Especialista da Singularity University defende que empresas repensem contratação, liderança e desenvolvimento de talentos para acompanhar transformações tecnológicas
*Por Lívia Garcia Sales Moraes, Diretora de Gente e Cultura do Grupo Panvel
Participar do HR Tech Conference 2026, em Las Vegas, me trouxe uma reflexão que vai além das novas ferramentas: precisamos dedicar mais atenção ao que a inteligência artificial muda na forma como organizamos o trabalho, desenvolvemos pessoas e exercemos a liderança.
Entre as experiências apresentadas, uma discussão apareceu com força: adotar IA exige olhar para as atividades, questionar processos e decidir como combinar tecnologia, capacidades humanas e necessidades do negócio.
No caso apresentado pela Salesforce, a inteligência artificial está associada ao redesenho do trabalho, à requalificação e à realocação de profissionais. O que considero mais relevante é a mudança de perspectiva. Quando determinadas tarefas passam a ser realizadas de outra forma, precisamos entender como os papéis evoluem e preparar as pessoas para essa transição.
Essa discussão precisa chegar à rotina das lideranças. Ao organizar um time, quais atividades podem ser apoiadas ou executadas pela IA? Quais exigem julgamento, sensibilidade e presença humana? E como aproveitar a capacidade liberada para melhorar a experiência do cliente, desenvolver pessoas ou resolver problemas do negócio?
As respostas exigem conhecer o trabalho de perto. Também exigem disposição para rever práticas que, muitas vezes, continuam existindo simplesmente porque sempre foram feitas daquele jeito.
Outra experiência que me chamou a atenção foi a compartilhada pela TIAA, com o uso de perfis de carreira e informações sobre habilidades para ampliar a visibilidade de oportunidades e fortalecer a mobilidade interna.
O ponto mais relevante, para mim, é conectar aquilo que as pessoas sabem fazer, o que desejam desenvolver e as oportunidades que existem dentro da organização. Isso amplia a conversa sobre carreira e nos provoca a olhar para os talentos que já temos, inclusive para capacidades que o cargo atual nem sempre permite enxergar.
Mas a tecnologia depende de uma cultura que favoreça esse movimento. A liderança precisa apoiar o desenvolvimento e a circulação de talentos, mesmo quando isso significa liberar alguém importante do próprio time. O sucesso coletivo precisa aparecer nas decisões do dia a dia.
É nesse contexto que vejo o RH como arquiteto da transformação: uma área que constrói junto com o negócio, conecta as discussões e impulsiona as lideranças a protagonizarem a mudança.
Essa agenda é compartilhada. Cada líder precisa desenvolver abertura para o novo, experimentar com responsabilidade e conversar com seu time sobre o que está mudando. Cabe ao RH ajudar a desenvolver essas capacidades e criar condições para que o aprendizado se transforme em prática.
Uma forma de avançar é reconhecer os bons exemplos que já surgem dentro da organização. Identificar quem está usando IA para resolver um problema real, entender o que funcionou e compartilhar esse aprendizado ajuda a tornar a transformação mais concreta e próxima das pessoas.
Também precisamos avaliar os resultados com critério. Ganhar velocidade só faz sentido quando preservamos a qualidade. Automatizar uma etapa precisa melhorar o processo como um todo. E ampliar o uso de IA exige clareza sobre dados, responsabilidades, limites de atuação e momentos em que a decisão deve permanecer com uma pessoa.
Na Panvel, essas reflexões se conectam ao desafio de crescimento e desenvolvimento das nossas pessoas, preservando a humanização e o sucesso coletivo. Nosso papel é avaliar o que faz sentido para a nossa realidade e transformar aprendizados em escolhas consistentes.
Saí do Congresso com uma convicção: a transformação do trabalho precisa fazer parte da agenda de desenvolvimento das lideranças.
Se as atividades estão mudando e novas capacidades passam a ser necessárias, precisamos rever também como preparamos nossos líderes e nossos times. Estamos criando espaço para experimentar? Desenvolvemos o julgamento necessário para trabalhar com IA? Ajudamos as pessoas a enxergar novas possibilidades para sua contribuição?
A inteligência artificial já está provocando mudanças no trabalho. A forma como vamos conduzir essa transformação depende das decisões que tomamos agora – e da nossa disposição para aprender e construir juntos.

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