Enquanto a inteligência artificial avança rapidamente nas empresas, o principal desafio passa a ser preparar profissionais e lideranças para um novo modelo de trabalho, diz executiva
Assim que concluiu o ensino médio, Anderson Jorge deixou o sítio onde morava e trabalhava na região de Birigui (SP) para tentar a vida em São Paulo. Eram mais de 500 quilômetros de distância, além de muitas dúvidas e incertezas. Foi em uma agência de empregos, quase por acaso, que ele descobriu a vocação que guiaria sua carreira. Enquanto cadastrava currículos de candidatos que estavam em busca de recolocação no mercado, entendeu que, por meio da área de RH, poderia ajudar a mudar a vida das pessoas.
Após ganhar experiência na capital, a vocação profissional o levou de volta à cidade natal: há treze anos, ele atua na fabricante de calçados infantis Klin. Fundada em 1983, a empresa se consolidou como uma das maiores do segmento no Brasil. Hoje, a companhia tem cinco unidades fabris, cerca de 2 mil colaboradores e produz aproximadamente 5 milhões de pares de calçados por ano. Presente em mais de 60 países, a empresa distribui produtos para mais de 2,5 mil cidades brasileiras. Mesmo com o crescimento e a expansão internacional, Jorge diz que a empresa preserva uma característica que chamou sua atenção desde o início: a valorização das pessoas.
Atual gerente de recursos humanos da Klin, Jorge conversou com Cajuína sobre sua trajetória, os desafios da área e o papel do RH na construção de uma cultura organizacional baseada no cuidado com quem faz parte da empresa. Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista:
Cresci na região de Birigui, no interior de São Paulo, mas aos 19 anos, depois de ter terminado o ensino médio, decidi buscar novos caminhos. Até então eu trabalhava na agropecuária junto com meu pai, em plantios como soja, milho, algodão e amendoim. Queria continuar os meus estudos, mas tinha dúvidas sobre qual carreira seguir. Minha primeira opção era o Direito. Cheguei em São Paulo com muita coragem, força de vontade e sonhos na mochila. Saí de uma cidade que na época tinha 100 mil habitantes, ainda morando no sítio, para uma megalópole.
Comecei a buscar oportunidades, fiz algumas entrevistas e fui chamado para trabalhar em uma agência de empregos. Aí iniciei minha carreira na área de gestão de pessoas. Fazia o cadastro das pessoas que estavam em busca de recolocação no mercado de trabalho. A agência também tinha uma vertente na área de treinamentos, na emissão de carteira profissional, que só existia no modelo físico, além de toda parte de habilitação do seguro desemprego.
Lá pude conhecer as funções operacionais, passando por todos os setores. Depois de quatro anos, conquistei a minha primeira coordenação e tinha uma equipe trabalhando sob a minha gestão. Foram 12 anos atuando nesta empresa. O que mais me encantou no primeiro momento foi o fato de poder ajudar as pessoas. Tive um sentimento de realização profissional, mas também como ser humano, contribuindo para que as pessoas pudessem voltar ao mercado de trabalho, ter rendimentos, organizar suas vidas e realizar sonhos. Começou a me dar uma sensação de estar cumprindo com um papel social.
Fui me apaixonando pela área, fui fazer curso superior de Gestão de Pessoas. Hoje não me vejo fazendo outra coisa, apesar de todas as dificuldades, potencializadas, especialmente nos últimos anos. Estamos vivendo anos bem difíceis, principalmente no pós-pandemia. Ainda assim, continuo com aquele brilho no olho e com aquela chama acesa no meu coração, na minha alma, porque de alguma forma estou cuidando de pessoas.
Quem viveu infância e juventude no interior até pode passar bastante tempo na capital, mas chega um momento em que o retorno é quase inevitável. Em 2013, voltei para buscar um pouco mais de qualidade de vida e estar mais perto da minha família. Mas para isso me organizei, inclusive, financeiramente, sabendo que teria uma série de mudanças também profissionalmente. Comecei a fazer uma lista de empresas que gostaria de trabalhar.
A primeira delas era a Klin. Era uma empresa que cresci ouvindo falar muita coisa boa. Usei calçados da Klin, as pessoas que trabalhavam lá compartilhavam histórias incríveis e eu comecei a ter um carinho pela marca. Dentro das minhas pesquisas, foi uma das empresas que me chamou atenção pelo fato de ter uma cultura alicerçada por valores, além de trabalhar por uma causa nobre que é fazer produtos para crianças.
Já havia encaminhado currículo, mas acabei conhecendo uma pessoa que trabalhava lá, por acaso, durante a venda de um terreno em Birigui. Ele foi o comprador. Durante a negociação, compartilhamos um pouco das nossas histórias e eu contei do meu desejo de trabalhar na Klin. Ele pediu meu currículo e encaminhou internamente. Pouco tempo depois me ligaram da Klin para participar de um processo seletivo para uma vaga no RH.
