À frente do RH e da Comunicação, executiva fala sobre como aproximar a gestão de pessoas da estratégia do negócio, conduzir transformações organizacionais e equilibrar o avanço da inteligência artificial com as habilidades humanas
Nem sempre os primeiros sinais de sofrimento emocional chegam aos consultórios médicos. Muitas vezes, aparecem na mudança de comportamento de um colega, no silêncio de quem antes participava das conversas ou em situações que passam despercebidas na rotina de trabalho. Foi a partir dessa percepção que a Motiva, uma das maiores empresas de infraestrutura de mobilidade do país, com 15 mil colaboradores, decidiu transformar seu próprio time em uma rede de acolhimento e prevenção em saúde mental.
A iniciativa começou a ganhar forma durante a pandemia, quando a companhia identificou a necessidade de ampliar o cuidado com profissionais distribuídos por diferentes estados, turnos e ambientes de trabalho. A crise sanitária também deu maior visibilidade ao sofrimento emocional e às dificuldades de acesso ao atendimento especializado, problemas que continuaram a pressionar o mercado de trabalho nos anos seguintes.
Em 2025, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) concedeu 534 mil benefícios por incapacidade temporária decorrentes de transtornos mentais e comportamentais, alta de 13,2% em relação ao ano anterior. Embora o primeiro semestre de 2026 tenha registrado recuo dos mesmos 13,2% nas licenças, segundo levantamento de Cajuína, foram mais de 232 mil afastamentos em apenas seis meses deste ano.
Na Motiva, a resposta começou a ser estruturada em 2022, com a contratação de Meire Blumen, assistente social com experiência em gestão de saúde corporativa, construída principalmente no setor industrial. Sua missão era desenvolver uma abordagem que fosse além das exigências de saúde ocupacional e alcançasse profissionais que, muitas vezes, só chegavam aos serviços médicos quando o adoecimento já estava agravado. “Muitas pessoas não buscavam nenhum tipo de ajuda e, quando acontecia um afastamento, já havia uma patologia mais agravada”, afirma a gerente de Saúde da Motiva.
Daí surgiu o programa chamado de Socorristas em Saúde Mental, para reforçar que o cuidado pode começar em uma conversa entre colegas. Lançado em 2024, o programa atraiu o interesse de mil voluntários logo no primeiro mês. De lá para cá, a iniciativa já capacitou mais de 600 funcionários para reconhecer sinais de sofrimento emocional, oferecer acolhimento e facilitar o acesso ao atendimento especializado. O projeto integra o Viva Bem, programa de saúde integral da companhia, que oferece atendimento médico, psicológico e apoio em outras áreas da vida dos funcionários.
Entre 2024 e 2025, a Motiva registrou redução dos afastamentos por transtornos mentais e, segundo a executiva, apesar de o resultado não poder ser atribuído exclusivamente à brigada, a iniciativa certamente colaborou para a melhora do desempenho. Para Meire, investir na prevenção significa também enfrentar o absenteísmo e os afastamentos por adoecimento, preservando a capacidade produtiva da companhia.
Quando conseguimos antecipar o cuidado, temos uma longevidade produtiva maior, com pessoas mais saudáveis e mais sustentabilidade para o negócio.
O próximo desafio é ampliar a capilaridade da rede em uma operação que reúne profissionais de diferentes turnos, distribuídos por estações de transporte e rodovias que atravessam milhares de quilômetros no país. A meta é formar 1,5 mil socorristas – equivalente a 10% do quadro de colaboradores –, para que o acolhimento alcance as equipes mais distantes. A expansão exige atenção não apenas à distribuição dos voluntários, mas também à continuidade de sua formação e ao suporte oferecido a quem assume essa responsabilidade.
Em entrevista a Cajuína, a executiva detalha as decisões por trás do modelo, os resultados alcançados e os desafios para consolidar a iniciativa.
Quando cheguei à Motiva, em 2022, a empresa estava estruturando sua área de saúde corporativa. Minha trajetória profissional havia sido principalmente na indústria, onde já trabalhava com o conceito de saúde integral, que vai além das exigências legais de saúde ocupacional e considera tanto a prevenção quanto o tratamento. Na Motiva, encontrei uma realidade diferente, com profissionais distribuídos por vários estados, trabalhando em rodovias, estações e diferentes turnos. São pessoas literalmente em movimento.
Precisávamos entender como levar o cuidado até elas. A pandemia trouxe mais visibilidade aos problemas de saúde mental, mas percebemos que muitos profissionais demoravam a procurar ajuda. Em algumas situações, quando acontecia o afastamento, o adoecimento já estava agravado. Foi dessa inquietação que nasceu a proposta de criar uma espécie de brigada, capaz de oferecer um primeiro nível de suporte.
