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Por que estão falando tanto de… quit-tok

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Por que a Gerdau criou um programa de cuidado para colaboradores e dependentes

A gerente-geral de saúde e bem-estar da companhia conta como foi o processo para a implementação do +Cuidado, voltado para apoiar funcionários e seus dependentes em questões psicológicas, financeiras, jurídicas e sociais

Caroline Marino
22 de março de 2024
Leia emminutos
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Os últimos anos foram marcados por muitas mudanças sociais e no mundo corporativo. O excesso de trabalho, que sempre foi glamourizado, tem dado lugar a uma busca por mais equilíbrio, flexibilidade e qualidade de vida. O motivo é simples: a velha história de ser uma pessoa no trabalho e outra fora não existe mais, e as pessoas estão adoecendo por conta da pressão e de ambientes pautados apenas em resultados e cobranças. Uma pesquisa realizada recentemente pela Pipo Saúde com 9 mil trabalhadores de diferentes níveis hierárquicos, mostra que 48% estão com a saúde mental em risco, 44% sofrem de insônia, 60% são sedentários, 60% estão com sobrepeso ou obesidade. 

Atenta a esse cenário e decidida a mudar esse jogo, a Gerdau tem investido em programas corporativos de prevenção, saúde e qualidade de vida que envolvem letramento, treinamentos e apoio efetivo. Um dos exemplos é o +Cuidado, programa gratuito e confidencial criado em 2019.

Não podemos mais pensar no funcionário em duas esferas (profissional e pessoal) porque os dois lados impactam na produtividade, na segurança e nos relacionamentos.

A iniciativa, baseada no Programa de Assistência ao Empregado (PAE), oferece uma rede de mais de 40 mil profissionais especializados para apoiar colaboradores e seus dependentes legais na resolução de problemas relacionados a questões psicológicas, financeiras, jurídicas e sociais. Em 2023, foram 6500 atendimentos. Na entrevista a seguir, Adriana Mansueto, gerente-geral de saúde e bem-estar da companhia, conta como foi a construção da ação.

Como surgiu o programa +Cuidado? Foi impulsionado por alguma situação específica ou demanda dos funcionários? 

Sou assistente social e trabalho no mundo corporativo há mais de 30 anos. De lá para cá, muitas coisas aconteceram: entrada de diferentes gerações nas empresas, mudanças no cenário global, novas demandas profissionais relacionadas a mais equilíbrio, qualidade de vida e flexibilidade… Além disso, há algum tempo a Organização Mundial de Saúde (OMS) vem sinalizando sobre a importância de olhar para as questões de saúde mental. Somado a isso, as pesquisas chamam a atenção para o tema e colocam o Brasil em destaque: o país tem a população mais ansiosa do mundo e o uso de antidepressivos aumenta a cada ano.

Por isso, em 2019, percebemos que precisávamos implementar mais uma ação voltada ao cuidado com a saúde mental dos funcionários e seus familiares, e com ferramentas efetivas de apoio. A ideia tem como base o Programa de Assistência ao Empregado (PAE), um serviço gratuito e confidencial oferecido pelas empresas desde a década de 1960 para auxiliar na resolução de problemas legais, pessoais e financeiros. Aqui na Gerdau, disponibilizamos uma rede de profissionais especializados para apoiar colaboradores e seus dependentes legais na resolução de problemas relacionados a questões psicológicas, financeiras, jurídicas e sociais.

De que forma o programa foi estruturado?

O +Cuidado segue os princípios do PAE, mas fizemos alguns ajustes para atender as demandas atuais. Usamos como base os cinco pilares definidos pela OMS para ter saúde mental: realizar o seu potencial, enfrentar os desafios, lidar com o estresse da vida diária, trabalhar produtivamente e contribuir com a sua comunidade.

Como sabemos que em cada um deles há diversas questões envolvidas, o programa atua em quatro frentes: emocional, social, jurídica e financeira. Na parte emocional, olhamos para questões como perdas e lutos, conflitos interpessoais dentro e fora do trabalho, problemas conjugais e de relacionamento, ansiedade, desânimo, tristeza, compulsões e dependências químicas. Já a social abrange temas como cuidado com idosos e crianças, orientações sobre previdência e adoções, e planejamento familiar. A jurídica envolve aspectos relacionados a divórcios, testamentos e heranças. Por fim, o lado financeiro aborda temas como endividamento, planejamento financeiro e doméstico e aquisições de bens.

O +Cuidado abrange temas bem atuais, como a orientação sobre adoção e apoio efetivo para questões de saúde mental, como ansiedade e depressão – assuntos que não eram debatidos e vinculados à empresa há alguns anos. Como foi essa definição?

Os temas foram definidos a partir da experiência do PAE e da minha atuação como assistente social e coordenadora de programas de saúde mental ao longo dos anos. Até a década de 1960, tínhamos uma ideia de que havia uma divisão entre trabalho e vida pessoal, como se a partir do momento em que uma pessoa inicia a jornada de trabalho, o outro lado é “desligado”. Não funciona mais dessa forma. Sou a mesma Adriana na Gerdau e em casa. Quando trabalho em home office, por exemplo, estou atuando com todas as questões pessoais que estão acontecendo ao meu redor.

