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Por que estão falando tanto de… quit-tok

Por que estão falando tanto de… quit-tok

Muito distante do quiet quitting, a prática de publicar vídeos que mostram a própria demissão nas redes sociais ganhou popularidade entre a fatia mais jovem da atual força de trabalho. O quit-tok, trend que já soma muitos adeptos no TikTok, mostra como estamos diante de um novo perfil profissional – e um novo desafio para o RH.

Cultura e pessoas por Bruna Marques, do Zé Delivery

A head de Comunicação e Desenvolvimento de Pessoas no Zé Delivery conta sua trajetória e inspirações

Lidiane Faria
13 de março de 2022
“A cultura está dentro das pessoas” – a visão de Bruna Marques, do Zé Delivery
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Se você acessa o LinkedIn ao menos de vez em quando, provavelmente já se deparou com algum post da Bruna Marques. Líder de Comunicação e Desenvolvimento de Pessoas do Zé Delivery, ela, que também é mãe do Tom, de 1 ano e 10 meses, escreve com frequência sobre seus desafios profissionais e maternidade. “Comecei a falar um pouco sobre tudo isso na minha licença maternidade e muitas mães se identificavam. Com o alcance, vi que era importante partilhar”, conta. Antes de entrar de vez para a área de RH e trabalhar em empresas com Neon e Revelo, estudou um ano de Relações Públicas e empreendeu com um software para cantinas escolares. Mas foi o curso de Psicologia que a desenvolveu. “Me fez olhar além da minha bolha de privilégios e entender meu papel.”

A seguir, conheça um pouco mais de sua trajetória e visão sobre RH.

Como você acredita que a área de Pessoas pode ser mais estratégica?

Sou muito apaixonada pelo que faço. Vejo que as áreas de Pessoas e liderança são muito grandes e estamos em um mundo corporativo com dois extremos: de um lado, resultados a qualquer custo; de outro, pessoas. É importante ter um meio termo: falar a língua do negócio, ser estratégico e movido à dados, mas também precisamos olhar para os indivíduos. Eles não são máquinas. Sou muito segura neste posicionamento porque é algo que realmente acredito.

E quais são as principais mudanças que você observou na pandemia?

Vejo que o equilíbrio que muita vezes a gente ignorava entre vida pessoal e profissional veio à tona. As empresas foram obrigadas a olhar para isso, ouvir as pessoas, pensar em seu bem-estar. Pessoas adoecem e têm problemas. Os profissionais passaram a valorizar mais o seu tempo. Antes, perdíamos horas em deslocamento, e ao ter esse tempo pra si, as pessoas entenderam como esse tempo é precioso. Não existe ponto positivo da pandemia, mas foi uma situação que acelerou a flexibilidade sobre modelos de trabalho nas empresas – e todos entenderam que, para algumas posições, é uma realidade possível.

É importante ter um meio termo: falar a língua do negócio, ser estratégico e movido à dados, mas também precisamos olhar para os indivíduos. Eles não são máquinas.

E como criar conexão entre pessoas diante de novos modelos de trabalho?

Antes, existia uma resistência a dar autonomia para as pessoas e liberar o home-office, mas agora olhamos mais para os rituais. Criamos espaços de acolhimento, pertencimento, engajamento e saúde mental. A cultura está dentro das pessoas, e não no ambiente dos escritórios.

Como a empresa mantém a cultura nessa nova realidade?

Cultura é a forma com que fazemos as coisas, em rituais oficiais ou não. As relações interpessoais continuam existindo no remoto, mas se antes um líder microgerenciava as coisas, indo na mesa do time toda hora, por exemplo, hoje manda mensagens a cada segundo no Slack.

É preciso entender que autonomia é importante e se atentar muito à forma como a liderança age. Ela é um espelho para seus pares e para todo o time. E, nesse contexto, a área de Pessoas está muito exposta, é preciso ter atenção redobrada. Ela é a porta-voz da cultura e dos valores da empresa, e ao final do dia tudo é sobre as ações que são realizadas. No Zé, produzimos um guia muito legal para os funcionários sobre o que é esperado e o que é aceitável no trabalho remoto. Isso traz muita clareza para todos.

A cultura está dentro das pessoas, e não no ambiente dos escritórios.

E quais skills atualmente são fundamentais para líderes?

Ser vulnerável, transparente e humano(a). Prestar atenção se o que você fala é o que você faz – walk the talk. Sempre existiu a figura do líder “herói”, que sabe tudo, e muita gente até dizia que você precisava ter essa postura. Mas escolhi ser a líder que muitas vezes diz “não sei”, talvez por ter começado mais tarde – ingressei na faculdade aos 23 anos.

