Apesar do aumento de casos no 2º trimestre vs o 1º trimestre, o fechamento dos seis primeiros meses do ano é animador com uma redução de mais de 35 mil casos na comparação com o 1º semestre de 2025
A expressão do momento, aquela tendência que acabou de chegar ao mercado, uma notícia que tem chamado atenção, uma trend que viraliza nas redes ou até uma nova regulamentação. Se o tema está quente, é melhor não ficar para trás. Mas nem sempre conseguimos acompanhar tudo o que tem acontecido no mundo do RH.
A roda gira, e às vezes bem rápido. Esta seção de Cajuína traz os assuntos mais frescos do universo de quem trabalha com gente.
Na pauta desta semana, vamos falar sobre… novos relatos de como a popularização das apostas esportivas no Brasil está virando uma dor de cabeça não só para o negócio das empresas, mas também para o dia a dia dos RHs.
As apostas esportivas estão cada vez mais presentes na pauta da gestão de pessoas – e o motivo é simples: os efeitos do crescimento das bets já podem ser percebidos dentro das empresas.
Funcionários endividados, pedidos frequentes de adiantamento salarial, queda de produtividade, faltas e problemas de saúde mental associados ao jogo compulsivo passaram a fazer parte da rotina de alguns empregadores. O tema tem ganhado força nas empresas – e uma reportagem recente da Folha de S.Paulo mostra que organizações de diferentes setores já convivem com impactos concretos da ludopatia (isto é, a compulsão por jogos) em suas equipes.
Mais do que um problema individual, as apostas começam a revelar um desafio organizacional. E, assim como aconteceu com outros temas relacionados ao bem-estar dos trabalhadores, o RH passa a ser chamado para entender até onde vai sua responsabilidade e como oferecer respostas equilibradas para uma questão que ainda é relativamente nova.
A reportagem da Folha mostra que empresas de diferentes setores já observam mudanças no comportamento de parte de seus colaboradores. Entre os sinais mais frequentes estão pedidos de antecipação de salários, aumento do endividamento, dificuldades de concentração, faltas recorrentes e queda de desempenho.
Em um dos casos relatados, um empresário do setor de bares e restaurantes percebeu que um funcionário deixava de comparecer ao trabalho justamente nos dias de pagamento. Ao conversar com a família, descobriu que o salário estava sendo consumido por apostas online. Em vez de recorrer imediatamente à demissão, o trabalhador foi orientado a buscar tratamento especializado.
Os relatos reforçam que a ludopatia – reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um transtorno relacionado ao comportamento – pode produzir consequências que vão muito além das finanças pessoais. Ansiedade, depressão, perda de controle financeiro e dificuldades nos relacionamentos acabam afetando também a vida profissional.
Ao mesmo tempo, algumas empresas já começam a estruturar respostas para o problema. Segundo a reportagem, organizações como Ypê, Gerdau e Whirlpool passaram a desenvolver ações de conscientização sobre os riscos das apostas, incluindo campanhas internas, atividades de educação financeira e encaminhamento para programas de apoio aos colaboradores quando necessário.
O tema também começa a chegar ao Judiciário. Casos envolvendo trabalhadores diagnosticados com ludopatia podem influenciar discussões sobre afastamentos, demissões e responsabilidades das empresas, ampliando ainda mais a relevância da questão para lideranças e profissionais de RH.
As bets colocam na mesa um desafio que vai além das apostas em si. Elas mostram como fenômenos que surgem fora do ambiente corporativo podem afetar diretamente a experiência dos colaboradores, o desempenho das equipes e até os resultados do negócio.
Nesse sentido, a discussão lembra o caminho percorrido pela saúde mental nos últimos anos. Primeiro vieram os casos isolados. Depois, os gestores passaram a identificar padrões. Por fim, as organizações perceberam que não bastava tratar cada situação individualmente: era preciso criar políticas, preparar lideranças e oferecer canais de apoio.
Com as apostas, o movimento parece seguir trajetória semelhante. Ainda não existe um modelo consolidado de atuação, mas algumas direções já aparecem. Programas de educação financeira ganham uma nova dimensão, iniciativas de saúde mental passam a incluir a dependência em jogos entre seus temas de atenção e líderes precisam ser capacitados para reconhecer sinais de sofrimento sem transformar o assunto em uma questão exclusivamente disciplinar.
Isso não significa que as empresas devam assumir a responsabilidade por resolver um problema que nasce fora do trabalho. Mas ignorar seus efeitos também deixou de ser uma opção. Quando o endividamento, o adoecimento e a compulsão começam a afetar a produtividade, o clima das equipes e a permanência dos profissionais, o tema inevitavelmente passa a fazer parte da agenda de gestão de pessoas.
Mais do que criar uma “política para bets”, o desafio para o RH é fortalecer uma cultura de prevenção, acolhimento e orientação. Há também uma questão mais profunda por trás desse fenômeno. Quando uma parcela dos trabalhadores passa a enxergar as apostas como um caminho para complementar a renda ou conquistar uma mobilidade financeira que o salário parece não oferecer, o problema deixa de ser apenas de saúde ou de disciplina. Ele passa a dialogar com temas como remuneração, engajamento e retenção.
Afinal, se o trabalho deixa de ser percebido como a principal fonte de prosperidade, a relação das pessoas com suas carreiras também tende a mudar.
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