Não podemos mais pensar no funcionário em duas esferas (profissional e pessoal) porque os dois lados impactam na produtividade, na segurança e nos relacionamentos. Sempre falo que saúde mental afeta tudo e tudo afeta a saúde mental. Se o funcionário está com um problema financeiro, isso vai afetar o trabalho, assim como se estiver com passando por um processo de luto ou de cuidado com algum familiar. 

Quais são os principais cuidados para o programa dar certo?

O primeiro é o envolvimento da liderança. Os gestores precisam acreditar na ação e promovê-la no dia a dia, vendo-a como uma aliada da gestão e do cuidado com as pessoas. É essencial que ninguém tenha receio de usar e o exemplo começa nos gestores. O segundo é o respeito e a confidencialidade, seguindo todas as regras da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Nem o RH, nem os líderes sabem quem usa e porquê, exceto se o funcionário quiser falar algo. Por mais que a Gerdau tenha uma gestão aberta e transparente, para muitos ainda é difícil falar sobre questões de saúde mental.

Outro ponto fundamental é estar sempre próximo da gestão da rede credenciada, que possui aproximadamente 42 mil profissionais e atende outras companhias além da Gerdau. Sempre solicito profissionais com experiência de pelo menos cinco anos. No caso dos psicólogos, por exemplo, peço que tenham alguma especialização – há os que atuam com crianças, outros com casais. Quando possível, também gosto de conhecer alguns deles em diferentes regiões, já que a empresa atua em todo o Brasil.

Como foi a preparação dos líderes? A empresa realizou ações de conscientização e orientação?

Preparamos uma iniciativa voltada ao letramento da liderança em saúde mental com palestras que aconteceram durante seis meses. Entre os temas, abordei as definições de saúde mental, a melhor maneira de acolher o funcionário e, se precisar, realizar mudanças ou um encaminhamento. Também falei sobre como ter conversas sobre questões emocionais e sobre como lidar com possíveis casos de ansiedade, esgotamento e depressão, além de assuntos como empatia e escuta ativa. Muitos temas surgiram das dúvidas dos líderes. Esse treinamento acontece também em todas as integrações de novos gestores. 

De que maneira a empresa acompanha a efetividade do programa?

O acompanhamento é constante, quase diário. Além da interação com os funcionários para entender demandas e necessidades, estou sempre em contato com a rede de profissionais. Fora isso, após os atendimentos, o funcionário ou dependente que utilizou os serviços, é convidado a responder uma pesquisa confidencial. A ideia é mapear o índice de satisfação, que atualmente está em 97%, e pensar em possíveis ajustes. Se algum problema for detectado, atuamos para resolvê-lo. Há, ainda, uma pesquisa para a avaliação do profissional que realizou o atendimento.

Falando em ajustes, os últimos anos foram marcados por muitas mudanças. Em 2020, por exemplo, o mundo foi surpreendido pela pandemia de covid-19. De 2019 para cá, a Gerdau fez alguma alteração no programa ou implementou novidades?

A pandemia trouxe à tona nossos medos e vulnerabilidade, mas felizmente o programa já estava bem consolidado. Em toda tempestade, precisamos de uma boia e o +Cuidado foi essa boia. Conseguimos atender todos os colaboradores e dependentes que, de alguma forma, foram mais impactados pela Covid, seja por questões de perda de renda, seja por ter sido contaminado ou por ter perdido alguém próximo.

No que se refere a mudanças e ajustes, no ano passado, passamos a oferecer atendimento via WhatsApp, pois só tínhamos 0800. Também iniciamos o atendimento para pessoas surdas, com profissionais capacitados e todo suporte para o contato, e profissionais para atender o público LGBTQIAP+. Mas é importante ressaltar que o +Cuidado não é uma ação isolada e faz parte de um amplo programa voltado à qualidade de vida e cuidado com a saúde mental. Esse olhar faz parte da cultura da empresa.

Quais as outras ações que sustentam esse cuidado?

Acredito em uma atuação individualizada e focada em diferentes necessidades. Até porque as pessoas são distintas. Temos, por exemplo, o coaching de saúde mental para apoiar e ajudar os líderes, feito por um profissional de psicologia. O gestor pode tanto aprofundar o letramento no tema como tratar de questões específicas do time ou dele mesmo. Há também o Respiro, programa voltado ao autoconhecimento que auxilia na gestão das emoções e em todos os assuntos relacionados à saúde emocional, e o Semeadores de Bem-Estar, em que capacitamos os funcionários interessados a multiplicar a cultura do bem-estar. Todos os anos, as pessoas podem se inscrever para participar. Em 2023 tivemos 72 participações e, este ano, iniciamos recentemente e já estamos com 50 inscrições. 

Qual o seu principal papel nessa iniciativa?

Estar próxima das pessoas, escutar de verdade e sem julgamentos. Brinco que devo atuar como um “orelhão”, aquele telefone público de antigamente. Para isso, estou sempre perto dos funcionários de todos os níveis, áreas e unidades. Esse é meu papel: ouvir as demandas e necessidades, transformá-las em ações e, assim, impactar positivamente a vida das pessoas dentro e fora da companhia.

Jornalista especializada em carreira, RH e liderança feminina. Passou por publicações como Você S/A, Cosmopolitan e Valor Econômico, além de colaborar para Época Negócios, Você RH e Universal Uol. É coautora de "O mundo (quase) secreto das startups e head de conteúdo da Tempo de Mulher.