Busque por temas

Em alta

Como a Latam aumentou a pluralidade no mercado de aviação

Como a Latam aumentou a pluralidade no mercado de aviação

Após crise na pandemia, empresa passou a olhar para representatividade em pilares como gênero, pessoas com deficiência e questões raciais; gerente de recrutamento e seleção da companhia aérea fala sobre desafios de aumentar pluralidade em mercado marcado por machismo e forte hierarquia

Engajando colaboradores com política na Engeform

Desde 2018, a empresa toca um programa de educação política com o objetivo de promover a consciência cidadã e incentivar a participação política de seus colaboradores

Gabriel Brolli
29 de agosto de 2022
Como a Engeform usou a política para aumentar o engajamento dos colaboradores
Leia emminutos
Voltar ao topo

Em ano de eleição, as empresas vão votar em quem? Nas últimas disputas presidenciais, os familiares mais próximos brigaram e os grupos de WhatsApp se tornaram um pesadelo. Já nas salas de escritório, o silêncio. Se no ditado popular não se discute política, nas esferas privadas ela passa como material confidencial. Secreto. Proibido.

Mas não para a Engeform. Em 2018, a empresa de construção civil idealizou o Programa de Educação Política Engeform com o objetivo de promover a consciência cidadã e incentivar a participação política de seus colaboradores de forma suprapartidária, para que pudessem entender as transformações e os impactos sociais ao seu redor com mais clareza.

Abrindo a porta para discussão dentro de casa, o programa foi criado em um período em que “fake news” se tornou termo popular e a polarização virou regra. Se o assunto criava conflito em qualquer lugar, do almoço em família à conversa de elevador, levar a pauta para empresa poderia preocupar qualquer RH.

Até o final de outubro, o mesmo cenário de contrários deve se repetir, tendo a Pesquisa Datafolha apontado 47% das intenções de voto para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contra 32% para Bolsonaro (PL). A pesquisa foi feita com eleitores de 281 municípios brasileiros, e divulgada no dia 18 de agosto deste ano.

Apesar de ter começado nas últimas eleições presidenciais, a iniciativa da Engeform seguiu desde então e gera efeitos até hoje. O programa ajuda que a política não seja discutida a cada quatro anos, mas percebida ao nosso lado todos os dias, sem escalar para o ódio. A meta real? “Gerar um efeito multiplicador”, definiu Natália Azevedo, Gerente de Gestão de Pessoas da empresa. Saiba mais:

Como foi a criação do programa?

A ideia veio dos fundadores da empresa, sócio-fundadores e acionistas, alinhada com nosso propósito de educação contínua, aprendizagem e desenvolvimento. Muitos colaboradores se alfabetizaram em escolas dentro das obras, a gente leva a sério o papel social e cultural da empresa. O programa de educação política nasceu em 2018, ano de muita desinformação e fake news, com a meta de despertar nas pessoas a consciência política. É um programa suprapartidário: não tem viés, partido, é um programa para despertar em qualquer pessoa, de qualquer nível, o interesse pela política e em como ela afeta as nossas vidas. Trazer a política para perto. A gente fala  muito de Brasília, do poder federal, mas e o Estado, o município, o vereador? E a minha rua, o meu condomínio? A ideia é despertar no colaborador a noção de bem público. 

Como funciona o programa na prática?

Em 2018, foram nomeados alguns embaixadores da política –  sou uma delas. Quando começamos, a gente não tinha nenhuma expertise. Então, fizemos uma parceria com o Movimento Voto Consciente que dura até hoje. Um time de professores do movimento conduz palestras e também prepara os embaixadores da Engeform para falar sobre política, com aulas básicas como funcionamento dos três poderes e votação de projeto de lei em plenário. Na prática, dentro do DDS (Diálogo Diário de Segurança), a gente toma um tempo dos embaixadores e fala sobre educação política.  Pegamos um tempo do time em um programa que não tem a ver com a atividade da empresa. É um orgulho muito grande, porque é uma iniciativa privada. Imagina se várias empresas tivessem esse olhar?

A gente fala  muito de Brasília, do poder federal, mas e o Estado, o município, o vereador? E a minha rua, o meu condomínio? A ideia é despertar no colaborador a noção de bem público. 

Como RH, como lidar com conflitos políticos entre colaboradores?

Não teve conflito enérgico. A gente já começou com a proposta de dialogar. Política é isso. Tivemos discussões, mas todas foram saudáveis. Nas obras mesmo, nunca presenciamos nada. A gente tem uma conta no Instagram voltada para educação suprapartidária, e por lá vemos esse tipo de discussão. Se a gente entrar em uma sala e perguntar quem é a favor da fome, todo mundo vai dizer “não”. Mas o meio para discutir a fome vai ter discussão. Isso é política. O RH, felizmente, não teve que lidar com conflitos tensos, nada de levantar a voz ou algo que a pessoa fosse se sentir exposta. Isso é mais um ponto a favor do programa. As empresas têm medo de falar de política, mas a gente é um exemplo de que precisamos falar mais, justamente para ter um espaço de discussão saudável.

Como é o engajamento dos colaboradores?

