Busque por temas

Em alta

Como a Caixa reduziu o absenteísmo em 30% ao incentivar atividades físicas

Criado em 2024, programa Caixa em Movimento tem mais de 56 mil colaboradores cadastrados e mostra redução significativa nos índices de absenteísmo; incentivo a exercício também faz parte de plataforma para cuidados com saúde física e mental.

Bruno Capelas
4 de março de 2026
Capa do artigo Como Faz com Cintia Teixeira, da Caixa
Leia emminutos
Voltar ao topo

Quando decidiu criar o programa Caixa em Movimento, em 2024, a Caixa Econômica Federal tinha dois desafios claros: enfrentar um quadro histórico de absenteísmo no setor bancário e transformar o cuidado com as pessoas em política estruturada. “O programa surge em resposta à necessidade da empresa de cuidar dos empregados. É algo que traduz nossa cultura organizacional, que começa pelo cuidado com as pessoas”, afirma Cintia Teixeira, vice-presidente interina de Pessoas da instituição financeira. 

Com 85 mil colaboradores espalhados por mais de 5 mil unidades no País, a instituição precisava dar escala a iniciativas antes isoladas — e encontrou na atividade física um ponto de convergência. Dois anos depois, os números ajudam a dimensionar o impacto. Dos 85 mil empregados, 56 mil estão cadastrados na plataforma, que reúne desafios, eventos regionais e oito modalidades de atividades, como corrida, caminhada e ciclismo. 

Entre os participantes, o índice de absenteísmo é de 2,53%, contra uma média geral de 3,29% – uma redução de 29%. “É uma queda que mostra como a atividade física retorna o bem-estar para o empregado”, diz a executiva. Mais do que um programa de incentivo ao exercício, o Caixa em Movimento passou a integrar uma estratégia mais ampla de saúde física e mental, reforçando a percepção de pertencimento em uma empresa presente em todo o território nacional. Na entrevista a seguir, Cintia detalha os bastidores e os aprendizados da iniciativa.

Cintia, qual era o cenário na Caixa que levou à criação do programa Caixa em Movimento?

O programa surge em resposta à necessidade da empresa de cuidar dos empregados. É algo que traduz nossa cultura organizacional, que começa pelo cuidado com as pessoas. Já tínhamos iniciativas isoladas, mas nosso desafio sempre é conectar iniciativas com escala para alcançar os 85 mil empregados que hoje fazem a Caixa. Além disso, o Caixa em Movimento surge num contexto de absenteísmo do trabalho bancário – algo que não é exclusividade da Caixa, mas que faz parte da natureza do setor por conta de atividades repetitivas e de atendimento.

O Caixa em Movimento foi uma forma que percebemos de valorizar o cuidado, mostrar que a saúde do empregado importa e promover a inclusão e o pertencimento além das atividades do dia a dia. Hoje, temos vários núcleos de empregados que se reúnem para participar das corridas e atividades, e com isso já conseguimos identificar resultados objetivos. 

Como o programa funciona de fato?

Em 2024, nós criamos um aplicativo, que é a melhor forma de atender os 85 mil colaboradores espalhados em mais de 5 mil unidades pelo país. No app, cada pessoa recebe desafios e sabe exatamente quais as atividades que estão disponíveis, quando haverá encontros e eventos e onde eles estão localizados. Além do ciclo de desafios, que vale pontos e podem ser trocados por brindes, também realizamos eventos próprios do Caixa em Movimento, com regiões distintas lembradas a cada ciclo.

Em 2025, por exemplo, fizemos 17 eventos em Estados diferentes, justamente para que as pessoas se sintam representadas. A Caixa não é só Brasília, a Caixa está em todo o País, então buscamos formas distintas de alcançar os colaboradores. Ao todo, temos oito atividades, entre academia, corridas, caminhada, ciclismo, todas com forma de incentivos para o empregado participar. Hoje, dos 85 mil colaboradores, 56 mil estão cadastrados no Caixa em Movimento. É um alcance significativo, ainda mais para um programa em que o principal indutor é o bem-estar e o pertencimento. 

Qual é o resultado na queda do absenteísmo, Cintia?

Nossos dados mais recentes mostram que a Caixa tem uma média de 3,29% no absenteísmo. Entre os colaboradores participantes do programa, apuramos que o número caiu para 2,53%. É uma queda de 29%, que mostra como a atividade física retorna o bem-estar para o empregado. Mais do que o benefício individual, também é um benefício para toda a sociedade, porque a Caixa é um executor de políticas públicas importantes.

