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Por que estão falando tanto de… quit-tok

Por que estão falando tanto de… quit-tok

Muito distante do quiet quitting, a prática de publicar vídeos que mostram a própria demissão nas redes sociais ganhou popularidade entre a fatia mais jovem da atual força de trabalho. O quit-tok, trend que já soma muitos adeptos no TikTok, mostra como estamos diante de um novo perfil profissional – e um novo desafio para o RH.

Ressignificando o recrutamento com Galena e Rodrigo Dib

Edtech tem meta de, em quatro anos, garantir 50 mil empregos CLT com salários a partir de R$ 2 mil a jovens de escolas públicas

Gabriel Brolli
4 de abril de 2022
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Seja no trabalho ou no âmbito pessoal, você deve conhecer um jovem de 20 anos, formado em escola pública, que terminou o Ensino Médio e se virou – antes, durante e depois do colégio- em bicos para ajudar a sua família a fechar as contas de casa.

Essa afirmação é genérica e generalista, mas reflete um dado importante do cenário brasileiro. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) de 2019, mais de 80% dos alunos do ensino fundamental e médio estudam na rede pública do país.

Colocando uma lupa nessa realidade, esses jovens chegam ao mercado de trabalho com a mesma dificuldade: muita vontade e resiliência, mas um currículo em branco. Com isso em mente, Rodrigo Dib, co-fundador da Galena, criou um modelo disruptivo para desafiar o modelo educacional, questionar o processo de Recrutamento e Seleção das empresas, e mostrar, na prática, o que é diversidade com qualidade.

A ideia que nasceu do inconformismo

“Eu sou o contraponto”, começou Dib. “Não nasci Classe A, mas nasci Classe Média. E, desde moleque, eu tinha vários conflitos internos. Me perguntava o porquê de uns nascerem com mais, porque a largada era tão diferente. Isso me incomodava. Eu tenho na minha casa uma frase que diz: ‘Obrigada pelo que temos, porque temos muito mais do que merecemos’. O nível de oportunidades com que uns nascem é muito a frente do que os outros.” 

Advogado por formação, Rodrigo Dib desistiu da jurisprudência quando se viu em um escritório de advocacia trabalhando para deixar “mais gente rica”. Foi naquele momento que decidiu atuar com “coisas que tentassem equilibrar o jogo”, e direcionou a sua carreira para o terceiro setor.

Com mais de 20 anos no mercado de Educação e Inclusão de jovens, ele vê, agora, toda a sua experiência se consolidar na Galena, uma edtech voltada para a inserção de jovens no mercado de trabalho.

50 mil jovens em 4 anos

Com uma meta ousada, a Galena, que também tem como sócios Eduardo Mufarej, ex-CEO da Somos Educação, e Guilherme Luz, ex-CEO da Nova Escola, quer garantir emprego CLT com salário mínimo de R$ 2 mil a 50 mil jovens vindos de escolas públicas em até quatro anos. 

Criada em 2020, o seu maior desafio nesse crescimento será manter os números atuais: 100% de empregabilidade dos galeners – como são chamados os jovens que passam pelo programa – e NPS (métrica que mede a satisfação do cliente) de 96 após quatro meses de contratação nas empresas parceiras – entre elas, companhias como QuintoAndar, Dell e Stone.

O programa de formação da Galena consiste em uma trilha de aprendizado de Atendimento e Sucesso do Cliente que exige disponibilidade de 8 horas diárias durante quatro meses. No currículo de atividades, estão mentorias e simulações do que é trabalhar na prática. Ao final, para quem cumpre a jornada, há a garantia de um emprego.

“A gente simula o que é a vida real. E essa é uma preparação que falta. Em modelos muito teóricos, a gente perde a conta de quantas pessoas falam ‘aprendo muito mais no trabalho do que num curso’. Por que tem que ser assim?”

O modelo de negócio da Galena é simples: após a contratação do profissional, tanto o jovem quanto a empresa realizam um pagamento para a edtech. 

