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Por que estão falando tanto de… quit-tok

Por que estão falando tanto de… quit-tok

Muito distante do quiet quitting, a prática de publicar vídeos que mostram a própria demissão nas redes sociais ganhou popularidade entre a fatia mais jovem da atual força de trabalho. O quit-tok, trend que já soma muitos adeptos no TikTok, mostra como estamos diante de um novo perfil profissional – e um novo desafio para o RH.

Autora de “Permissão para falar” ensina como criar um ambiente de trabalho em que todos têm voz

Responsável por ajudar CEOs e estrelas de cinema, a preparadora vocal Samara Bay mostra que a vulnerabilidade pode ser uma ferramenta de conexão entre gestores e equipe.

Karina Sérgio Gomes
20 de fevereiro de 2024
Leia emminutos
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A preparadora vocal norte-americana Samara Bay estava trabalhando com a atriz Gal Gadot no filme Mulher Maravilha 1984, em 2018, quando recebeu uma ligação da Moveon, uma organização que encontra pessoas com perfil para se candidatarem a cargos públicos e oferece recursos para seu desenvolvimento. Eles queriam saber se Samara toparia treinar algumas das candidatas que disputariam sua primeira eleição nacional.

“Frente a frente com essas mulheres, ficou claro muito rapidamente que elas eram exatamente o tipo de pessoa que gostaríamos de ter como líderes. Eram membros da comunidade com experiências de vida que as permitiriam representar eleitores através da empatia”, lembra. “No entanto, essas mulheres incríveis tinham dificuldade em transmitir isso ao microfone ou em um palco.”

Já trabalhei com estrelas de cinema, CEOs de empresas bilionárias, empreendedores e estudantes do Ensino Médio. Todo mundo tem insegurança sobre sua voz ou sobre como são percebidos.

Naquele mesmo ano, Samara foi dar a palestra Como usar a sua voz para conseguir o que quer, na Universidade de Princeton, onde estudou, em uma conferência voltada para mulheres. A expectativa de público era de cerca de 50 pessoas, mas 465 interessadas se inscreveram. “Era uma informação de mercado que eu não estava esperando, mas que não podia ignorar”, ressalta.

Da experiência em treinar pessoas para se comunicarem e vendo o grande interesse de mulheres em conhecer as técnicas de como se apresentar em público e serem ouvidas, Samara escreveu o livro Permissão para falar — Empoderar vozes começando por você, publicado pela Fontanar. Em entrevista por e-mail à Cajuína, a autora deu algumas dicas para quem quer se expressar melhor e explicou como líderes e gestores podem ajudar toda a sua equipe (não só mulheres!) nesse processo.

Nos últimos anos, discutimos muito sobre a dificuldade das mulheres para se expressar em ambientes públicos – levando até ao surgimento de termos como “mansplaining” e “manterrupting”. Você acredita que a leitura do livro também pode ajudar homens a melhorar sua comunicação? 

Mulheres não são as únicas que secretamente se perguntam se falam de um jeito estranho, engraçado ou se soam fora do lugar, diferente de como as pessoas poderosas geralmente soam. Já trabalhei com estrelas de cinema, CEOs de empresas bilionárias, empreendedores e estudantes do Ensino Médio. Todo mundo tem uma história da sua voz. Todo mundo tem insegurança sobre sua voz ou sobre como são percebidos, uma coleção de comentários que já receberam e ajustes que fizeram como resultado. É algo mais distintivo entre mulheres, pessoas racializadas, imigrantes, pessoas LGBTQIAPN+ ou qualquer um que saiba que soa diferente. Mas a verdade é que todo mundo tem um drama mal resolvido sobre sua voz e como é percebido quando fala.

A autocrítica pode ser um dos limitadores para alguém conseguir se expressar. Você poderia dar algumas dicas de como “baixar a régua” das nossas expectativas para conseguir se expor, especialmente em ambientes de trabalho? 

Comece a perceber como você fala e como você se sente quando não tem nada a provar ou quando está com suas pessoas favoritas. Frequentemente entre amigos, nutrimos nosso eu mais verdadeiro. Como é esta pessoa? Ter autocrítica ao navegar em espaços de trabalho complicados é compreensível e pode ter levado você a se sentir pouco ou nada livre. Mas e se você se permitir incluir sua alegria dentro da noção de como será percebido? Em parte, imagino que vá se sentir melhor, mas é uma estratégia: quando nos mostramos em conversas importantes com nosso senso de travessura e nossa sabedoria interiores, somos mais vistos, fazemos conexões melhores e conseguimos mais aprovações.

Como líderes e gestores podem ajudar a criar ambientes seguros para as pessoas conseguirem expor o que pensam sem se sentirem constrangidas? 

