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Por que estão falando tanto de… quit-tok

Por que estão falando tanto de… quit-tok

Muito distante do quiet quitting, a prática de publicar vídeos que mostram a própria demissão nas redes sociais ganhou popularidade entre a fatia mais jovem da atual força de trabalho. O quit-tok, trend que já soma muitos adeptos no TikTok, mostra como estamos diante de um novo perfil profissional – e um novo desafio para o RH.

Como a Bayer já preparou 180 pessoas para estrearem como líderes

Multinacional desenvolveu programa para formar ‘novos chefes’ e aposta em liderança com liberdade para os seus 5 mil colaboradores no país

Michele Loureiro
8 de novembro de 2023
Leia emminutos
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A multinacional química e farmacêutica Bayer emprega 5 mil colaboradores no Brasil. Do total, 16% ocupam posições formais de liderança. Para se ter uma ideia, contando apenas nos últimos quatro anos, 180 colaboradores estrearam como chefes na empresa. Para garantir que esses colaboradores assumam o cargo com a bagagem em dia, a companhia criou um programa de treinamento chamado Developing Leadership Mindset (DLM). A ideia é que os ‘novos chefes’ aprendam, entre outras coisas, a delegar tarefas e ter consciência de suas potencialidades, mas o objetivo central é que cada um tenha liberdade para exercer sua liderança sem amarras.

Na entrevista a seguir para a seção Como Faz, o gerente de desenvolvimento de pessoas da Bayer, Marcio Rocha, fala sobre o programa, que foi criado em 2019 e é constantemente atualizado. “Criamos um treinamento sem colocar ‘todo mundo no mesmo barco’”, diz. Nos próximos parágrafos, ele pontua exemplos práticos de como funciona o treinamento e detalha porque é importante preparar os colaboradores, especialmente em tempos de constante atualização das metodologias de gestão.

Qual foi a motivação para criar um programa de formação para novos líderes?

Nossa atenção com a primeira gestão existe há mais de uma década e sempre foi um dos focos da nossa Academia de Liderança. Em 2019, porém, criamos, de forma mais estruturada, uma experiência de aprendizagem exclusiva para as pessoas que estavam assumindo a liderança pela primeira vez. O programa se chama Developing Leadership Mindset (DLM) e foi criado quando estruturamos as experiências da Academia de Liderança por demandas específicas de desenvolvimento. Anteriormente, todos os líderes passavam por uma série de treinamentos, independentemente do nível de senioridade de cada um. Em determinado momento, porém, percebemos que para que a aprendizagem fosse significativa ela precisaria estar conectada com o momento de senioridade de cada líder. Ou seja: um treinamento para a liderança precisaria focar na vivência e nos desafios que aquele público estava enfrentando no dia a dia, sem colocar “todo mundo no mesmo barco”. Assim, o DLM foi criado para atender as demandas específicas da primeira experiência na liderança e faz parte da Academia de Liderança, que oferece uma série de outras aprendizagens focadas em outros momentos da sua trajetória.

Quais são os principais objetivos do programa?

O programa tem como foco principal ajudar o novo líder a entender o que é este novo papel dentro da organização e como ele pode desenvolver seu estilo próprio de liderança. Não propomos um modelo padronizado de líder que precisa ser seguido. Nós ajudamos cada profissional para que encontre seu jeito de ser líder a partir de suas características pessoais, buscando não seguir um modelo pré-determinado. Deixamos que a cultura da Bayer e os nossos valores façam esse papel de dar o “contorno”, guiando os líderes na criação de uma liderança pautada a partir das singularidades de cada indivíduo e de um ambiente com segurança psicológica, em que todos se sintam valorizados e respeitados.

Novos líderes chegam ao cargo com inúmeras atribuições, demandas e, muitas vezes, inseguranças. Como o programa funciona para não atribular esse início de gestão?

É importante dizer que o desenho do programa dá liberdade ao novo líder. Nós convidamos quem está assumindo uma nova liderança, quem foi promovido pela primeira vez, quem acabou de chegar do mercado e quem tem potencial para virar líder. Nosso treinamento não é obrigatório e o novo líder tem autonomia para decidir se quer participar. Praticamente todos têm interesse e cada um realiza no seu tempo, sem cobranças. O colaborador escolhe a turma que quer participar, a depender do apetite e disponibilidade. Acreditamos nesse modelo mais contemporâneo, em que o líder é o protagonista e investe seu tempo no que faz sentido, na hora que faz sentido. A jornada dura cerca de oito meses e tem encontros presenciais, encontros assíncronos e distribuição de materiais exclusivos. É importante destacar que não fazemos encontros de dia todo – os momentos presenciais duram cerca de três horas, no máximo. Nós sempre adaptamos esse formato, retroalimentamos o programa com base na evolução das turmas, sempre deixando espaço para troca de ideias e aplicação das ideias na prática.

