Na MRS, a inteligência artificial reduziu de 102 para 45 dias o prazo de contratação, mas a transformação começou antes da tecnologia: empresa revisou processos, eliminou etapas e redefiniu o papel dos recrutadores

O melhor especialista da área é promovido à liderança. Conhece profundamente o negócio, resolve problemas difíceis e virou referência técnica. Logo descobre que liderar exige outra coisa: conversar com áreas que falam linguagens diferentes, decidir com informação incompleta, mobilizar pessoas e enxergar impactos além do próprio território.
O que o trouxe até a liderança não é exatamente o que o fará prosperar nela.
É aí que o conceito de profissional T-shaped ajuda. A haste vertical do “T” representa profundidade: domínio técnico e capacidade de tomar decisões fundamentadas. A barra horizontal representa amplitude: visão sistêmica, colaboração, adaptabilidade e aprendizagem contínua. O profissional em T não é um generalista que sabe um pouco de tudo. Tem uma âncora de profundidade e, ao mesmo tempo, consegue construir pontes.
Problemas relevantes raramente respeitam organogramas. Uma decisão comercial afeta operações; uma mudança tecnológica altera processos e experiência do cliente. Quanto maior a responsabilidade do líder, menos útil é enxergar o negócio por uma única janela.
Formar líderes T-shaped, portanto, não significa acrescentar um curso de liderança à formação técnica. Significa criar experiências em que profundidade e amplitude sejam exercitadas juntas. Um executivo de finanças em um projeto de experiência do cliente precisa traduzir sua especialidade para outra realidade. É no atrito entre saber profundamente e conectar amplamente que o “T” se forma.
Nos 50 anos da pós-graduação da Fundação Dom Cabral, temos aprendido que desenvolver gestores para desafios contemporâneos exige essa combinação: visão sistêmica, aprofundamento em campos específicos e experiências que integrem conhecimentos para resolver problemas reais. Aprender não é apenas acumular conteúdo. É aprender a conectá-lo.
Há um paradoxo nas empresas. Elas dizem querer colaboração, inovação e visão sistêmica, mas muitas ainda selecionam, avaliam e promovem principalmente pela excelência dentro de uma função.
Se queremos líderes em T, as práticas de RH precisam acompanhar. Além do resultado individual, é preciso observar a capacidade de articular áreas. Projetos interfuncionais, rotações e mentorias ganham importância. Um movimento lateral pode desenvolver mais um futuro líder do que uma promoção vertical prematura. Três perguntas ajudam:
O desenvolvimento deixa de ser uma lista de cursos e passa a ser uma arquitetura de experiências.
A inteligência artificial trouxe uma tentação: acreditar que, quanto mais poderosa a tecnologia, menos precisamos de amplitude humana. Pode ocorrer o contrário.
A IA é um amplificador. Se entra em processos fragmentados, acelera a fragmentação. Se encontra áreas que não conversam, pode criar “bolhas de eficiência”: um setor melhora enquanto transfere o problema para outro.
Um chatbot não conserta uma jornada de cliente mal desenhada. Um algoritmo não resolve o desalinhamento entre vendas e operações. A tecnologia não decide que problema vale a pena resolver. É o líder quem precisa fazer essas conexões.
Sua profundidade ajuda a julgar a qualidade de uma solução e reconhecer limites. Sua amplitude permite conectar tecnologia, estratégia, clientes, processos, pessoas e riscos. E sua aprendizagem contínua o mantém relevante quando as ferramentas mudam mais rápido do que os cargos.
Talvez por isso a pergunta mais importante sobre IA não seja “como podemos usar esta tecnologia?”, mas “que valor queremos gerar e o que precisa ser conectado para que a tecnologia ajude a produzi-lo?”.
O líder T-shaped não é alguém que sabe tudo. Ele sabe onde precisa ter profundidade e onde precisa buscar outras perspectivas. Tem convicção suficiente para decidir e curiosidade suficiente para rever. Constrói autoridade sem transformar expertise em isolamento.
Em um mundo em que o conhecimento está cada vez mais disponível, possuir informação deixa de ser o diferencial. O diferencial está em combinar saberes, pessoas e tecnologia para produzir decisões melhores.
No fim, formar líderes em T é desenvolver duas capacidades ao mesmo tempo: profundidade para decidir e amplitude para conectar. Talvez seja essa combinação que diferencie quem apenas ocupa uma posição de liderança de quem consegue fazer a organização avançar.

*Bruno H. Rocha Fernandes é professor, pesquisador e diretor da Especialização da Fundação Dom Cabral. Doutor em Administração pela FEA-USP, com doutorado sanduíche pela University of Cambridge, atua nas áreas de gestão de pessoas, competências e desenvolvimento de lideranças.
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