“Quando se fala de empregabilidade de jovens da rede pública, na hora as pessoas pensam em jovem aprendiz, informalidade, auxiliar administrativo, e vagas de pouca qualificação”, continuou Dib. “Então, se eu não tiver um bom currículo, ninguém vai olhar na minha cara. E esse é um modelo absolutamente perverso.”

Um novo jeito de contratar

Por isso, na Galena, o R&S funciona à sua própria maneira. Tudo começa com uma imersão da edtech nas companhias parceiras. Com as informações da base, o algoritmo começa a trabalhar como parte de um mecanismo chamado matching de empregabilidade. Com o perfil dos jovens em mãos, além do conhecimento de toda a sua forma de trabalho, observada de perto durante o programa formativo, uma ferramenta direciona os jovens mais aderentes para as oportunidades, em uma entrevista 1:1.

Os entrevistadores, em uma conversa de 40 minutos e sem análise de currículo, devem fazer a decisão: contratar ou não. “Esse é um modelo que não existe. Como você me fala que vai contratar sem conhecer 3 opções, sem aplicar teste ou olhar currículo? Mas é isso.

Não estamos de frente a um banco de talentos, mas de frente a um programa. Isso é uma quebra de paradigma para o RH absurda.”

“O currículo deveria ser substituído por coisas que te entreguem quem você é. A gente pode ter feito o mesmo curso, e o currículo vai mostrar isso. Mas não diz nada sobre nós, quem é mais aderente para a oportunidade que a gente está disputando.”

E, assim, a Galena quer mudar o sistema. Ressignificar o RH para um novo jeito de contratar gente, ressignificar a cabeça do jovem para um modelo novo de formação, e ressignificar o mercado de trabalho para a inclusão de pessoas. “Ele é indicado para uma vaga porque a gente quer que ele se apaixone pela empresa antes mesmo da entrevista. Isso aconteceu. O feedback das empresas é que o candidato já chega entendendo a cultura, falando a linguagem, o que ajuda muito. Esse matching foi uma quebra de paradigma – porque leva para o RH assertividade e agilidade.”

Diversidade com qualidade: os desafios da inclusão de pessoas

A Galena acaba de encerrar a sua segunda turma – e novamente os 100% de contratação apareceram. Na estreia, eles contaram com  iFood, Unilever, QuintoAndar, Dell, Stone e com o Itaú. Depois de cinco meses, todas as empresas quadruplicaram o número de pedidos de jovens.

“Quem apostou na Galena está colhendo os frutos, porque o discurso de inclusão passa a não ser mais vazio”, explica Dib. “A inclusão para na falta de qualidade. Mas quando a gente consegue dar as ferramentas, os ambientes ficam melhores. Porque você está trazendo gente diversa, e quando falo diversa, não é o que os olhos enxergam. Existe uma diferença socioeconômica regional que é muito importante para a cultura de empresas.”

Hoje, na Galena, 65% dos jovens são mulheres, mais de 68% são autodeclarados negros e mais de 25% se autodeclaram da comunidade LGBTQIAP+.

Como um programa que garante empregabilidade, as vagas são concorridas. No último processo, foram 10 mil inscritos para 180 vagas. Os planos, daqui para a frente, são o crescimento e a  popularização da Galena,para que o número de inscritos e de empresas parceiras exijam a criação de novas trilhas de aprendizado, novos cursos e mais jovens de escolas públicas empregados.

“O emprego é uma ferramenta de liberdade, é uma ferramenta de autonomia para a sua vida e as suas escolhas”, diz Dib.  “A gente nasceu para ressignificar o modelo atual de inserção de pessoas no mercado de trabalho, porque esse é um modelo perverso para quem menos tem, para quem menos pode.”

Gabriel Brolli é jornalista pelo Mackenzie (SP). Com passagens em redação e assessoria de imprensa, hoje atua como Social Media na Caju Benefícios.