Na farmacêutica, Elisabete defende que transparência e cuidado com os colaboradores são a chave para empresas sustentáveis; para executiva com mais de duas décadas de carreira, papel do RH é transformar incerteza em contexto
Poucas transformações chegaram ao ambiente corporativo com a velocidade da IA. Em alguns meses, ferramentas capazes de resumir reuniões, produzir textos, analisar grandes volumes de dados e apoiar decisões passaram a fazer parte da rotina de profissionais de praticamente todos os setores. Mas, à medida que a tecnologia avança, cresce também um desafio menos evidente: preparar as pessoas para trabalhar de forma diferente.
A discussão sobre inteligência artificial nas empresas deixou de ser tecnológica e o desafio agora é humano. “A IA amplia nossa capacidade de trabalho, mas são as pessoas que dão sentido às informações e tomam as decisões. O verdadeiro ganho da inteligência artificial acontece quando ela melhora a experiência de trabalho, e não apenas acelera o ritmo das entregas”, diz Adriana Paulilo, Human Resources Business Partner e Country Lead da HP Brasil.
Dados mostram que essa equação ainda está longe de ser resolvida. O Work Relationship Index 2025 (WRI), estudo global realizado pela HP com mais de 18 mil trabalhadores do conhecimento, líderes empresariais e executivos de tecnologia em 14 países, revela um cenário de contrastes. Enquanto a inteligência artificial se consolida como ferramenta de trabalho, cresce também a sensação de sobrecarga: 71% dos brasileiros afirmam que as demandas e expectativas das empresas aumentaram no último ano.
Ao mesmo tempo, caiu de 79% para 67% o percentual de profissionais que dizem receber treinamento adequado para utilizar IA, justamente em um momento em que a tecnologia exige novas competências e muda a forma como o trabalho é realizado. O levantamento aponta ainda que profissionais que utilizam inteligência artificial com frequência tendem a apresentar uma relação mais saudável com o trabalho, indicando que o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como as organizações conduzem essa transformação.
Para Adriana, essa é justamente a principal missão das lideranças de RH. Depois de 25 anos na companhia – trajetória que começou na área de negócios antes da migração para Recursos Humanos – ela acompanhou mudanças como a digitalização, o trabalho híbrido e a consolidação da agenda de bem-estar. Na avaliação da executiva, nenhuma delas alterou tão profundamente a dinâmica do trabalho quanto a inteligência artificial.
Nesta entrevista para Cajuína, ela analisa como a IA está redesenhando competências, liderança, cultura organizacional e a própria relação entre empresas e profissionais.
A IA deve ser vista como uma ferramenta para potencializar o trabalho das pessoas, e não como uma fonte de pressão. A tecnologia será um diferencial importante, mas serão as pessoas que determinarão o sucesso dessa transformação.
Minha trajetória em Recursos Humanos sempre foi motivada pelo interesse em desenvolver pessoas e conectar esse desenvolvimento aos objetivos do negócio. A transição começou quando ainda atuava mais próxima do negócio, liderando um projeto para uma grande conta. Essa experiência foi marcante porque me permitiu enxergar, na prática, como pessoas, processos, liderança e estratégia estão diretamente conectados aos resultados do cliente e da empresa.
Foi nesse contexto que percebi que queria direcionar minha carreira para uma área em que pudesse fortalecer essa conexão entre pessoas e negócios. A migração aconteceu a partir dessa percepção: de que desenvolvimento de talentos, cultura e liderança são elementos fundamentais para sustentar a estratégia da organização.
Ao longo desses anos, acompanhei uma mudança importante. O RH deixou de ser visto principalmente como uma área de suporte para assumir um papel estratégico, ajudando as organizações a responder às transformações do mercado. Hoje, essa atuação passa pelo desenvolvimento de competências, fortalecimento da cultura, formação de lideranças e experiência do colaborador. Entendo que investir nas pessoas é essencial para impulsionar a inovação. Por isso, nossa estratégia prioriza a aprendizagem contínua e a preparação dos profissionais para um cenário em constante evolução.
