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“A personalização faz sentido quando amplia oportunidades”, diz Charles Lukower, da Kenvue

Com quase três décadas de experiência, executivo aposta no equilíbrio para lidar com questões complexas como cultura, uso de dados, IA e personalização.

Bruno Capelas
22 de abril de 2026
Capa do artigo Tim-Tim com Charles Lukower da Kenvue
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Com quase trinta anos de experiência no RH, Charles Lukower entende bem a responsabilidade em trabalhar com pessoas. “Cada decisão tomada no RH pode mudar a trajetória da vida de um indivíduo, ao mesmo tempo em que transforma o futuro da empresa”, diz o vice-presidente de Pessoas da Kenvue na América Latina. Não à toa, para ele, equilíbrio é a palavra-chave para navegar um cenário em que novas tecnologias, expectativas em transformação e mudanças culturais exigem que a área combine estratégia, sensibilidade e propósito. 

Esse mesmo equilíbrio foi essencial para a Kenvue construir uma cultura própria: criada em 2023, a marca herdou mais de um século de história da Johnson & Johnson, ao mesmo tempo em que precisava ter coragem para se reinventar. “Precisávamos preservar o que nos trouxe até aqui, adicionando uma energia ágil e empreendedora”, conta Charles. Essa lógica também orienta o uso de dados, IA e personalização na empresa: ferramentas que, segundo ele, devem sempre ampliar oportunidades — e nunca restringi-las. Na conversa a seguir, Charles aprofunda como esse paradigma molda o presente e o futuro do RH.

Criança nenhuma diz para os pais que quer ser RH quando crescer. Como você começou a trabalhar na área? E o que te faz ficar nela todos os dias?

De fato, ninguém cresce dizendo que quer trabalhar em Recursos Humanos – e isso também foi verdade para mim. O que me mantém neste campo todos os dias é o impacto que podemos criar. Cada decisão tomada no RH pode mudar a trajetória da vida de uma pessoa, ao mesmo tempo em que transforma o futuro da empresa. Trabalhamos incansavelmente para cuidar de nossa gente porque sabemos que, quando eles prosperam, nossa cultura se fortalece e nosso propósito se torna realidade.

Você se formou e iniciou sua carreira no Brasil, mas há muitos anos tem uma carreira internacional. De que forma essa visão global moldou a sua trajetória e a sua forma de liderar?

Trabalhar com diferentes países e culturas foi um ponto de virada na minha carreira. Essa experiência me ensinou que não existe um único modelo de liderança. Exige escuta ativa, humildade para aprender com diversas perspectivas e flexibilidade para adaptar as estratégias a cada contexto. 

O que mais te desafia hoje, como líder de pessoas, em um momento em que o papel do RH está sendo reinventado?

O mundo está mudando em um ritmo sem precedentes, com novas tecnologias, novas expectativas dos funcionários e novas formas de trabalho. Como líderes de RH, precisamos acompanhar essa velocidade sem perder a essência do cuidado genuíno com as pessoas. Isso significa ser estratégico para traduzir dados e tendências em decisões de negócios — e ser humano para garantir que, por trás de cada métrica, há uma pessoa com sonhos, desafios e necessidades únicas.

A Kenvue surgiu em 2023, mas ela nasce de uma marca histórica como a Johnson & Johnson. Como foi criar uma empresa do zero, com uma cultura própria, mas que ao mesmo tempo respeitasse essa trajetória? E que aspectos do legado da J&J vocês quiseram preservar?

Foi uma oportunidade rara e emocionante. Criar a Kenvue significou construir uma nova identidade, sem perder o que nos trouxe até aqui. Preservamos nosso compromisso com a ciência, a qualidade e o cuidado, e adicionamos uma energia empreendedora – mais ágil e focada no futuro.

Ouvimos colaboradores de todas as regiões, aprendemos o que eles valorizavam do passado e o que queriam para o futuro. Com base nesses insights, definimos nossos pilares culturais e nosso propósito: realizar o poder extraordinário do cuidado diário. O resultado é uma cultura que honra nosso legado, ao mesmo tempo em que tem a coragem de inovar e se reinventar.

Como vocês alinham uma cultura global com identidades locais tão diferentes — de times nos EUA, América Latina, Ásia e Europa?

A chave é ter um propósito global claro e a flexibilidade para adaptar a execução localmente. Nosso propósito é o mesmo em todos os lugares, mas a forma como o concretizamos muda dependendo da cultura, do mercado e das necessidades de cada região. O papel da liderança global é criar um guarda-chuva cultural que una a todos, permitindo que cada região pinte seu próprio quadro.

A personalização é um dos grandes temas no RH hoje em dia. O que ela significa para você, na prática?