O programa precisa ser perene, porque não adianta falar hoje por causa das eleições e depois nunca mais. A gente começa a despertar a consciência principalmente para aquele que acha política um assunto chato. Política se discute, sim. Desde a hora em que eu acordei e saí na rua, eu estou fazendo política. Sou impactada o tempo todo. Política vai muito além de falar do candidato A, B ou C. A partir do momento em que vivemos em sociedade, estamos envolvidos na política. Não falamos de maneira acadêmica. O que a gente quer é o efeito multiplicador. A gente impactou mais de 15 mil pessoas, contando com terceiros, turnovers, entrada e saída de obras. Hoje, a gente tem 5 mil empregados, mas imagine o efeito multiplicador disso. Quando eu chego em casa e falo com a minha esposa sobre o que aconteceu no Programa, ela também é impactada. É esse efeito que a gente quer. Os colaboradores gostam da cartilha, que eles mesmo ajudaram a produzir, e compartilham.

E o que vocês esperavam de resultados?

O programa entra em um rol de benefícios e a gente se preocupa muito com a retenção dos profissionais. É um tema que não depende só de salário, mas também de identificação com a cultura da empresa. O programa acabou sendo um diferencial da Engeform em retenção de talentos. Quando a gente conversa com candidatos novos, eles acham incrível, tem essa identificação. Se a gente se preocupa em parar a equipe e pagar as horas em que as pessoas estariam à disposição do trabalho para um programa que não tem a ver com a atividade da empresa, isso mostra uma preocupação muito grande, dá um valor à marca. Fazemos pesquisas de clima, e depois da implementação, ganhamos o Great Place to Work por dois anos seguidos, em 2020 e 2021.

O que muda para empresa ter colaboradores engajados politicamente?

Quando você está em uma empresa, precisa de um propósito. Afinal, ficamos muito tempo na empresa, mais do que com nossos familiares, e quando eu olho para a marca, isso é um diferencial. E mudou a forma de se pensar essa questão de empresário, empregado e trabalhador. O empresário pode ter uma mente brilhante, mas ele precisa de um time engajado e motivado. Se você tem esse olhar dentro da empresa, você diferencia a marca. Para mim, esse alinhamento de cultura é um fator que me faz ficar, me motiva e me faz entregar melhor. Eu vou vestir a camisa da empresa muito mais. É subjetivo, mas não é. Quando a gente conversa com os funcionários e faz pesquisa de clima, isso é unânime.

–––––––––––––––

Um pouco de contexto…

Se na Engeform a ideia é educar sem declarar posicionamento, empresas já viram ruínas ao misturar negócios e política. Em 2020, o CEO da americana Goya Foods, Robert Unanue, deu declarações a favor do ex-presidente Donald Trump. A sua fala deu início a um boicote nas redes sociais, que começou com consumidores destruindo os produtos da marca em diversos vídeos virais, e terminou com uma acusação política a Ivanka Trump. A filha do empresário publicou uma foto em que segurava uma latinha de feijões da Goya em publicidade explícita – o que configura violação das leis da ética, que impede integrantes do governo de se aliarem a empresas privadas.

Aqui no Brasil, o presidente da Havan, Luciano Hang, é defensor fervoroso do presidente Jair Bolsonaro. No ano passado, entre expectativas de abrir IPO (oferta inicial de ações) da companhia, especialistas apontavam problemas de governança e o extremismo político de Hang como fator negativo. Depois de duas tentativas frustradas de IPO, e da projeção de valor cair de R$ 100 bilhões para R$ 45 bilhões, o processo segue em espera.

Do outro lado da moeda, por mais que as empresas tenham medo de tomar qualquer posição política ou falar abertamente sobre questões sociais, os consumidores querem isso. Segundo estudo da Sprout Social, divulgado em 2020, mais de 65% dos clientes consideram importante as empresas se envolverem em questões político-sociais. Mas como?

Publicado no ano passado, o estudo “Corporate Political Responsibility: Mobilizing the Private Sector for Political Integrity” (Responsabilidade política corporativa: Mobilizando o setor privado por integridade política, na tradução livre) versa justamente sobre isso. Empresas estão entre os órgãos mais influentes – e endinheirados, diga-se de passagem – do mundo. Considerando doações a campanhas e a sua presença na vida das pessoas, o estudo enfatiza mecanismos possíveis para que as empresas casem as suas ambições com atividades políticas sustentáveis.

Bruno Silva, diretor de projetos do Voto Consciente, movimento parceiro da Engeform, contou que, entre podcast com Estadão, blog com cientistas políticos e produção de livros paradidáticos, a educação política nas empresas passou a ser uma das frentes mais importantes do Voto Consciente.

“Não nos vinculamos a qualquer partido político, mas estimulamos a participação de quem interage com a gente nos cursos. Uma educação política baseada em valores democráticos, como tolerância, empatia, respeito às regras do jogo”, conta Bruno.

“Uma orientação para ampliar a nossa atuação como cidadão. Quem passa pelos processos formativos com a gente é incentivado a não se manter como um cidadão passivo na sociedade. Seja dentro da empresa, da sua comunidade, da sua igreja. A gente estimula a diferença na cultura política das pessoas.”

Gabriel Brolli é jornalista pelo Mackenzie (SP). Com passagens em redação e assessoria de imprensa, hoje atua como Social Media na Caju Benefícios.