A inteligência artificial faz parte da evolução digital das empresas, mas traz uma diferença importante: ela amplia a capacidade das pessoas de tomar decisões, criar e resolver problemas de forma mais ágil. Por isso, acredito que estamos diante de uma transformação mais profunda na maneira como o trabalho é realizado. Ao mesmo tempo, essa evolução reforça a importância das competências humanas.
Na HP, vemos a IA como uma ferramenta para aumentar a produtividade, personalizar a experiência dos colaboradores e apoiar melhores resultados, sempre combinada ao desenvolvimento de habilidades como pensamento crítico, colaboração e liderança empática. É esse equilíbrio entre tecnologia e pessoas que torna este momento tão relevante.
O que mais me surpreendeu foi ver como os profissionais têm se reinventado diante da inteligência artificial. No início, era natural existir resistência ou insegurança, principalmente pelo receio de que a tecnologia pudesse substituir parte do trabalho humano. Com o tempo, porém, as pessoas passaram a enxergar a IA como uma aliada para aprender, transformar processos e ampliar sua capacidade de entrega.
Hoje, vejo a IA fazendo diferença principalmente na forma como lidamos com informações e dados. Ela ajuda a analisar contextos, resumir conteúdos e transformar informações em insights de maneira muito mais rápida. Com isso, líderes e equipes chegam mais preparados às discussões, economizam tempo em atividades repetitivas e tomam decisões com mais contexto e evidências.
O resultado é que as equipes passam menos tempo em tarefas operacionais e mais tempo em atividades que exigem pensamento estratégico, criatividade, colaboração e proximidade com as pessoas. A IA amplia nossa capacidade de trabalho, mas a decisão final continua sendo humana. Julgamento, experiência, ética, contexto e a capacidade de equilibrar diferentes perspectivas seguem sendo essenciais.
O ponto de partida é mostrar que o aprendizado contínuo não significa dominar todas as novidades imediatamente, mas desenvolver a capacidade de aprender e se adaptar ao longo do tempo.
A preparação das pessoas é um dos nossos pilares. No Brasil, essa agenda ganha ainda mais relevância porque o país ocupa uma posição estratégica no ecossistema global de inovação da companhia. O Centro de Pesquisa & Desenvolvimento da HP, em Porto Alegre, integra essa cadeia global e contribui para o desenvolvimento de soluções tecnológicas aplicadas em diferentes mercados. Por isso, investir em talentos locais, capacitação contínua e tecnologias emergentes é essencial para fortalecer a presença da HP no país e ampliar a contribuição da inovação desenvolvida no Brasil. Sabemos que acompanhar a evolução da inteligência artificial exige aprendizagem contínua, e isso se torna ainda mais relevante quando observamos o mercado.
O Work Relationship Index 2025 mostra um recuo no número de trabalhadores que afirmam receber treinamento adequado para o uso de IA e esse cenário reforça a importância de investir de forma consistente no desenvolvimento das equipes. Por isso, buscamos fortalecer não apenas competências técnicas, mas também pensamento crítico, colaboração, adaptabilidade e aprendizado contínuo, porque entendemos que o impacto da IA depende, sobretudo, da capacidade das pessoas de utilizá-la para gerar melhores resultados para o negócio.
O ponto de partida é mostrar que o aprendizado contínuo não significa dominar todas as novidades imediatamente, mas desenvolver a capacidade de aprender e se adaptar ao longo do tempo. Buscamos criar um ambiente em que essa evolução aconteça de forma prática, integrada ao trabalho e com apoio da liderança. Também reforçamos que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta para potencializar o trabalho das pessoas, e não como uma fonte de pressão. Quando a organização investe em desenvolvimento, oferece acesso ao conhecimento e incentiva uma cultura de experimentação, os colaboradores ganham mais confiança para incorporar novas tecnologias no seu próprio ritmo.
As competências técnicas continuam importantes, mas deixam de ser suficientes por si só. Em um cenário em que a IA amplia o acesso à informação e automatiza parte das atividades, ganham ainda mais relevância habilidades como pensamento crítico, capacidade de aprender continuamente, colaboração, criatividade e inteligência emocional.
