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“A licença menstrual não é um benefício, é um direito”, diz Roberta Faria, CEO da MOL Impacto

Há um ano, a empresa, que tem 89% de seu quadro composto por mulheres, instituiu a licença menstrual de dois dias remunerados; em um ano, empresa diz ter tido 29 pedidos de afastamento, a maioria de meio período

Karina Sérgio Gomes
13 de maio de 2024
Leia emminutos
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No dia 8 de março de 2023, as mulheres que trabalham no Grupo MOL não ganharam bombons ou flores. Elas ganharam mais um direito, como afirma Roberta Faria, CEO da MOL Impacto. Há um ano, todas as funcionárias que sintam desconforto durante o ciclo menstrual podem tirar uma licença remunerada de até dois dias – a chamada licença menstrual. “Não é folga. É saúde. Quando um homem está gripado, ele tira o seu tempo para se recuperar. É ter o direito de cuidar da sua saúde no dia em que você não está bem”, ressalta Roberta em entrevista à Cajuína.

O Grupo MOL, responsável pela empresa de produtos e serviços de impacto social MOL Impacto e pelo Instituto MOL, trabalha com propostas para incentivar nas pessoas a cultura da doação. Seu quadro de funcionários é composto majoritariamente por mulheres – hoje, elas representam 89% da empresa. Até aqui, a licença menstrual foi bem recebida entre as funcionárias: entre a implementação e janeiro de 2024, foram tiradas 29 licenças, sendo que mais de 65% foram de apenas meio período.

“Os sintomas do ciclo menstrual podem provocar muita indisposição e, claro, afetar qualquer atividade desempenhada pelas pessoas que menstruam, seja em casa ou no trabalho. São sintomas que nem sempre duram o dia inteiro. Às vezes, a pessoa só precisa de um tempo, ficar quietinha com uma bolsa de água quente e se recuperar”, explica Roberta.

Estamos bem felizes com o projeto, porque ele é uma prova de que podemos viver com menos regra e mais baseado na confiança das relações e no respeito à autonomia e responsabilidade dos colaboradores.

Como surgiu a ideia de implantar a licença menstrual? 

Foi lendo o jornal. Em fevereiro, li a notícia dizendo que a Espanha havia aprovado uma lei para oferecer uma licença para mulheres que sofrem com fortes cólicas menstruais sem a necessidade de um atestado médico. Fiquei fascinada e comecei a pesquisar. Descobri que, na Ásia, há países que têm essa licença há décadas. Aí, caiu a minha ficha que já fazíamos isso informalmente. É muito normal as pessoas aqui tirarem licença, não regulamentada, porque estão tendo uma crise de enxaqueca ou cólica, decorrente da menstruação. Levei a proposta para os sócios com o intuito de formalizar o tema. A regra foi aprovada por todos. A licença menstrual não é um benefício, é um direito.

Ao implementar a licença menstrual, vocês realizaram alguma conversa com a equipe sobre isso? Como foi abordado internamente? 

A lei na Espanha saiu no começo de fevereiro. Então, logo começamos a desenhar como seria o nosso modelo. Produzimos muitos projetos voltados para a autonomia da mulher, combate contra a violência feminina etc. Sempre ficamos muito incomodados quando vemos ações como “ganhe um horário na manicure” para lembrar o Dia Internacional da Mulher. Entendemos que isso é “superficial”. O que as mulheres querem são direitos, oportunidades, políticas públicas que favoreçam a equidade. Então, naquele Dia da Mulher anunciamos para as nossas colaboradoras que não daríamos parabéns ou bombons, daríamos um direito. Se você está no período menstrual e não está bem, você tem o direito de não trabalhar. Porque sabemos que se os homens sangrassem de três a cinco dias, eles jamais trabalhariam nessas condições. Não é folga. É saúde. Quando um homem está gripado, ele também tira o tempo que precisa para se recuperar. É ter um direito básico de se cuidar. Então, reunimos os colaboradores, fizemos o anúncio, que não foi uma surpresa, mas foi muito bem recebido. Gerou um sentimento de orgulho de participar desse momento, que de certo modo ainda é um experimento, mas que pode inspirar outras empresas.

A menstruação ainda é um tabu em alguns ambientes, especialmente no trabalho. Quando uma mulher fica menstruada no trabalho e está sem absorventes na bolsa, pedir um absorvente para outra colega pode ser constrangedor, às vezes tratado como algo ilícito, com o gesto ocorrendo discretamente. Ao implementar a licença menstrual, vocês realizaram alguma conversa com a equipe sobre isso? 

