Após 35 anos de carreira, diretora de RH da Zoetis, Ana Cintia Nery Avelar defende que um dos principais trabalhos da área é preparar líderes mais autônomos e responsáveis por suas equipes
A expressão do momento, aquela tendência que acabou de chegar ao mercado, uma notícia que tem chamado atenção, uma trend que viraliza nas redes ou até uma nova regulamentação. Se o tema está quente, é melhor não ficar para trás. Mas nem sempre conseguimos acompanhar tudo o que tem acontecido no mundo do RH.
A roda gira, e às vezes bem rápido. Esta seção de Cajuína traz os assuntos mais frescos do universo de quem trabalha com gente.
Na pauta desta semana, vamos falar sobre… uma nova pesquisa que mostra o quanto a IA tem impactado a criação de vagas de entrada nas organizações e com isso pode mudar a escada corporativa.
Não é segredo para ninguém que a inteligência artificial veio para mexer com as estruturas do mundo do trabalho. Agora, porém, surgem números concretos de como a tecnologia está afetando os primeiros degraus das carreiras corporativas.
Realizada com 110 líderes globais de RH, uma nova pesquisa da consultoria Gartner diz que pelo menos um em cada cinco CHROs afirma que uma liderança de suas empresas já deixou de contratar para cargos de entrada por causa da automação provocada pela IA.
O movimento ainda não significa o fim das vagas para profissionais em início de carreira, mas coloca uma questão importante para o RH: se a tecnologia assume parte do trabalho que tradicionalmente era destinado aos mais juniores, como ficam a formação e o desenvolvimento desses profissionais?
A recomendação da própria consultoria não é simplesmente eliminar essas funções, mas redesenhá-las para que profissionais em início de carreira possam assumir atividades de maior valor. Isso acontece porque boa parte do trabalho tradicionalmente atribuído a quem está começando – tarefas repetitivas, organização de informações, produção de materiais e outras atividades operacionais – está entre o que a IA consegue automatizar ou acelerar.
Há outro dado que ajuda a entender a mudança. O AI Jobs Barometer 2026, da consultoria PwC, analisou mais de 1 bilhão de anúncios de emprego em 27 países e identificou que cargos de entrada mais expostos à IA têm sete vezes mais probabilidade de exigir competências tradicionalmente associadas a profissionais mais experientes, como liderança, pensamento estratégico e gestão de stakeholders.
Nos Estados Unidos, as vagas de entrada com esse perfil cresceram 35% entre 2019 e 2025, enquanto as demais caíram 10%. Ou seja: não é apenas uma discussão sobre quantidade de vagas. O próprio conteúdo do trabalho de quem está começando está mudando.
Durante muito tempo, a carreira corporativa funcionou como uma escada. O profissional começava executando tarefas mais simples, aprendia com colegas e gestores, desenvolvia repertório e, aos poucos, assumia responsabilidades maiores. Agora, a novidade é que a IA pode estar encurtando esse caminho.
Se as atividades mais operacionais são automatizadas, o profissional júnior pode chegar mais rapidamente a tarefas que exigem julgamento, comunicação, criatividade e tomada de decisão. É uma oportunidade de tornar o início da carreira mais interessante e produtivo, ao mesmo tempo em que se cria um problema: como desenvolver competências mais complexas sem passar pelas experiências que ajudavam a construí-las?
Para o RH, isso significa repensar o desenho das posições de entrada. A recomendação da Gartner é justamente olhar para quais tarefas a IA pode assumir e quais experiências precisam continuar sendo oferecidas aos profissionais para que eles desenvolvam novas capacidades.
Também muda a expectativa sobre quem está começando. Se uma vaga júnior passa a exigir competências que antes apareciam apenas depois de alguns anos de carreira, existe o risco de a posição deixar de ser, na prática, uma porta de entrada.
O desafio é encontrar o equilíbrio – ou seja, usar a IA para acelerar o desenvolvimento sem usar a tecnologia como justificativa para eliminar justamente as oportunidades que permitem a alguém se desenvolver.
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