A expressão do momento, aquela tendência que acabou de chegar ao mercado, uma notícia que tem chamado atenção, uma trend que viraliza nas redes ou até uma nova regulamentação. Se o tema está quente, é melhor não ficar para trás. Mas nem sempre conseguimos acompanhar tudo o que tem acontecido no mundo do RH.
A roda gira, e às vezes bem rápido. Esta seção de Cajuína traz os assuntos mais frescos do universo de quem trabalha com gente.
Na pauta desta semana, vamos falar sobre… um novo termo que descreve o esgotamento por falta de desafios no mundo do trabalho – a síndrome do “boreout”.
O que você precisa saber
De tempos em tempos, uma expressão em inglês domina as conversas do RH. A bola da vez é a síndrome de boreout, que descreve um esgotamento causado não pelo excesso, mas sim pela falta de desafios.
Inspirado na palavra “bored” (“entediado”, em inglês), o conceito de boreout foi apresentado pela primeira vez em 2007, pelos consultores suíços Peter Werder e Philippe Rothlin. O termo ganhou força recentemente, impulsionado por relatos nas redes sociais – em especial, por profissionais da Geração Z.
Em vídeos no TikTok e em publicações no LinkedIn, trabalhadores descrevem uma rotina marcada por tarefas repetitivas, longos períodos de ociosidade, pouca autonomia e uma sensação constante de que suas habilidades estão sendo desperdiçadas.
O resultado pode parecer contraditório. Mesmo sem jornadas exaustivas ou cobranças excessivas, esses profissionais terminam o dia cansados, desmotivados e emocionalmente drenados. A explicação é que o cérebro também responde ao vazio: quando falta desafio, aprendizado ou propósito, o trabalho deixa de gerar satisfação e passa a provocar apatia.
O boreout descreve um estado de desmotivação provocado pela falta de desafios, autonomia ou significado nas atividades profissionais. Em vez de excesso de trabalho, há uma subutilização das competências da pessoa: tarefas repetitivas, baixa complexidade, pouco espaço para tomar decisões ou longos períodos sem demandas relevantes.
Os sintomas podem incluir apatia, procrastinação, dificuldade de concentração, ansiedade, irritabilidade e sensação de estagnação. Embora o termo não seja um diagnóstico clínico reconhecido, ao contrário do que acontece com o burnout, especialistas apontam que esse quadro pode evoluir para problemas mais sérios de saúde mental quando se prolonga por muito tempo.
Além disso, vale ressaltar que embora os relatos mais recentes tenham vindo de profissionais mais jovens, especialistas ressaltam que o boreout pode afetar trabalhadores de diferentes idades e níveis de carreira.
O interesse pelo tema também reflete uma mudança mais ampla na forma como as empresas discutem saúde mental. Depois de anos concentrando esforços para combater o burnout, o mercado começa a perceber que o problema não é apenas trabalhar demais. Trabalhar sem perspectivas de desenvolvimento também pode gerar sofrimento.
Esse conceito também ajuda a organizar uma série de expressões que passaram a circular no mundo do trabalho nos últimos anos. O burnout descreve o esgotamento provocado pelo excesso de pressão e trabalho. O quiet quitting fala de um comportamento: limitar-se a cumprir apenas o que está previsto no contrato, sem assumir responsabilidades extras. Já o burn-on retrata profissionais que continuam entregando resultados, mas vivem permanentemente sob tensão, hiperconectados e incapazes de descansar.
O boreout fecha esse ciclo ao mostrar que existe um outro extremo igualmente prejudicial. Se o burnout representa o excesso, o boreout representa a escassez de estímulos. Nos dois casos, o resultado costuma ser parecido: queda do engajamento, piora do bem-estar e redução da produtividade.
O que isso significa para o RH
O crescimento das discussões sobre boreout acontece justamente quando o engajamento dos colaboradores volta a preocupar empresas no mundo inteiro.
Segundo a Gallup, apenas 20% dos trabalhadores globais estão engajados com seu trabalho atualmente, o menor índice desde 2020. A consultoria estima que esse baixo engajamento custe cerca de US$ 10 trilhões por ano em perda de produtividade para a economia mundial. No Brasil, o cenário é melhor — 32% dos profissionais se declaram engajados —, mas o tema continua sendo um desafio para as organizações.
Isso ajuda a explicar por que o boreout chamou tanto a atenção do RH. Durante muito tempo, a produtividade foi associada apenas ao controle da carga de trabalho. Hoje, a discussão é mais sofisticada: colaboradores precisam de metas claras, oportunidades de desenvolvimento, autonomia para tomar decisões e desafios compatíveis com suas capacidades. Nem excesso, nem escassez.
Na prática, isso significa que gestores precisam prestar atenção não apenas aos profissionais sobrecarregados, mas também àqueles que parecem subaproveitados. Um colaborador que passa semanas sem desafios relevantes, sem perspectivas de crescimento ou sem enxergar impacto no que faz pode estar perto de um processo silencioso de desengajamento.
Em outras palavras, o boreout reforça uma ideia que vem ganhando força no RH: promover saúde mental não significa apenas evitar o excesso de trabalho. Também passa por criar experiências profissionais que despertem curiosidade, aprendizado e senso de propósito. Afinal, as pessoas não adoecem apenas quando trabalham demais. Às vezes, adoecem justamente porque deixaram de sentir que seu trabalho importa.