Personalização significa reconhecer que cada colaborador é único. Na prática, isso se traduz em oferecer trilhas de carreira flexíveis, benefícios adaptáveis e experiências de desenvolvimento que façam sentido para cada pessoa. Na Kenvue, usamos dados para entender quais habilidades cada colaborador deseja desenvolver e oferecemos jornadas de aprendizado personalizadas. Temos programas de desenvolvimento customizados para equipes de produção e equipes administrativas – cada um com sua própria abordagem. Também adaptamos benefícios para diferentes fases da vida, desde programas parentais até apoio para quem cuida de familiares idosos. Reconhecemos e recompensamos com base no impacto, porque acreditamos que o desenvolvimento deve estar atrelado ao valor que cada pessoa gera para o coletivo.

Quando cuidamos bem de nossa gente, eles cuidam melhor de nossos consumidores.

Em muitos casos, a pauta de personalização está ligada à ideia de “centralidade no colaborador”. algo que tem muito a ver com a ideia de “cuidado”, um valor forte na marca da Kenvue. Como a sua percepção do tema se une à cultura da empresa?

Para nós, cuidado não é apenas um valor. É parte da nossa identidade. A centralidade no colaborador significa ouvir ativamente, entender suas necessidades e criar soluções que realmente melhorem sua experiência. Quando cuidamos bem de nossa gente, eles cuidam melhor de nossos consumidores. É um ciclo virtuoso onde colaboradores engajados e valorizados impulsionam a inovação, a qualidade e um impacto positivo em milhões de vidas.

Como a Kenvue tem usado dados e IA para compreender melhor o que cada pessoa precisa – seja em aprendizado, benefícios ou oportunidades de carreira?

Usamos dados para identificar padrões, mapear necessidades e antecipar tendências. Por exemplo, conseguimos detectar quais habilidades estão em alta demanda e oferecer treinamentos direcionados. Um exemplo claro é a nossa plataforma de treinamento, o Learning at Kenvue. Ela usa inteligência artificial para personalizar a trilha de aprendizado de cada pessoa de acordo com seu perfil, objetivos e estágio de carreira. Também analisamos dados de engajamento para ajustar benefícios e programas de bem-estar, o que nos permite agir proativamente em vez de apenas reagir a problemas.

A personalização pode ser uma força de inclusão, mas também um risco de exclusão. O que garante que o uso de dados e IA amplie — e não restrinja — a diversidade?

O fator crítico é a intencionalidade e a ética. Usamos dados para expandir oportunidades, não para restringi-las. Isso significa revisar constantemente nossos algoritmos, garantindo que não haja vieses, e envolver um amplo espectro de pessoas na construção das soluções. No caso do Learning at Kenvue, por exemplo, a personalização das trilhas de aprendizado é desenhada para garantir que todos tenham acesso às mesmas oportunidades de desenvolvimento, respeitando diferentes ritmos, estilos de aprendizado e contextos.

Quais são, para você, os limites éticos e práticos da personalização? Até onde vale individualizar experiências — e quando isso deixa de fazer sentido?

A personalização faz sentido quando agrega valor real tanto para o colaborador quanto para a organização. O limite é atingido quando a individualização gera complexidade excessiva ou desigualdade. Trata-se de equilibrar relevância e equidade. Não podemos perder de vista que fazemos parte de um coletivo – e que a cultura organizacional também precisa de elementos comuns que unam a todos.

Além da pauta de personalização, como a Kenvue tem utilizado a IA no seu dia a dia? E como você vê o tema?

Usamos IA para acelerar processos, aprimorar análises e apoiar a tomada de decisões. Ela nos ajuda a prever necessidades de contratação, identificar riscos de turnover e sugerir planos de desenvolvimento mais precisos. Vejo a IA como uma ferramenta poderosa que deve ser usada com responsabilidade. O objetivo é aprimorar o humano, mas não substituí-lo. A tecnologia deve liberar tempo para que líderes e equipes possam focar no que realmente importa: construir conexões e gerar impacto.

Em meio a tantas mudanças tecnológicas, o que continua sendo essencial e humano no trabalho do RH?

Escuta ativa, empatia e propósito. Podemos ter as melhores ferramentas, mas é a conexão humana que constrói confiança e engajamento. No fim das contas, as pessoas se lembram de como você as fez sentir – e nenhuma tecnologia pode substituir isso.

Para fechar: que habilidades você acredita que serão indispensáveis para os líderes de RH nos próximos cinco anos?

Pensamento estratégico, fluência digital, adaptabilidade, liderança inclusiva e inteligência emocional. O líder de RH do futuro deve ser um tradutor entre pessoas e negócios – alguém capaz de usar dados para tomar decisões, enquanto inspira e engaja equipes em torno de um propósito comum.

E, olhando para a sua própria trajetória: o que você ainda quer aprender ou construir daqui para frente?

Quero continuar aprendendo sobre novas tecnologias aplicadas à gestão de pessoas e sobre como construir culturas que sejam ao mesmo tempo inclusivas e altamente inovadoras. Também quero deixar um legado de líderes preparados para cuidar das pessoas com propósito, coragem e impacto. No fim das contas, é isso que realmente transforma organizações e sociedades.

Bruno Capelas é jornalista. Foi repórter e editor de tecnologia do Estadão e líder de comunicação da firma de venture capital Canary. Também escreveu o livro 'Raios e Trovões – A História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum'.