O socorrista não substitui o psicólogo ou o psiquiatra. Ele funciona como uma ponte entre quem precisa de ajuda e os recursos que a empresa disponibiliza. Isso é especialmente importante na nossa operação, porque os colaboradores também estão em contato permanente com milhares de passageiros e usuários das rodovias.
Porque existe uma relação de confiança que já está estabelecida entre colegas. Muitas vezes, a pessoa não se sente confortável para procurar diretamente um serviço de saúde, seja por vergonha, preconceito ou dificuldade de reconhecer o que está sentindo. Mas ela pode conversar com alguém com quem trabalha diariamente. Quando capacitamos colegas, líderes e liderados para oferecer esse primeiro acolhimento, conseguimos aproximar as pessoas dos serviços especializados. O socorrista não substitui o psicólogo ou o psiquiatra. Ele funciona como uma ponte entre quem precisa de ajuda e os recursos que a empresa disponibiliza. Isso é especialmente importante na nossa operação, porque os colaboradores também estão em contato permanente com milhares de passageiros e usuários das rodovias.
A adesão foi uma surpresa muito positiva. Abrimos as inscrições para toda a companhia, sem restrições de idade, cargo ou tempo de empresa. Qualquer colaborador interessado poderia participar. Ao longo da formação, aplicamos um instrumento de avaliação porque algumas pessoas procuram o programa motivadas por experiências pessoais de adoecimento. É importante separar quem está em condições de oferecer suporte de quem, naquele momento, precisa recebê-lo. Nesses casos, a pessoa é acolhida e convidada a iniciar uma jornada de cuidado antes de assumir o papel de socorrista. Tudo acontece de maneira individual, sigilosa e acompanhada pelo médico do trabalho. Não fechamos as portas para ninguém. A intenção é cuidar também de quem se dispôs a ajudar.
São oito horas de capacitação, divididas em dois módulos de quatro horas. Os encontros acontecem on-line, em tempo real, com a participação de uma psicóloga. As turmas têm, em média, de 20 a 25 pessoas, para permitir a troca de experiências. O formato foi pensado para atender profissionais de diferentes regiões e turnos, que podem escolher os horários mais adequados e são liberados durante o expediente. Também não separamos as turmas por hierarquia. Um diretor pode estar na mesma formação que um operador. Trabalhamos segurança psicológica, comunicação não violenta, empatia, compaixão e escuta genuína.
Um dos principais exercícios é aprender a perceber o outro. Às vezes, convivemos diariamente com alguém e deixamos de notar uma mudança de comportamento ou de hábito. Também ensinamos como oferecer ajuda sem ser invasivo, respeitando o tempo e a disposição de cada pessoa.
O primeiro passo é acolher e ouvir, sem julgamento. Se a pessoa relata uma dificuldade emocional, o socorrista reconhece a importância daquele sentimento e a orienta a procurar os serviços especializados disponíveis na companhia.
O primeiro passo é acolher e ouvir, sem julgamento. Se a pessoa relata uma dificuldade emocional, o socorrista reconhece a importância daquele sentimento e a orienta a procurar os serviços especializados disponíveis na companhia. Temos o Programa de Apoio Viva Bem, com atendimento telefônico 24 horas, além de serviços de atenção primária e secundária à saúde, incluindo médicos de família, psicólogos e psiquiatras.
O socorrista pode apresentar esses caminhos e incentivar a pessoa a buscar atendimento. Ele não é responsável por acompanhar clinicamente o caso. Seu papel é oferecer o primeiro suporte e fazer a conexão com quem está preparado para conduzir o tratamento. Por isso, também disponibilizamos supervisões mensais e canais para que ele possa esclarecer dúvidas com profissionais especializados.
O sigilo é fundamental para estabelecer confiança. Se alguém procura um socorrista apenas para desabafar, ele acolhe aquela conversa e reforça a importância de buscar ajuda profissional, explicando que os serviços oferecidos pela empresa são confidenciais. Existe, porém, uma exceção importante: situações de risco iminente à vida. Quando alguém manifesta intenção de tirar a própria vida, por exemplo, o sigilo precisa ser quebrado para que o suporte necessário seja acionado. Essa orientação faz parte da capacitação. Também deixamos claro que o socorrista não precisa resolver tudo sozinho. Ele pode procurar o time de saúde ou utilizar os canais de apoio para receber orientação sobre a melhor maneira de conduzir determinada situação.
Hoje temos mais de 600 socorristas formados e recebemos muitos relatos sobre situações em que essa capacitação fez diferença. São histórias de acolhimento entre colegas, de pessoas que conseguiram ajudar familiares e até de intervenções envolvendo clientes. Já tivemos situações em que colaboradores conseguiram intervir diante de pessoas em sofrimento emocional intenso, inclusive em circunstâncias de risco à vida. São casos que tratamos com muito cuidado, preservando os envolvidos.
