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Faltam mulheres desenhando nossa paisagem construída

Nesta nova coluna, Raul questiona a incoerência entre discurso e prática na diversidade e reforça: sem investimento real, diversidade não passa de intenção.

Raul Juste Lores
29 de abril de 2026
Capa do artigo Coluna Raul Lores abril de 2026
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A arquiteta Lua Nitsche projetou um dos prédios de escritórios mais surpreendentes de São Paulo, em Pinheiros, com terraços escalonados e um degradê azul visto do viaduto da avenida Sumaré. Sua colega Sol Camacho pilotou a restauração e reforma do estádio do Pacaembu — quem já esteve na feira de artes ArPa, no subsolo, impressionou-se com a engenhosidade.

E da prancheta da mineira Jô Vasconcelos saiu a impactante Sala Minas Gerais, sede da Filarmônica local, a versão “pão de queijo” da Sala São Paulo.

Por isso, fico muito enfezado sempre que encontro um conhecido, Faria Limer típico, dono de seu próprio fundo imobiliário, e que já bancou algumas dezenas de prédios. Ele me fala, há anos, “nunca patrocinei um prédio projetado por uma arquitetura mulher”, lamenta. “Minha esposa sempre me cobra, mas é tão difícil achar”. Ainda revela que só a esposa consegue lhe dar um fiapo de conscientização.

O rapaz míope deve falar isso porque sonha em ser diferente dos demais e quer mostrar uma preocupação social, e com gênero, que certamente não tem no dia a dia. Só quando me encontra, e nota meu olhar de reprovação. Ele já diz isso há uns seis anos, e obviamente ainda não contratou uma arquiteta. Deve achar que todas as mulheres da área só são capazes de fazer decoração ou paisagismo.

Todo mundo já ouviu uma ladainha parecida. Pior: como até grandes multinacionais têm colocado programas de diversidade no banco de trás, agora é a hora de se destacar quem realmente tem propósito, convicção e princípios sérios. Na construção de marca e reputação de sua empresa, ser verdadeiro e autêntico deveria estar no topo dos compromissos.

A peneira para se criar um time diverso e dar oportunidades a quem enfrentou mais barreiras na vida é justa? Ou é sempre mais fácil promover a cargos-chave quem já se conhece e em quem se confia?

Por exemplo, os amigos do futebol noturno, os que assistem aos jogos do time do coração no fim de semana, e no mesmo camarote? Quem matricula os filhos na mesma escola cara? Se você só convive com gente igual a você, em uma bolha homogênea, vai ser difícil não fazer aquelas fotos de reunião de equipe que são achincalhadas nas redes sociais. A estética vai além da arquitetura.

Já me ofereci mais uma de uma vez ao Faria Limer do fundo imobiliário para lhe apresentar ótimas arquitetas, que projetariam prédios bem menos caretas que os que ele financia. Nunca retornou. Será que ele acha que minha consultoria sairia caro? Sim, sair do seu quadrado custa dinheiro. E a disposição de mexer no bolso é proporcional ao investimento que você quer fazer para ter um time dos sonhos — e diverso. Menos discurso e mais recursos para medir a coerência.

Modestamente, no meu canal no YouTube, já dei espaço e ressaltei o trabalho de diversas arquitetas e urbanistas, brasileiras e estrangeiras. De Bete França a Ali Estefam, de Frida Escobedo a Jeanne Gang, de Fernanda Basques a Anna Dietzsch. Divulgar é inspirar outros e calar quem diz “que é tão difícil achar”.

Na sua empresa, quando se nota que faltam PCDs, mulheres, negros e pessoas LGBTQIA+ em posições de liderança, fica-se só no discurso, na lamentação? Ou você vai a campo?

Raul Juste Lores é jornalista e escritor. É autor do livro “São Paulo nas Alturas”, colunista do UOL e criador do canal São Paulo nas Alturas, que já superou a marca de 20 milhões de visualizações no Youtube.