Conforme a tecnologia avança e as formas de trabalho mudam, alguns processos se automatizam, mas o perfil do absenteísmo muda.

Você comentou que há um absenteísmo histórico no setor bancário. Por que isso acontece?

É um movimento natural, de maneira que não há um motivo único. No passado, o setor bancário era marcado por muitas atividades repetitivas e de digitação. Pense, por exemplo, no FGTS: há 20 anos, boa parte das informações eram analógicas, de maneira que tínhamos um número significativo de colaboradores que passavam os dias digitando essas guias. Além disso, a própria atividade do caixa era repetitiva, com o colaborador passando muitas horas sentados. Precisamos criar uma série de mecanismos para cuidar disso, inclusive com pausas para que as pessoas levantassem a cada X minutos. E claro, havia um absenteísmo próprio por conta da natureza da atividade.

Conforme a tecnologia avança e as formas de trabalho mudam, alguns processos se automatizam, mas o perfil do absenteísmo muda. Na sociedade, de modo geral, há muitas pessoas que sofrem de ansiedade e depressão – e a Caixa também vive essa realidade. Não só agora com a implementação da NR-1, mas mesmo antes, as empresas precisam cuidar dos indicados de riscos psicossociais, de modo a apoiar seus colaboradores. E o Caixa em Movimento, mesmo antes da legislação específica, já faz parte de um esforço maior que temos aqui, o Fique Bem. É uma plataforma que olha muito para a questão da saúde mental e que busca apoiar o empregado nas suas necessidades.

O Caixa em Movimento traz benefícios nesse sentido, mas também temos uma parceria com a Conexa para o apoio na saúde psicológica, um programa de apoio com foco na saúde financeira e um programa de integridade, que é um valor inegociável da empresa. Mais do que tudo, buscamos ter um canal de diálogo permanente com os empregados para que eles se sintam acolhidos, ouvidos, respeitados e valorizados. A Caixa tem uma característica de ser uma empresa muito longeva – eu mesma faço 20 anos de Caixa em 2026. Cuidar das pessoas é uma forma da empresa sinalizar também que seu principal ativo importa muito.

Leia também: Como a Cogna reduziu o absenteísmo em 33% usando cabines de telemedicina

Como você disse, a tecnologia tem um papel fundamental na transformação do absenteísmo no setor bancário. Como você vê o atual momento, com a entrada do uso de IA nas empresas? E como a Caixa se prepara para a evolução das formas de trabalho?

A tecnologia precisa ser vista como um potencializador das habilidades humanas. Hoje, temos dentro da Caixa várias iniciativas que utilizam Inteligência Artificial. Ainda não temos uma iniciativa transversal a todos os empregados do ponto de vista de jornada, é algo que estamos perseguindo. Estamos também canalizando esforços para reduzir o trabalho repetitivo e permitir que nossos colaboradores contribuam para atividades de mais alto valor agregado.

Hoje, nossos colaboradores já têm acesso à licença do Copilot, temos trabalhado com agentes de IA, ainda de forma pulverizada. É desafiador fazer algo para 85 mil colaboradores, com atuações distintas, em uma empresa multi carreiras. Temos uma parceria muito boa com o time de tecnologia e acreditamos que a transformação tecnológica não pode ser centralizada em um só local. Assim como cultura não é um pensamento só da área de pessoas, a transformação tecnológica não pertence só à TI. É um trabalho de todos nós. 

Para encerrar, Cintia: que conselho você dá para empresas que também enfrentam problemas de absenteísmo e querem implementar uma iniciativa parecida?

O primeiro passo é entender o problema que se quer resolver. Não há receita de bolo, porque o ser humano é complexo e cada empresa tem uma cultura própria – a Caixa, inclusive, pelo seu porte, tem várias subculturas. Ou seja, cada empresa tem uma realidade distinta, mas é importante convergir para o que se quer alcançar. Mesmo que se comece com iniciativas isoladas, é importante testar o que funciona melhor para sua empresa – um grupo de corrida, um clube de leitura, uma área de debates, é importante conectar as iniciativas. Também é importante que haja um fio condutor com uma mensagem clara para os colaboradores, para que eles consigam fazer a leitura dos porquês da empresa ter tais iniciativas. Um dos principais detratores da cultura sempre pode estar na comunicação. Então, quando a mensagem está clara, isso facilita muito e gera essa percepção de cuidado.

Bruno Capelas é jornalista. Foi repórter e editor de tecnologia do Estadão e líder de comunicação da firma de venture capital Canary. Também escreveu o livro 'Raios e Trovões – A História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum'.