos, essa equivalência ocorre desde o início da relação de trabalho. Em muitos casos, a evolução profissional observada ao longo do tempo leva esses trabalhadores a superar o desempenho do grupo de comparação.
Os indicadores de retenção reforçam o diagnóstico positivo. Pessoas refugiadas registram cerca de 16,1% menos dias de afastamento do trabalho e apresentam menor probabilidade de desligamento nos cinco primeiros meses de vínculo empregatício do que brasileiros com características semelhantes. Embora o turnover total seja mais elevado, a pesquisa mostra que isso decorre principalmente do aumento das contratações e da entrada contínua no mercado formal, e não de uma maior propensão a abandonar o emprego.
O achado mais provocativo da pesquisa, porém, talvez não esteja relacionado ao desempenho de quem é contratado, mas ao custo de quem permanece de fora. Segundo os pesquisadores, a produtividade potencial que empresas deixam de capturar ao optar exclusivamente por trabalhadores brasileiros equivalentes cresceu de pouco mais de R$ 43 bilhões, em 2018, para R$ 58,7 bilhões em 2024. Não se trata de perda financeira direta, mas de uma estimativa da produtividade que deixa de ser incorporada à economia quando esse contingente permanece subutilizado. Os maiores valores concentram-se justamente em segmentos que convivem historicamente com dificuldade de recrutamento, como serviços complexos, indústria de alimentos e setor têxtil.
Ao inverter a lógica da discussão, a pesquisa aproxima a agenda de inclusão de um dos principais desafios atuais do RH: encontrar pessoas para ocupar vagas que permanecem abertas. Em diferentes regiões do país, especialmente em polos industriais, empresas convivem com escassez estrutural de trabalhadores.
Nas entrevistas qualitativas realizadas pelo Cedeplar, gestores descrevem a contratação de migrantes e refugiados não como uma iniciativa complementar, mas como condição para manter as operações funcionando. Em um dos relatos registrados pelo estudo, um gestor do setor alimentício afirma que, sem esses profissionais, “a operação seria muito mais cara”. Outro, da indústria têxtil, resume a dependência de forma ainda mais direta: “A empresa não funcionaria sem mão de obra migrante.”
Os próprios gestores parecem ter revisado antigas percepções. Todos os entrevistados avaliaram o desempenho de trabalhadores refugiados como semelhante ou superior ao de brasileiros em funções equivalentes. Além disso, a maior parte considera que ambos os grupos atingem desempenho pleno em até seis meses, indicando que a curva de aprendizagem é praticamente equivalente.
Na avaliação de Paulo Sérgio de Almeida, oficial de meios de vida e inclusão econômica do ACNUR no Brasil, os indicadores mostram que a discussão ultrapassa a esfera da proteção humanitária. “Os resultados mostram que ampliar o acesso de pessoas refugiadas ao mercado de trabalho significa transformar a acolhida em desenvolvimento”, diz.
Para ele, quando essas pessoas encontram oportunidades para reconstruir suas vidas com autonomia, elas passam a contribuir para o crescimento econômico, fortalecem a arrecadação e ajudam a impulsionar o desenvolvimento das comunidades onde vivem. “As evidências reforçam que promover inclusão econômica é uma agenda estratégica para o Brasil.”
Apesar dos indicadores positivos, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: os ganhos observados não decorrem apenas da contratação. Eles dependem da forma como as empresas recebem, integram e desenvolvem esses profissionais. É justamente nesse ponto que a pesquisa desloca a discussão do recrutamento para a gestão de pessoas.
Entre as práticas apontadas como mais relevantes estão o apoio ao aprendizado do português, programas formais de onboarding, acompanhamento das lideranças e oportunidades de qualificação e progressão na carreira. O estudo registra, por exemplo, casos de trabalhadores que iniciaram a trajetória na linha de produção e, após alguns anos, passaram a ocupar funções administrativas e estratégicas, mostrando que a inclusão não termina na contratação, mas se consolida com oportunidades de desenvolvimento.
A mudança também aparece fora dos muros das empresas. À medida que conseguem emprego formal e estabilidade financeira, refugiados deixam de demandar políticas emergenciais e passam a contribuir para a economia local. Entre 2018 e 2024, o grupo recolheu mais de R$ 17 bilhões em tributos e contribuições previdenciárias, enquanto o impacto potencial sobre os gastos municipais com assistência social permaneceu inferior a 3%, mesmo em cenários considerados conservadores pelos pesquisadores.
Na avaliação de Gabriela Rozman, gerente de Educação e Inclusão Produtiva do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, as evidências produzidas pelo estudo oferecem às empresas uma nova base para repensar suas estratégias de atração e desenvolvimento de talentos. “Os dados mostram que a inclusão deixou de ser apenas uma pauta de compromisso social para se tornar uma decisão estratégica baseada em evidências. O desafio agora é ampliar o número de empresas que transformam esse conhecimento em políticas estruturadas de contratação, desenvolvimento e retenção de talentos refugiados, fortalecendo um mercado de trabalho mais diverso e competitivo.”
Em um país que envelhece rapidamente e enfrenta dificuldades crescentes para encontrar trabalhadores em diversos setores, a pesquisa aponta que o maior desafio talvez já não seja convencer as empresas a contratar refugiados. O próximo passo será construir ambientes capazes de reconhecer competências, remover barreiras de integração e transformar acolhimento em uma estratégia permanente de gestão de talentos.
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