Na MOL, as pessoas colocam ao lado de seus nomes no Slack o símbolo da gota de sangue para destacar que estão de licença menstrual. Não é uma questão tratada por debaixo dos panos. Acredito ser uma questão de cultura da empresa. Temos uma cultura muito feminista e inclusiva. As mulheres que trabalham na MOL contam que estão tentando engravidar, contam que estão de TPM, contam que estão menstruadas. Faz parte da conversa como qualquer outro assunto, como falar do tempo ou de memes. Acho que isso tem a ver em ser uma empresa majoritariamente composta por mulheres e os homens que trabalham conosco serem bastante conscientes e engajados na causa da equidade. Mas sei que isso não é o padrão.

Como vocês definiram o período de dois dias? 

Em nossas pesquisas, descobrimos que os sintomas mais fortes da menstruação costumam aparecer nas primeiras 48 horas do ciclo. Então, supomos que dois dias seria um período razoável, mas não é nada científico. Os sintomas do ciclo menstrual podem provocar muita indisposição e, claro, afetar qualquer atividade desempenhada pelas pessoas que menstruam, seja em casa ou no trabalho. São sintomas que nem sempre duram o dia inteiro. Às vezes, a pessoa só precisa de um tempo, ficar quietinha com uma bolsa de água quente e se recuperar. Neste primeiro ano, foram tiradas 29 licenças, sendo que mais de 65% foram de apenas meio período. Estamos bem felizes com o projeto, porque ele é uma prova de que podemos viver com menos regra e mais baseado na confiança das relações e no respeito à autonomia e responsabilidade dos colaboradores.

Vocês já foram contatados por outras empresas interessadas em implementar uma licença menstrual similar? 

Muitas empresas entraram em contato conosco para saber como foi a implementação. Um ano depois, nessa pauta, continuamos sozinhos. Não há ainda muitas outras empresas para serem personagens deste tema. A implementação da licença menstrual foi rápida na MOL, porque somos uma empresa pequena, com 50 funcionários. Mas, com um pouco mais de tempo, talvez daqui a cinco anos, tenho certeza de que vão começar a aparecer outras empresas para falar sobre essa pauta. Nossa expectativa é que esse direito se torne popular.

Como é feito o controle dos dias de licença? 

Quem precisa tirar a licença avisa seu gestor, que por sua vez avisa a área de cultura, que mantém um registro simples: quem foi a pessoa que saiu e por quanto tempo. É bastante similar a como registramos qualquer outra licença curta, como uma folga do dia do aniversário ou atestado para quem doou sangue.

Quase 90% das colaboradoras da empresa são mulheres. Existe alguma regra para que pessoas do mesmo time não tirem licença simultaneamente? 

Já tivemos casos simultâneos, mas foram em áreas diferentes. Mas mesmo se for da mesma área, vamos renegociar os prazos, redistribuir o trabalho. Aconteceria da mesma forma se tivéssemos casos de dengue ou COVID, o que está acontecendo com várias empresas agora. Menstruação não é uma doença, claro, mas oferecemos uma licença em que a pessoa fica fora porque está cuidando da saúde. Lidamos bem com isso, acho que pela natureza do nosso trabalho. Entendo que nem todo negócio tem essa flexibilidade, mas isso também não pode ser usado como desculpa para nem sequer tentar. Há dados de países inteiros que têm a licença e a economia vai muito bem, obrigada.

Podemos ser produtivos trabalhando de outras maneiras, trabalhando com mais flexibilidade e respeitando a qualidade de vida das pessoas. 

A MOL é conhecida por adotar práticas inovadoras quanto ao trabalho. Vocês também estão participando do projeto piloto semana de quatro dias. Por que olhar para formas diferentes de trabalhar é tão importante? 

Desde o começo do ano estamos participando do projeto-piloto do Brasil do Four Day Week, um movimento liderado por uma ONG chamada Reconnect Happiness at Work. Não é algo que fazemos sozinhos; temos uma espécie de manual para cumprir. Há pesquisas que apontam que trabalhadores do mundo inteiro não passam oito horas trabalhando de fato. Perdemos um enorme tempo em processos burocráticos. Participando desse projeto, estamos pensando em como podemos trabalhar menos, porém com mais concentração, foco e presença, sendo mais produtivos para que possamos ter um fim de semana de três dias. Não é uma folga no meio da semana; é ter um fim de semana de três dias. A lição que trazemos da licença menstrual e do piloto da semana de quatro dias é um ensinamento de como se organizar e rever esses nossos conceitos sobre produtividade. Produtividade não é mais ficar oito horas na frente do computador. Podemos ser produtivos trabalhando de outras maneiras, trabalhando com mais flexibilidade e respeitando a qualidade de vida das pessoas. Pessoas felizes trabalham muito mais e muito melhor do que pessoas infelizes – e há comprovações científicas sobre isso.

Jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e mestre em Artes visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, já escreveu para veículos como Folha de S.Paulo, NeoFeed, Metrópoles, O Estado de S. Paulo, revistas GOL e Veja São Paulo. Trabalhou na curadoria de exposições no MAM São Paulo e no CCSP.