Evento promovido por Caju e Fundação Dom Cabral em São Paulo reuniu executivos de RH para debater o uso real da IA no dia a dia e os caminhos para sua implementação nas empresas.
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Com quase trinta anos de experiência no RH, Charles Lukower entende bem a responsabilidade em trabalhar com pessoas. “Cada decisão tomada no RH pode mudar a trajetória da vida de um indivíduo, ao mesmo tempo em que transforma o futuro da empresa”, diz o vice-presidente de Pessoas da Kenvue na América Latina. Não à toa, para ele, equilíbrio é a palavra-chave para navegar um cenário em que novas tecnologias, expectativas em transformação e mudanças culturais exigem que a área combine estratégia, sensibilidade e propósito.
Esse mesmo equilíbrio foi essencial para a Kenvue construir uma cultura própria: criada em 2023, a marca herdou mais de um século de história da Johnson & Johnson, ao mesmo tempo em que precisava ter coragem para se reinventar. “Precisávamos preservar o que nos trouxe até aqui, adicionando uma energia ágil e empreendedora”, conta Charles. Essa lógica também orienta o uso de dados, IA e personalização na empresa: ferramentas que, segundo ele, devem sempre ampliar oportunidades — e nunca restringi-las. Na conversa a seguir, Charles aprofunda como esse paradigma molda o presente e o futuro do RH.
De fato, ninguém cresce dizendo que quer trabalhar em Recursos Humanos – e isso também foi verdade para mim. O que me mantém neste campo todos os dias é o impacto que podemos criar. Cada decisão tomada no RH pode mudar a trajetória da vida de uma pessoa, ao mesmo tempo em que transforma o futuro da empresa. Trabalhamos incansavelmente para cuidar de nossa gente porque sabemos que, quando eles prosperam, nossa cultura se fortalece e nosso propósito se torna realidade.
Trabalhar com diferentes países e culturas foi um ponto de virada na minha carreira. Essa experiência me ensinou que não existe um único modelo de liderança. Exige escuta ativa, humildade para aprender com diversas perspectivas e flexibilidade para adaptar as estratégias a cada contexto.
O mundo está mudando em um ritmo sem precedentes, com novas tecnologias, novas expectativas dos funcionários e novas formas de trabalho. Como líderes de RH, precisamos acompanhar essa velocidade sem perder a essência do cuidado genuíno com as pessoas. Isso significa ser estratégico para traduzir dados e tendências em decisões de negócios — e ser humano para garantir que, por trás de cada métrica, há uma pessoa com sonhos, desafios e necessidades únicas.
Foi uma oportunidade rara e emocionante. Criar a Kenvue significou construir uma nova identidade, sem perder o que nos trouxe até aqui. Preservamos nosso compromisso com a ciência, a qualidade e o cuidado, e adicionamos uma energia empreendedora – mais ágil e focada no futuro.
Ouvimos colaboradores de todas as regiões, aprendemos o que eles valorizavam do passado e o que queriam para o futuro. Com base nesses insights, definimos nossos pilares culturais e nosso propósito: realizar o poder extraordinário do cuidado diário. O resultado é uma cultura que honra nosso legado, ao mesmo tempo em que tem a coragem de inovar e se reinventar.

A chave é ter um propósito global claro e a flexibilidade para adaptar a execução localmente. Nosso propósito é o mesmo em todos os lugares, mas a forma como o concretizamos muda dependendo da cultura, do mercado e das necessidades de cada região. O papel da liderança global é criar um guarda-chuva cultural que una a todos, permitindo que cada região pinte seu próprio quadro.
Personalização significa reconhecer que cada colaborador é único. Na prática, isso se traduz em oferecer trilhas de carreira flexíveis, benefícios adaptáveis e experiências de desenvolvimento que façam sentido para cada pessoa. Na Kenvue, usamos dados para entender quais habilidades cada colaborador deseja desenvolver e oferecemos jornadas de aprendizado personalizadas. Temos programas de desenvolvimento customizados para equipes de produção e equipes administrativas – cada um com sua própria abordagem. Também adaptamos benefícios para diferentes fases da vida, desde programas parentais até apoio para quem cuida de familiares idosos. Reconhecemos e recompensamos com base no impacto, porque acreditamos que o desenvolvimento deve estar atrelado ao valor que cada pessoa gera para o coletivo.
Quando cuidamos bem de nossa gente, eles cuidam melhor de nossos consumidores.
Para nós, cuidado não é apenas um valor. É parte da nossa identidade. A centralidade no colaborador significa ouvir ativamente, entender suas necessidades e criar soluções que realmente melhorem sua experiência. Quando cuidamos bem de nossa gente, eles cuidam melhor de nossos consumidores. É um ciclo virtuoso onde colaboradores engajados e valorizados impulsionam a inovação, a qualidade e um impacto positivo em milhões de vidas.
Usamos dados para identificar padrões, mapear necessidades e antecipar tendências. Por exemplo, conseguimos detectar quais habilidades estão em alta demanda e oferecer treinamentos direcionados. Um exemplo claro é a nossa plataforma de treinamento, o Learning at Kenvue. Ela usa inteligência artificial para personalizar a trilha de aprendizado de cada pessoa de acordo com seu perfil, objetivos e estágio de carreira. Também analisamos dados de engajamento para ajustar benefícios e programas de bem-estar, o que nos permite agir proativamente em vez de apenas reagir a problemas.
O fator crítico é a intencionalidade e a ética. Usamos dados para expandir oportunidades, não para restringi-las. Isso significa revisar constantemente nossos algoritmos, garantindo que não haja vieses, e envolver um amplo espectro de pessoas na construção das soluções. No caso do Learning at Kenvue, por exemplo, a personalização das trilhas de aprendizado é desenhada para garantir que todos tenham acesso às mesmas oportunidades de desenvolvimento, respeitando diferentes ritmos, estilos de aprendizado e contextos.
A personalização faz sentido quando agrega valor real tanto para o colaborador quanto para a organização. O limite é atingido quando a individualização gera complexidade excessiva ou desigualdade. Trata-se de equilibrar relevância e equidade. Não podemos perder de vista que fazemos parte de um coletivo – e que a cultura organizacional também precisa de elementos comuns que unam a todos.
Usamos IA para acelerar processos, aprimorar análises e apoiar a tomada de decisões. Ela nos ajuda a prever necessidades de contratação, identificar riscos de turnover e sugerir planos de desenvolvimento mais precisos. Vejo a IA como uma ferramenta poderosa que deve ser usada com responsabilidade. O objetivo é aprimorar o humano, mas não substituí-lo. A tecnologia deve liberar tempo para que líderes e equipes possam focar no que realmente importa: construir conexões e gerar impacto.
Escuta ativa, empatia e propósito. Podemos ter as melhores ferramentas, mas é a conexão humana que constrói confiança e engajamento. No fim das contas, as pessoas se lembram de como você as fez sentir – e nenhuma tecnologia pode substituir isso.
Pensamento estratégico, fluência digital, adaptabilidade, liderança inclusiva e inteligência emocional. O líder de RH do futuro deve ser um tradutor entre pessoas e negócios – alguém capaz de usar dados para tomar decisões, enquanto inspira e engaja equipes em torno de um propósito comum.
Quero continuar aprendendo sobre novas tecnologias aplicadas à gestão de pessoas e sobre como construir culturas que sejam ao mesmo tempo inclusivas e altamente inovadoras. Também quero deixar um legado de líderes preparados para cuidar das pessoas com propósito, coragem e impacto. No fim das contas, é isso que realmente transforma organizações e sociedades.
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