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Por que estão falando tanto… do impacto do Ozempic no mundo do trabalho

Nos EUA e no Reino Unido, empresas já começam a oferecer ‘canetinhas emagrecedoras’ como benefício para colaboradores; medida visa produtividade e redução do absenteísmo, mas testa limites da atuação corporativa

Bruno Capelas
20 de janeiro de 2026
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O que você precisa saber

O uso de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro deixou de ser apenas um assunto de saúde para ganhar espaço também nas conversas sobre trabalho. Uma reportagem recente do Financial Times, publicada no Brasil pelo Valor, mostra como esses remédios da classe dos GLP-1 já começam a moldar o ambiente corporativo – tanto nas interações entre colegas quanto nas políticas de benefícios oferecidas pelas empresas.

À medida que a popularização desses medicamentos acelera, surgem relatos de mudanças visíveis no corpo e no comportamento de profissionais, comentários constrangedores sobre emagrecimento, dúvidas sobre limites de privacidade e até discussões sobre produtividade. O tema cresce porque não envolve apenas escolhas individuais, mas passa a tocar diretamente na forma como empresas lidam com saúde, bem-estar e performance.

Segundo o FT, algumas empresas no exterior começaram a adotar um novo benefício: passaram a “incentivar” o uso de medicamentos GLP-1 para seus colaboradores. Nos Estados Unidos, 43% das grandes empresas – com 5 mil funcionários ou mais – já contam com planos de saúde que cobrem esse tipo de medicamento, segundo dados do instituto de pesquisas KFF, citados na reportagem do Financial Times.

O argumento mais comum é econômico e médico ao mesmo tempo. A obesidade é tratada como uma doença crônica que pode levar a outras complicações, elevar custos com saúde, aumentar o absenteísmo e reduzir a produtividade. Nesse contexto, ampliar o acesso a medicamentos que auxiliam na perda de peso seria uma forma de prevenir problemas futuros e melhorar indicadores do negócio.

Ao mesmo tempo, a reportagem chama atenção para o outro lado da moeda. Muitos trabalhadores relatam um aumento do preconceito relacionado ao peso corporal. Em alguns casos, há até uma pressão explícita ou velada para emagrecer e aderir a tratamentos com semaglutida e tirzepatida — os princípios ativos de Ozempic/Wegovy e Mounjaro, respectivamente. Comentários sobre aparência, elogios excessivos à perda de peso e comparações entre colegas passaram a fazer parte do cotidiano em alguns ambientes de trabalho.

O que isso significa para o RH

Embora possa parecer distante da realidade brasileira, essa discussão dialoga diretamente com temas centrais da agenda de recursos humanos. A adoção – ou não – de medicamentos GLP-1 como benefício envolve decisões que afetam custos, políticas de saúde, gestão do absenteísmo e estratégias de retenção de talentos.

Além disso, o RH passa a ter um papel ainda mais sensível na mediação desse debate. Benefícios voltados à saúde não podem se transformar em instrumentos de pressão estética ou reforço de estigmas. Há também uma dimensão de equidade envolvida: nem todos terão acesso aos medicamentos, indicação médica ou os mesmos resultados, o que exige cuidado para evitar desigualdades internas.

Mais do que discutir um remédio específico, o debate em torno dos GLP-1 expõe como mudanças na área da saúde estão redesenhando expectativas sobre corpo, desempenho e bem-estar no trabalho — um movimento que tende a ganhar relevância crescente na atuação do RH.

Bruno Capelas é jornalista. Foi repórter e editor de tecnologia do Estadão e líder de comunicação da firma de venture capital Canary. Também escreveu o livro 'Raios e Trovões – A História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum'.