Popularização das apostas esportivas começa a impactar a rotina do RH: pedidos de adiantamento, endividamento, queda de produtividade e ludopatia entram na agenda de gestão de pessoas — e o desafio vai além de criar uma “política para bets”

Por André Proença*
Vivemos um momento em que a velocidade das transformações põe em xeque uma das premissas mais tradicionais da educação: a de que existe um período para aprender e outro para aplicar o conhecimento.
A inteligência artificial acelera mudanças, novos modelos de negócio surgem em ritmo exponencial e as competências exigidas das lideranças se renovam continuamente. Não por acaso, o Future of Jobs Report, do Fórum Econômico Mundial em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC), estima que 44% das competências essenciais dos trabalhadores deverão mudar até 2030, impulsionadas principalmente pela inteligência artificial e pelas transformações tecnológicas.
Nesse cenário, a principal vantagem competitiva deixou de ser aquilo que sabemos hoje e passou a ser nossa capacidade de continuar aprendendo e de aplicar aquilo que se aprende. Esse talvez seja o maior impulso da educação executiva nas últimas décadas.
Durante muito tempo, a formação de executivos esteve associada a momentos específicos da carreira. Hoje, aprender deixou de ser uma etapa para se tornar função permanente da liderança. Mais do que dominar novos conteúdos, líderes precisam interpretar cenários complexos, tomar decisões em ambientes de incerteza, conectar diferentes perspectivas e transformar conhecimento em ação.
É justamente por isso que a educação executiva também precisa evoluir. Seu papel não é apenas transmitir conhecimento, mas criar experiências que integrem ciência e prática, estimulem reflexão crítica e ajudem profissionais e organizações a responder a desafios concretos. Afinal, conhecimento só produz desenvolvimento das pessoas e das organizações quando encontra contexto e aplicação.
A dimensão dos problemas atuais deixou evidente que soluções padronizadas têm alcance limitado. Cada organização combina cultura, estratégia, pessoas e dilemas próprios. A relevância da educação está justamente na capacidade de construir caminhos em parceria com quem vive essas realidades, articulando conhecimento acadêmico e experiência prática para gerar resultados expressivos.
Ao completar 50 anos, a Fundação Dom Cabral olha para sua trajetória com a convicção de que permanecer relevante só é possível para instituições que também se mantêm em constante aprendizado. Durante essas décadas, acompanhamos profundas transformações na economia, na gestão e nas organizações brasileiras, sempre entendendo que o conhecimento se fortalece quando é construído junto com empresas, governos e organizações da sociedade.
Talvez esse seja um dos principais aprendizados dessa trajetória: tradição e inovação não são conceitos opostos. Pelo contrário. A experiência acumulada amplia a capacidade de inovar com consistência, distinguindo mudanças estruturais de modismos passageiros. Tradição não significa preservar métodos, mas preservar a capacidade de evoluir.
Essa mesma lógica vale para a liderança. Se antes o líder era reconhecido principalmente por oferecer respostas, hoje seu diferencial está na capacidade de fazer perguntas melhores, integrar diferentes conhecimentos, mobilizar pessoas e construir confiança em ambientes marcados pela instabilidade. A tecnologia amplia capacidades e o acesso a conteúdo, mas continua sendo das pessoas a responsabilidade de dar sentido às decisões e definir os rumos das organizações.
Por isso, o futuro da educação executiva será cada vez menos sobre oferecer conteúdos e cada vez mais sobre desenvolver capacidades humanas: pensamento crítico, visão sistêmica, colaboração, adaptabilidade e aprendizagem contínua – competências mais valorizadas para os próximos anos. De acordo com o relatório Future of Jobs Report, são justamente habilidades que complementam a inteligência artificial, não que competem com ela.
Em seu jubileu de ouro, a Fundação Dom Cabral reafirma esse compromisso. Mais do que preparar profissionais para o próximo desafio, queremos contribuir para formar líderes capazes de aprender continuamente, transformar conhecimento em ação e construir organizações mais competitivas e preparadas para um futuro que já começou.

*André Proença é Vice-Presidente de Educação Executiva da Fundação Dom Cabral, onde lidera iniciativas voltadas ao desenvolvimento de executivos e organizações, com foco em estratégia, inovação e formação de lideranças. Com mais de duas décadas de experiência em consultoria de gestão e educação executiva, construiu uma trajetória marcada pelo desenvolvimento de soluções para empresas de diferentes setores e pela condução de projetos de transformação organizacional no Brasil e no exterior.
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