Com 70 anos de história, companhia de refeições coletivas encontrou no pertencimento e no desenvolvimento profissional uma fórmula para atrair e reter trabalhadores mais experientes
A expressão do momento, aquela tendência que acabou de chegar ao mercado, uma notícia que tem chamado atenção, uma trend que viraliza nas redes ou até uma nova regulamentação. Se o tema está quente, é melhor não ficar para trás. Mas nem sempre conseguimos acompanhar tudo o que tem acontecido no mundo do RH.
A roda gira, e às vezes bem rápido. Esta seção de Cajuína traz os assuntos mais frescos do universo de quem trabalha com gente.
Na pauta desta semana, vamos falar sobre… um novo estudo que traz dados inéditos sobre os efeitos que o trabalho remoto causa em trabalhadores americanos, ligando o modelo de trabalho a questões como depressão, ansiedade e solidão.
Quando a pandemia obrigou milhões de pessoas a trabalhar de casa, parecia que uma antiga promessa finalmente havia se tornado realidade. Sem deslocamentos, com mais flexibilidade e autonomia, o home office rapidamente passou a ser visto como um avanço inevitável na relação entre empresas e trabalhadores.
Seis anos depois, porém, a discussão ganhou novos contornos. Se antes o debate era dominado por questões de produtividade e desempenho, agora pesquisadores começam a olhar para outro aspecto da experiência profissional: a saúde mental. As primeiras conclusões sugerem que o trabalho remoto pode estar produzindo efeitos colaterais que passaram despercebidos nos primeiros anos da transformação.
É essa a discussão levantada por um artigo publicado recentemente no The New York Times, que repercute um estudo da revista científica Science feito por Emma Harrington e Natalia Emanuel, duas pesquisadoras da Universidade Harvard.
Com base em dados de mais de 500 mil trabalhadores americanos entre 2011 e 2024, a pesquisa aponta que profissionais em funções compatíveis com o home office passaram a apresentar níveis mais elevados de sofrimento psicológico, solidão e utilização de serviços de saúde mental após a pandemia.
O tema rapidamente ganhou espaço porque toca em uma das principais questões do futuro do trabalho: como equilibrar flexibilidade e conexão humana. Os pesquisadores compararam profissionais de ocupações que podem ser desempenhadas remotamente com aqueles cujas atividades exigem presença física.
Segundo os resultados, após a pandemia, os trabalhadores do primeiro grupo passaram a registrar indicadores mais altos de isolamento social, sintomas depressivos e procura por atendimento em saúde mental. De maneira geral, o crescimento do trabalho remoto foi associado a um aumento de 7 pontos percentuais nos níveis de estresse — cerca de um terço de toda a elevação observada entre 2011 e 2024.
Os efeitos foram ainda mais intensos entre pessoas que vivem sozinhas. Segundo os pesquisadores, 84% dos trabalhadores remotos passam o dia inteiro sem contato presencial com outras pessoas. Mais da metade afirma se sentir menos conectada aos colegas e relata receber menos feedback informal de profissionais fora de seus times.
A explicação proposta pelos pesquisadores é relativamente simples. Embora muitas vezes seja visto apenas como um espaço de trabalho, o escritório também funciona como um ambiente de convivência. Conversas informais, almoços, encontros nos corredores e interações espontâneas acabam desempenhando um papel importante na construção de relacionamentos e no sentimento de pertencimento.
Com a migração para o trabalho remoto, parte dessas interações desapareceu. O estudo sugere que muitos profissionais passaram a ter menos oportunidades de socialização ao longo da semana, aumentando a sensação de isolamento mesmo entre pessoas conectadas digitalmente durante boa parte do dia.
A popularidade do trabalho remoto ajuda a explicar por que esse debate é tão complexo. Pesquisas mostram que muitos profissionais aceitariam cortes salariais de 4% a 10% para manter a flexibilidade do home office. Seus benefícios são claros e imediatos; seus custos, mais difíceis de identificar. A solidão costuma surgir gradualmente e pode ser confundida com outros fatores da vida. Ao mesmo tempo, a volta ao escritório nem sempre resolve o problema, especialmente em empresas onde boa parte das equipes continua distribuída.
Nos últimos anos, muitas organizações discutiram o retorno ao escritório sob a ótica da produtividade, da cultura organizacional ou da colaboração. A nova pesquisa acrescenta mais uma variável a essa equação: a saúde mental.
Isso não significa que o RH deva abandonar modelos remotos ou híbridos. Pelo contrário. O estudo reforça a necessidade de tratar a experiência do colaborador de forma mais ampla. Se a flexibilidade se tornou um valor importante para os profissionais, a construção de vínculos também continua sendo uma necessidade humana fundamental.
Na prática, isso exige que líderes e equipes de RH se perguntem não apenas onde as pessoas trabalham, mas também como elas se conectam. Programas de integração, rituais de equipe, encontros presenciais planejados e espaços para interação informal podem se tornar tão importantes quanto ferramentas de produtividade ou plataformas de colaboração.
A discussão também ajuda a explicar um fenômeno observado por muitas empresas nos últimos anos. Em um momento em que engajamento, pertencimento e bem-estar aparecem entre as principais preocupações dos profissionais, talvez parte do desafio esteja relacionada não apenas à carga de trabalho, mas à redução das oportunidades de convivência.
Se a primeira fase da transformação do trabalho foi marcada pela busca por flexibilidade, a próxima pode depender da capacidade das empresas de reconstruir vínculos, criar pertencimento e fortalecer comunidades profissionais – independentemente de onde as pessoas estejam trabalhando.
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