Mas também percebi que jogar transparente com seu time, para que vocês descubram juntos as respostas, faz muita diferença. O líder é um parceiro do time e tem o papel de direcionar e desdobrar a estratégia da empresa.  Nem sempre ele tem todas as respostas – e também tem angústias e perrengues. Quando não estou bem, falo abertamente ao meu time. Isso abre uma porta importante de conexão e as pessoas valorizam isso.

O que você gostaria que outras áreas soubessem sobre RH?

No Zé somos muitos privilegiados, pois as áreas já entendem muito o nosso papel. E o RH é o guardião do maior ativo da empresa: gente.

Pessoas produzem quando estão bem. Isso é produtividade saudável, e nós pensamos em como tornar essa jornada mais longa, prazerosa e sustentável – afinal, quando perdemos um funcionário, existe uma perda financeira também. As áreas precisam entender o RH como um grande aliado. Nenhuma empresa fica de pé hoje sem gente.

Quando perdemos um funcionário, existe uma perda financeira também.

E quando você teve a ideia de começar a compartilhar conteúdos no LinkedIn?

De verdade, não foi algo intencional. No meu primeiro estágio, eu nem usava ainda a plataforma e fui aderindo aos poucos. Quando meu filho nasceu, em maio de 2020, fiquei em licença-maternidade. Não imaginava que estaria em um cenário pandêmico, muito menos que após o final deste período eu trabalharia de casa. E mesmo com suporte, um bebê exige muito. Eu tinha questões emocionais e muitas vezes me sentia culpada por não estar com meu filho. Fui me redescobrindo como mulher, profissional e mãe. Comecei a falar um pouco sobre tudo isso e muitas mães se identificavam. Com esse alcance, vi que era importante partilhar.

E quais são os principais temas que você aborda?

Maternidade e carreira, equidade de gênero e criação de filhos como papel da sociedade – e não só apenas da mulher. Cerca de 70% das mulheres no mercado são desligadas após a licença-maternidade. Também abordo saúde mental e liderança humana.

Já falei inclusive sobre depressão após uma palestra sobre setembro amarelo no Zé. Foi um momento muito importante para mim, já que estar em um lugar com segurança psicológica faz muita diferença. Não tenho uma pauta ou calendário, as coisas vão acontecendo e escrevo.

Quem te inspira?

No LinkedIn, Luciano Santos me inspira porque é um cara que não tem medo de falar o que pensa, mas sempre com respeito. Ele escreve de forma muito autêntica, olhando  para as pessoas além dos seus cargos. Recentemente, lançou o livro Seja egoísta com sua carreira.

Tudo pode ser tratado – desde a coisa mais dura, mas com respeito e empatia –  mas a gente tem que ter responsabilidade com o que fala com as pessoas.

E se puder indicar um livro, gosto muito do Faça acontecer – mulheres, trabalho e a vontade de liderar, da Sheryl Sandberg. É recheado de sacadas para mulheres e mães, com vários exemplos sobre carreira e maternidade.

O que você gosta de fazer nas horas vagas?

Sempre fui muito caseira. Gostava de ir ao cinema, ao teatro, viajar e chamar os amigos em casa, mas com a pandemia isso foi reduzido. Agora, com meu filho, gosto de ir em parques e para o campo, pisar na terra e comer coisas gostosas. Não sou de grandes programas. O simples me agrada.

Você consegue se desconectar?

Sim, durante os finais de semana. Tenho praticado muito isso e dedicado tempo ao meu filho

E o que você gostaria de dizer para outros profissionais de RH?

Diria para que a gente não desista do nosso propósito de cuidar de gente. Às vezes abrimos mão de um lado e nos posicionamos do outro, mas cuidamos das pessoas, de relações mais saudáveis e do bem-estar. Trabalhamos muito, às vezes ficamos até mais tarde, mas devemos promover relações mais saudáveis com o trabalho. Tenho em minha agenda, por exemplo, o jantar e o banho do Tom pós-expediente, sendo eventos públicos do meu calendário.

E para a gente se ajudar, é bacana fazer muito benchmarking para trazer exemplos e a linguagem do negócio. Isso é importante quando queremos propor mudanças e novas ideias. Os exemplos do mercado nos ajudam muito.

Lidiane Faria é graduada em Relações Públicas e pós-graduada em Jornalismo. Tem experiência em startups de tecnologia, consultorias e emissoras de TV e adora ouvir pessoas incríveis.