Também valorizamos profissionais curiosos, adaptáveis e dispostos a experimentar novas formas de trabalhar. Mais do que olhar para cargos específicos, buscamos pessoas capazes de aprender continuamente e de atuar em um ambiente de constante transformação. As competências técnicas seguem importantes, especialmente em tecnologia, mas hoje valorizamos cada vez mais habilidades como adaptabilidade, colaboração, pensamento crítico, criatividade e capacidade de trabalhar com dados e novas ferramentas digitais. A inteligência artificial tende a ampliar essa necessidade, tornando essas competências relevantes para praticamente todas as áreas da empresa, independentemente da função.
Acredito que estamos caminhando para um cenário em que a familiaridade com ferramentas de IA deixará de ser um diferencial para se tornar uma competência cada vez mais presente no mercado de trabalho. Isso exigirá um esforço conjunto. As empresas terão um papel importante ao promover capacitação contínua e criar ambientes seguros para experimentação. Já as instituições de ensino precisarão incorporar essas transformações aos processos de formação, e os profissionais serão cada vez mais protagonistas do próprio desenvolvimento. Mais do que dominar uma ferramenta específica, o diferencial será manter a curiosidade, a capacidade de aprender e o senso crítico para utilizar a tecnologia de forma responsável e ética.
Nossa forma de liderar é baseada em confiança, respeito, colaboração e foco genuíno nas pessoas. Acreditamos que formar líderes para esse cenário passa por desenvolver competências humanas com a mesma intensidade com que desenvolvemos competências digitais.
A tecnologia pode apoiar análises e aumentar a eficiência, mas a liderança continua sendo uma atividade essencialmente humana. Cabe aos gestores criar confiança, desenvolver pessoas, tomar decisões considerando o contexto e inspirar as equipes diante das mudanças. Também é papel da liderança garantir que diferentes níveis de familiaridade com a IA convivam de forma colaborativa, promovendo aprendizado e troca de conhecimento.
Nossa forma de liderar é baseada em confiança, respeito, colaboração e foco genuíno nas pessoas. Acreditamos que formar líderes para esse cenário passa por desenvolver competências humanas com a mesma intensidade com que desenvolvemos competências digitais.
Esse é um dos principais desafios da adoção da IA. Produtividade não pode ser confundida apenas com fazer mais em menos tempo. A IA deve ser uma aliada para reduzir atividades repetitivas e liberar espaço para inovação, colaboração e decisões mais estratégicas. O verdadeiro ganho acontece quando a tecnologia melhora a experiência de trabalho e permite que as pessoas concentrem energia em atividades de maior valor, e não apenas quando acelera o ritmo das entregas. Ao mesmo tempo, cresce a consciência de que o uso responsável da IA exige senso crítico e julgamento humano. Também observamos uma demanda cada vez maior por experiências de trabalho mais personalizadas, o que reforça a importância de combinar tecnologia com uma cultura voltada ao desenvolvimento das pessoas.
Sem dúvida. Os profissionais buscam cada vez mais empresas que ofereçam oportunidades de desenvolvimento, acesso a novas tecnologias e uma experiência de trabalho alinhada às suas expectativas. Isso reforça nossa estratégia de investir continuamente em desenvolvimento, tecnologia e experiências de trabalho que apoiem o crescimento das pessoas e acompanhem a transformação do mercado.
Mais do que oferecer ferramentas, as organizações precisam criar ambientes em que as pessoas tenham confiança para experimentar, aprender e evoluir ao longo da carreira. É essa combinação entre desenvolvimento, cultura e tecnologia que fortalece o engajamento e a capacidade de atrair e reter talentos.
A transformação mais significativa talvez não seja a automação em si, mas a capacidade da IA de tornar a experiência de trabalho muito mais personalizada. Isso tem impacto direto no desenvolvimento das pessoas, no engajamento, no bem-estar e na forma como as organizações atraem e retêm talentos. Pesquisas da HP mostram que os profissionais valorizam ambientes de trabalho adaptados às suas necessidades e que a IA pode contribuir para esse cenário.
Ao mesmo tempo, acredito que as empresas que sairão na frente serão aquelas capazes de combinar inovação tecnológica com uma cultura forte, centrada nas pessoas. Seguimos acreditando que a tecnologia deve ampliar o potencial humano – e não substituir aquilo que torna as relações de trabalho mais significativas. A tecnologia será um diferencial importante, mas serão as pessoas que determinarão o sucesso dessa transformação.
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