Em mês agitado, varejista anunciou chegada de novo diretor, enquanto empresa de tecnologia viu saída de VP; veja também novidades de Tenda, KPMG, Klabin, Mover e muito mais
A expressão do momento, aquela tendência que acabou de chegar ao mercado, uma notícia que tem chamado atenção, uma trend que viraliza nas redes ou até uma nova regulamentação. Se o tema está quente, é melhor não ficar para trás. Mas nem sempre conseguimos acompanhar tudo o que tem acontecido no mundo do RH.
A roda gira, e às vezes bem rápido. Esta seção de Cajuína traz os assuntos mais frescos do universo de quem trabalha com gente.
Na pauta desta semana, vamos falar sobre… uma pesquisa recente que mostra um paradoxo nas empresas brasileiras: feita para aliviar a sobrecarga de tarefas, a IA tem resultado em um aumento nos casos de burnout, diz uma pesquisa recente do Wellhub.
Publicado no último mês de outubro, a pesquisa Panorama do Bem-Estar Corporativo 2027, do Wellhub, investiga como as transformações no mundo do trabalho afetam a saúde e o bem-estar dos profissionais. Na edição deste ano, a pesquisa dá destaque à adoção da inteligência artificial e à relação entre o domínio da tecnologia, a carga de trabalho e o burnout. Foram ouvidos cerca de 5 mil colaboradores, em dez países diferentes.
Para analisar as diferenças entre os profissionais, o levantamento criou um índice de domínio de IA, que considera a frequência de uso das ferramentas e a confiança dos participantes na tecnologia. A partir dele, os trabalhadores foram divididos em três grupos:
O principal achado é um paradoxo: quanto maior o domínio da tecnologia, maior a proporção de profissionais que relatam sobrecarga. Entre os pioneiros, 40% afirmam que o uso corporativo de IA aumentou sua carga de trabalho, ante 28% dos adeptos e 15% dos iniciantes. Os relatos de sintomas diários de burnout seguem uma tendência semelhante: atingem 24% dos pioneiros, 22% dos adeptos e 16% dos iniciantes.
Uma das explicações levantadas pelo relatório é que a adoção da IA não elimina necessariamente as tarefas anteriores. Ela pode acrescentar novas etapas à rotina, como elaborar comandos, verificar respostas e supervisionar resultados.
Ao mesmo tempo, os profissionais que dominam as ferramentas acabam assumindo uma função informal de multiplicadores, ensinando os colegas a utilizá-las. Segundo o estudo, 79% dos pioneiros orientam outros integrantes da equipe sobre o uso da tecnologia, em paralelo às próprias demandas.
A pesquisa também mostra que o acesso à IA não é suficiente para garantir uma adaptação bem-sucedida. Enquanto 67% dos pioneiros se sentem capacitados para trabalhar com a tecnologia, o índice cai para 39% entre os adeptos e 19% entre os iniciantes.
A diferença aparece também na percepção de resiliência: 87% dos profissionais que se sentem plenamente capacitados dizem conseguir se adaptar ao ritmo das mudanças, contra 45% daqueles que não se sentem preparados.
Os resultados sugerem que o desafio da inteligência artificial vai além da escolha das ferramentas ou da oferta de treinamentos. Para o RH, a questão é entender como a tecnologia modifica a distribuição das tarefas, as expectativas de produtividade e as relações entre colegas.
Se uma ferramenta reduz o tempo necessário para executar determinada atividade, mas a empresa usa esse ganho para elevar metas, encurtar prazos ou incorporar novas entregas à rotina, o resultado pode ser uma intensificação do trabalho – e não uma redução da jornada. O próprio relatório aponta que 30% dos participantes concordam que o uso corporativo de IA aumentou sua carga de trabalho em vez de diminuí-la.
Isso exige atenção especial aos profissionais que lideram a adoção da tecnologia. Além de usar as ferramentas, eles frequentemente ajudam a capacitar o restante da equipe, sem que essa atividade esteja necessariamente prevista em suas responsabilidades. Reconhecer esse trabalho, reservar tempo para a aprendizagem coletiva e redistribuir demandas são medidas que podem evitar que os colaboradores mais preparados se tornem também os mais sobrecarregados.
Outro ponto de atenção é a clareza das regras. De acordo com o levantamento, 77% dos profissionais que conhecem uma política de IA clara e bem comunicada se consideram resilientes e capazes de se adaptar às mudanças, ante 39% daqueles que não sabem se a empresa tem uma política desse tipo. Mais do que estabelecer o que é permitido, as diretrizes precisam esclarecer o que se espera dos colaboradores e como a tecnologia deve ser incorporada ao trabalho.
O bem-estar também aparece como um fator de retenção. No Brasil, 91% dos participantes dizem que sairiam de uma empresa que não prioriza o bem-estar dos colaboradores. Entre os pioneiros em IA, o percentual chega a 93%. O dado chama a atenção para o risco de perder justamente os profissionais que acumulam experiência com as ferramentas e ajudam a disseminar esse conhecimento dentro das organizações.
Para o RH, portanto, a adoção da IA precisa vir acompanhada de uma revisão das condições de trabalho. Capacitar as equipes, ajustar expectativas de produtividade, definir responsabilidades e preservar espaços de colaboração são partes da mesma agenda. A tecnologia pode acelerar a execução de tarefas, mas transformar essa velocidade em ganhos sustentáveis depende também de como as empresas organizam o trabalho e apoiam as pessoas.
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