Como identificar que um colaborador está pronto para ser líder pela primeira vez?

Em nosso ciclo de desenvolvimento, há momentos formais em que um líder conversa com cada pessoa de sua equipe sobre suas fortalezas e oportunidades de desenvolvimento, explorando a aspiração da pessoa e visualizando possibilidades de carreira. São nestes momentos que, juntos, líder e colaborador podem pensar sobre uma futura experiência de liderança e construir um plano de desenvolvimento individual (PDI) com passos formais para o desenvolvimento nesta direção. Participar do DLM, por exemplo, é uma ação de desenvolvimento que pode ser definida nesta conversa – tanto para quem acabou de assumir a primeira liderança quanto para aquelas pessoas que têm potencial para liderança no futuro.

Quais são as diferenças de estilo de liderança entre quem participa deste treinamento e de um gestor que não teve acesso ao programa?

A diferença principal de quem passa por esse programa é ter mais consciência das suas potencialidades individuais e ter liberdade para escolher um estilo de gestão. Por exemplo, desenvolver a mentalidade que não é necessário ser como o CEO, sendo que cada um pode ser líder do seu jeito. É claro que existem modelos de gestão de inspiração, mas o programa ajuda a compreender algo mais sensível, mostrando que tipo de liderança combina com aquela pessoa. Quem passa por esse treinamento tem um ganho de consciência e ganha condições de olhar a ‘big picture’ da liderança e compreender como atingir resultados através de sua equipe. Muitos chegam com a visão de mão na massa, com dificuldade de delegar e compartilhar decisões e saem mais seguros sobre como fazer isso na nova posição.

Muitos chegam com a visão de mão na massa, com dificuldade de delegar e compartilhar decisões e saem mais seguros sobre como fazer isso na nova posição.

Quais são as habilidades esperadas de quem passa por esse treinamento?

Nós buscamos desenvolver quatro tipos de habilidades nos líderes da Bayer. O primeiro deles é o líder mais visionário, que consegue antecipar tendências e oportunidades e incorporar ao negócio. O segundo é o líder arquiteto, que consegue entender os novos modelos de gestão ágeis e traduzir isso para a área onde atua, atendendo as demandas e eventuais necessidades de mudanças rápidas. Também apostamos em líderes com perfil de coach, sempre prontos para estimular a equipe, e em líderes catalíticos, responsáveis por manter todo o processo de trabalho funcionando corretamente com um bom nível de produtividade e motivação.

Quantos líderes já foram preparados e quais são os principais desafios e resultados?

Desde 2019, pelos menos 180 novos líderes já passaram pelo DLM. Este é um dos treinamentos mais procurados na Academia de Liderança e isso se deve ao aumento de novos líderes na organização, resultado de um maior reconhecimento e desenvolvimento das nossas pessoas. Nosso objetivo é sempre ocupar uma nova posição de liderança com alguém que venha se desenvolvendo no pipeline e buscar alguém no mercado para uma posição de liderança apenas quando isso fizer sentido para o ciclo de renovação das aprendizagens internas. Nossa mentalidade é guiada por comportamentos-chave: Liderança, Integridade, Flexibilidade e Eficiência, resumidos na sigla LIFE (“vida”, em inglês). Dentro desse contexto, entendemos que precisamos desenvolver profissionais muito conectados a esses valores dentro da empresa.

Por que vocês acreditam que a primeira gestão deve ser preparada de forma especial?

É no momento da primeira gestão que temos a oportunidade de promover o surgimento de um líder focado em pessoas, inovador e criativo. Desde o início da sua gestão, o DLM ajuda o novo líder a não reproduzir modelos de liderança que não sejam condizentes com nossa cultura. Em uma organização complexa como a Bayer, é importante que as novas lideranças encontrem um espaço de acolhimento, segurança psicológica e desenvolvimento, compreendendo que não precisam lidar com tudo sozinhos. Não acreditamos na ideia de que a liderança deva ser uma posição solitária e queremos proporcionar apoio desde o início. É o momento certo para agir e desenvolver a liderança.

Michele Loureiro é repórter há 18 anos. Com passagens por redações como Exame, Época Negócios e Folha de S.Paulo, é apaixonada por contar histórias que mudam as vidas das pessoas.