Se líderes e gestores aprendessem mais sobre preconceitos sobre vozes e sotaques, haveria um ganho para todos. Preconceitos ou enviesamento sobre sotaques e vozes são invisíveis e não se fala disso. Fora das instituições de linguística, ninguém fala sobre o fato de que nosso cérebro imediatamente julga pessoas com base na forma como soam. Mas assim que percebemos que fazemos isso, temos a oportunidade de parar e questionar esse viés. Em outras palavras, é importante ter uma segunda impressão — mais sábia. “Ah, acidentalmente julguei aquela pessoa com base em seu sotaque ou por falar baixo ou com muita animação ou como um estrangeiro. Quem sabe eu possa mudar isso?”.

Se líderes e gestores falarem abertamente que estão criando uma cultura contra o viés da fala de seus colaboradores, há um convite para as pessoas serem mais autênticas no lugar de trabalho. Abre-se o espaço para as pessoas encontrarem segurança psicológica para serem elas mesmas, com seus próprios sons estranhos e suas próprias ideias estranhas. E isso não só ajuda na retenção de funcionários, mas também é uma estratégia para que todos tragam o seu melhor.

Em “Permissão para falar”, você comenta sobre como expor seu lado mais vulnerável pode ajudar a pessoa a se conectar com um público ao falar. Você acredita que essa dica também valeria para ambientes corporativos? 

Claro. Muitas vezes as pessoas associam vulnerabilidade com chorar ou compartilhar histórias que podem parecer inapropriadas para o trabalho. Mas nenhuma das duas coisas é necessária. Ser vulnerável simplesmente significa mostrar para as pessoas aquilo com o que você se importa. É sobre a verdade, sem usar uma máscara de perfeição. “Preciso ser honesto — não sabia se isso iria funcionar quando começamos”. Ou “Sabe o que eu amo? O que me intriga a vida inteira?”. De certa forma, ser vulnerável é uma maneira de preencher os espaços em uma vida que seria genérica, de forma que possamos nos conhecer melhor.

Sempre temos a opção de nos proteger ou nos conectar, mas quase nunca conseguimos fazer ambos ao mesmo tempo.

Todos temos a tendência de buscar parecer genéricos quando estamos em um espaço novo, deixando de lado nossas idiossincrasias para adotar as normas de onde estamos e a forma como a maioria das pessoas se comporta. E fazer isso é NORMAL. O corajoso próximo passo é sair aos poucos do esconderijo para mostrar às pessoas quem você realmente é — se você quiser se conectar. Sempre temos a opção de nos proteger ou nos conectar, mas quase nunca conseguimos fazer ambos ao mesmo tempo. Mas a vulnerabilidade é uma maneira excelente de se conectar, especialmente quando as pessoas estão em uma posição de poder. A vulnerabilidade aumenta sua afabilidade.

Você poderia destacar qual é o principal exercício que uma pessoa deveria fazer para se dar a permissão para falar? 

Falar é algo que requer muita coragem e uma mudança de mentalidade intencional. Além disso, exige prática para ocupar um espaço sentindo que pertence, para reimaginar essa figura heroica com a sua cara, para cuidar de seu público de forma amável e para confiar em você e nas suas ideias com firmeza. É o trabalho de se dar permissão para ficar em frente a pessoas que você não conhece, não sabe como elas se sentem, e ainda pensar: “ainda bem que estou aqui”. É algo que te libera para de fato ser a pessoa que estão buscando.

No livro, há muitos exercícios de respiração e também para outras partes do corpo, além da garganta e da boca. Você poderia comentar sobre esse ponto de que quando falamos, usamos o corpo todo? 

Falar é fazer sons. Esses sons são criados por nossa boca para dar sentido aos pensamentos que saem da nossa mente. Falar é, portanto, uma experiência do corpo, que acontece a partir do ar que sai dos nossos pulmões. Quando aquecemos nossos corpos com uma corrida ou poses de yoga, por exemplo, nos lembramos que somos um sistema único. Aquela tensão no quadríceps ou nas costelas afeta a forma como pensamos, respiramos e, portanto, como falamos. Se liberarmos essa tensão — ao dançar, dar risada ou respirar fundo — poderemos ser mais livres e espontâneos, conectados com a sabedoria do nosso corpo e, como consequência, mais presentes. Conseguiremos revelar nosso verdadeiro propósito em vez de esconder, mesmo quando estivermos na frente de muitas pessoas ao mesmo tempo.

Permissão para falar — Empoderar vozes começando com você, Samara Bay (Tradução: Steffany Dias). Editora Fontanar, 269 páginas. R$ 64,90 (Ebook: R$ 34,90).

Jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e mestre em Artes visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, já escreveu para veículos como Folha de S.Paulo, NeoFeed, Metrópoles, O Estado de S. Paulo, revistas GOL e Veja São Paulo. Trabalhou na curadoria de exposições no MAM São Paulo e no CCSP.