Participei do processo e fui aprovado. Em julho de 2013, ingressei como analista de RH. Apesar de já ter tido um cargo de coordenação, estava muito tranquilo em relação a ter voltado a ser analista, porque sabia que possivelmente teria de recomeçar meu ciclo. Assim como eu tinha feito uma trajetória muito bacana na empresa que eu estava, não tinha dúvidas que eu faria na Klin.
Sempre trabalhamos no formato generalista, transitando por todas as vertentes do RH, desde atratividade, seleção, treinamentos, cargos e salários, avaliação de desempenho, pesquisa de clima, benefícios, enfim, tudo que tange a área de gestão de pessoas. Depois de cinco anos como analista, minha gestora teve uma proposta para assumir o time de produtos e automaticamente vagou a oportunidade de uma pessoa estar à frente do RH. Recebi o convite. Claro que dá aquele friozinho na barriga no primeiro momento, mas eu nem titubeei para aceitar o desafio. Foi um momento em que a Klin estava passando por uma série de mudanças, se profissionalizando, trouxe um CEO. Nos últimos sete anos, a gente evoluiu em todos os aspectos.
Demos sequência a tudo que vínhamos construindo, só que ocupando uma cadeira diferente. Depois de um período, surgiu a oportunidade de assumir o departamento pessoal. Existiam essas subdivisões dentro da área de gestão de pessoas. Estava à frente do RH, uma outra pessoa no departamento pessoal e no encerramento do ciclo dela, assumi as duas áreas.
Hoje a Klin tem cinco unidades, com cerca de 2 mil colaboradores. O desafio foi o de manter a cultura da empresa visível e vivida pelos colaboradores, cultivar a marca forte no mercado, acompanhar as inovações, em tecnologias e processos, além das mudanças de legislação, em especial nos últimos cinco anos.
Precisamos estar diariamente nos atualizando, olhando o todo, buscando formas de trabalhar novos caminhos. Apesar de a Klin ter 43 anos e uma história muito bonita, é uma empresa que ainda sonha. Temos muitas metas e queremos chegar a muitos lugares. Esta é uma das coisas que me encanta muito.
A Klin começou muito pequenininha. O fundador Carlos Mestriner conheceu esse universo quando foi trabalhar como office boy em uma empresa que fornecia componentes para indústrias confeccionarem calçados. Depois, ele teve a chance de ser representante comercial, até que teve a ideia de ter a própria indústria. Ele convidou o pai, e depois o irmão para dividir esse sonho e no dia 11 de julho de 1983 a Klin nasceu. Tudo começou em um predinho alugado de 65 m², com quatro colaboradores trabalhando o dia inteiro para fazer 15 pares de um único modelo de sandália.
Aí começou o movimento de ir para o mercado, vender o produto, ter aceitação, começar a fabricar mais, contratar mais pessoas, começar a comprar as primeiras máquinas e esse fluxo foi só aumentando. Hoje produzimos algo em torno de 5 milhões e meio de calçados por ano. Além disso, temos capital aberto e desde 1991 trabalhamos internacionalmente, exportando para mais de 60 países.
Sim, temos trabalhado muito forte para que algo comum a todos, independentemente do nível hierárquico que o colaborador tenha na companhia. A área de gestão de pessoas tem um papel fundamental nisso, desde o processo de entrevista, de integração, até como fazemos as divulgações internas do nosso produto, da marca, das nossas conquistas e dos certificados.
Nos treinamentos internos, sempre destacamos esses diferenciais, a importância de termos pessoas engajadas, mostrando o quanto a Klin é uma empresa de oportunidades, e quantas pessoas fizeram história e carreira dentro da companhia. Buscamos mostrar que independentemente da área que a pessoa queira atuar dentro do mundo do calçado, ela consegue crescer e ter uma carreira consolidada.
É o cuidado com as pessoas. Apesar de a Klin ter crescido muito e se profissionalizado nos últimos anos, ela não perdeu a parte humana. Claro que os fluxos, os processos e os KPIs são importantes, mas sempre à luz de gente. Os fundadores não estão mais à frente das operações, mas ainda estão na empresa todos os dias. Visitam as unidades, a produção, conversam com os funcionários e participam dos eventos.
Digo para todas as pessoas que independentemente da área que elas atuem e do nível hierárquico que possuam, todo mundo deveria fazer algum curso voltado à gestão de pessoas. Nada acontece sem as pessoas. Seja um líder de produção, um engenheiro, um advogado, tanto faz, se esse profissional estudar algo relacionado às pessoas, seus resultados vão ser diferentes.
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