Também recebemos relatos de colaboradores que passaram a identificar sinais de sofrimento em familiares ou perceberam que um colega, ou até mesmo seu líder, precisava de ajuda. Em uma ocasião, um colaborador nos procurou preocupado com seu gestor, que provavelmente não pediria apoio espontaneamente. Conseguimos pensar em uma estratégia de aproximação e cuidado. São experiências que mostram como a formação amplia a capacidade de perceber situações que antes poderiam passar despercebidas.
Entre 2024 e 2025, registramos uma redução no índice de afastamentos por transtornos mentais, enquanto os dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontaram crescimento no país. Mas não seria correto atribuir essa redução exclusivamente aos socorristas, porque temos uma série de iniciativas de prevenção e assistência. O que observamos é que toda essa rede contribui para antecipar o cuidado.
Quanto mais cedo uma pessoa recebe atendimento adequado, maiores são as possibilidades de evitar o agravamento do quadro. Muitas vezes, alguém procura um amigo e ouve que aquilo é coisa da sua cabeça, que vai passar. O socorrista é preparado para ter outra postura, reconhecer o sofrimento e incentivar a busca por ajuda. Essa mudança pode fazer muita diferença.
O programa de socorristas faz parte de uma estrutura mais ampla, reunida no Viva Bem. Temos serviços de atenção primária, com médicos de família, e atenção secundária, com psicólogos e psiquiatras, oferecidos em parceria com o Grupo Fleury. Uma preocupação importante é eliminar barreiras de acesso. Há pessoas que resistem à ideia de procurar um psiquiatra por preconceito ou vergonha. A possibilidade de fazer uma teleconsulta, por exemplo, pode facilitar esse primeiro contato. Também contamos com apoio psicológico, social, financeiro e jurídico, porque sabemos que o adoecimento mental costuma ter múltiplas causas. Nem tudo começa no ambiente de trabalho, mas a empresa pode oferecer condições para que as pessoas encontrem suporte. Esse conjunto de ações faz parte do nosso compromisso com a saúde integral e também está relacionado à adesão ao Movimento Mente em Foco, do Pacto Global da ONU – Rede Brasil.
Um dos principais aprendizados é que não basta formar pessoas. Precisamos garantir que os socorristas estejam distribuídos estrategicamente pela operação. Temos profissionais que mudam de posto, saem da empresa ou passam a atuar em outras unidades. Por isso, estamos aprimorando o acompanhamento dessa rede para identificar regiões que precisam de mais representantes. Nossa intenção é que cada estação e cada trecho de rodovia possam contar com alguém capacitado.
Também estamos trabalhando para dar mais visibilidade aos socorristas, incentivando que compartilhem experiências e mobilizem outros colegas. Eles têm acesso a supervisões mensais e, a cada dois anos, precisam passar por uma reciclagem para continuar exercendo esse papel. Até o momento, não tivemos denúncias nos canais de ética ou na área de saúde relacionadas a intervenções inadequadas dos socorristas. Eles demonstram muita responsabilidade e procuram orientação sempre que têm dúvidas.
Nossa meta é chegar a 10% do quadro de colaboradores, o equivalente a aproximadamente 1,5 mil pessoas. O objetivo é garantir capilaridade. Temos rodovias que atravessam grandes extensões territoriais, com equipes distribuídas por centenas de quilômetros. Em muitos casos, os colegas de trabalho são as pessoas com quem esses profissionais têm contato mais frequente. Em relação ao investimento, os principais custos estão na contratação dos profissionais responsáveis pela capacitação e pela supervisão. A divulgação utiliza os canais internos de comunicação da própria empresa.
É uma iniciativa que depende muito mais de formação, mobilização e continuidade do que de uma estrutura física complexa. Mas precisa estar conectada a serviços especializados, porque o socorrista deve ter para onde encaminhar quem necessita de atendimento.
O primeiro passo é fazer um bom diagnóstico. Uma iniciativa pode funcionar muito bem em determinada organização e não ser a resposta mais adequada para outra. É preciso conhecer a realidade dos trabalhadores, analisar os indicadores de saúde e identificar quais necessidades são prioritárias. Já trabalhei em empresas nas quais considerei criar um programa semelhante, mas o diagnóstico mostrou que havia outras demandas mais urgentes. Na Motiva, encontrei um cenário em que essa iniciativa fazia muito sentido.
Também recomendo olhar para a saúde de maneira integral e investir na prevenção. Muitas vezes, uma ação relativamente simples, realizada no momento certo, pode evitar um adoecimento mais grave no futuro. O maior aprendizado que tenho com os socorristas é justamente a importância de recuperar a capacidade de olhar para o outro. Vivemos muito conectados, mas nem sempre estamos verdadeiramente presentes. Precisamos construir ambientes nos quais as pessoas tenham segurança psicológica para falar e sejam incentivadas a procurar ajuda.
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