Responsável por cuidar tanto de pessoas quanto de tecnologia, vice-presidente da empresa de combustíveis e energia defende sinergia entre as áreas, entre uso de dados e preservação do aspecto humano da transformação
O Brasil fechou 2025 com um novo e preocupante recorde: mais de 534 mil profissionais precisaram se afastar do trabalho por problemas relacionados à saúde mental. É o maior número já registrado na série histórica e confirma uma tendência de crise de saúde mental que vem se intensificando ano após ano.
Os dados são públicos, divulgados mensalmente pelo INSS e pelo Ministério da Previdência Social, mas ganham uma nova dimensão quando analisados de forma consolidada, comparativa e histórica. É esse o papel do Data Cajuína, série produzida pela frente de inteligência e conteúdo da Caju: transformar dados em análises acessíveis, conectadas à realidade das empresas, do RH e das lideranças.
Em 2025, os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais não apenas cresceram pelo 5º ano consecutivo, como também aparecem na lista de custos bilionários para o país, ultrapassando R$ 3,5 bilhões em benefícios pagos pelo INSS. Mais do que um problema pontual, os números evidenciam uma crise estrutural no trabalho.
Neste artigo, vamos analisar os dados completos de 2025, entender como esse crescimento se distribuiu ao longo do ano, quais doenças mais afastaram profissionais do trabalho e por que esse debate precisa estar no centro das decisões de empresas e lideranças.
Se antes todos citavam os dados alarmantes de 2024, ao longo de 2025 o cenário foi ainda pior: o Brasil registrou 534.904 afastamentos por transtornos mentais, considerando os dados oficiais de janeiro a dezembro. Esse número representa o total de benefícios concedidos pelo INSS, ou seja:
O volume representa um crescimento de +13,2% em relação a 2024, quando foram registrados 472.328 afastamentos. Em termos absolutos, são mais 62.576 pessoas afastadas em apenas um ano.
Outro dado que reforça essa tendência é a média mensal de afastamentos. Em 2025, foram 44.575 afastamentos por mês, bem acima da média de 39.360 casos mensais em 2024.
Quando ampliamos a comparação, o cenário se torna ainda mais alarmante: o total de 2025 é 88% maior do que todo o volume registrado em 2023, confirmando que o crescimento não é pontual, mas contínuo e estrutural.
Ao observar os dados por trimestre, fica claro que 2025 manteve volumes elevados de afastamentos ao longo de todo o ano:
Mesmo com uma leve desaceleração no segundo semestre, os números permaneceram muito acima dos patamares históricos. O segundo trimestre concentrou o maior volume de afastamentos do ano, com mais de 158 mil benefícios concedidos, reforçando a pressão sobre o sistema previdenciário e as organizações.
Em 2025, os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais representaram, em média, 13,6% de todos os auxílios-doença concedidos pelo INSS. Durante todo o ano de 2025, foram quase 4 milhões de pedidos (exatos 3.933.701) de licença atendidos pelo INSS por várias doenças diferentes, como dor na coluna, fraturas e outras lesões.
Esse percentual se manteve estável ao longo do ano e ficou ligeiramente acima da média de 2024 (13,5%), mostrando que a saúde mental já ocupa um espaço estrutural dentro do sistema previdenciário. Esse não é mais um fenômeno pontual.
O comportamento atual dos dados reforça um ponto central: o crescimento dos afastamentos por saúde mental não depende de picos sazonais ou eventos isolados. Ele se sustenta em um patamar elevado, mês após mês, indicando que o adoecimento mental já está incorporado à dinâmica de concessão de auxílios-doença no Brasil.
Acontece que o comportamento ao redor do mundo é semelhante. Em setembro de 2024 a OMS publicou uma ficha informativa onde indica que, globalmente, 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e à ansiedade, a um custo de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade.
O ranking das doenças que mais geraram afastamentos em 2025 se manteve praticamente inalterado em relação a 2024 e aos trimestres anteriores.
As 10 principais condições mentais concentraram 498.438 afastamentos, o equivalente a 93,2% de todos os casos registrados no ano.
Entre elas, a liderança no número de casos segue clara: a Ansiedade (F41) é a principal causa de afastamento.
Quando somamos Episódios depressivos (F32) e Depressão recorrente (F33), o total chega a 183.885 afastamentos, superando inclusive o volume total da Ansiedade isoladamente.
Outro destaque é o crescimento percentual de condições mais graves. F20 – Esquizofrenia apresentou o maior crescimento percentual do ano (+26,8%), sinalizando um avanço também de quadros complexos e de maior impacto funcional.
Além do impacto humano e organizacional, os afastamentos por saúde mental têm um custo financeiro expressivo para o país.
Com base na média de valor pago por beneficiário em 2024, que foi de R$ 6.568,49 por um tempo médio de 96 dias de afastamento, o Brasil gastou em 2025 aproximadamente R$ 3.513.511.574,96 com benefícios relacionados à saúde mental.
Esse valor representa:
Esse cálculo considera o número total de afastamentos em 2025 multiplicado pela média de custo por beneficiário apurada em 2024, metodologia utilizada em análises econômicas e já aplicada em reportagens nacionais.
Os dados de 2025 deixam claro que não estamos diante de uma exceção, mas de um padrão estrutural de adoecimento mental no trabalho. O crescimento pelo quinto ano consecutivo indica que iniciativas pontuais, campanhas sazonais ou ações isoladas não são suficientes. Ele passou a ser, também, uma questão regulatória.
Para empresas, lideranças e profissionais de RH, os números reforçam a urgência de:
Para o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a entrada em vigor da NR-1 revisada, em 2026, vai ampliar o olhar sobre riscos psicossociais e tornar esse debate ainda mais urgente e estratégico.
A atualização da NR-1, norma que estabelece as diretrizes gerais de saúde e segurança no ambiente de trabalho, terá como principal mudança a inclusão explícita dos riscos psicossociais, como estresse crônico, sobrecarga e fatores organizacionais que afetam a saúde mental, dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
A norma revisada entra em vigor em 26 de maio de 2026 e, a partir dessa data, empresas passam a ser fiscalizadas quanto à identificação, avaliação e gestão desses riscos. O descumprimento pode gerar autuações e multas, assim como já ocorre com riscos físicos, químicos e ergonômicos.
É nesse contexto que os números apresentados neste artigo ganham ainda mais relevância. Esses dados evidenciam que os riscos psicossociais não são abstratos: eles se materializam em afastamentos prolongados, perda de capacidade produtiva e impacto financeiro direto para o sistema previdenciário, além das empresas.
Na prática, os números de ansiedade, depressão, transtorno bipolar e outros quadros que lideram os afastamentos em 2025 ajudam a explicar por que a NR-1 foi atualizada.
O volume, a recorrência e a tendência de crescimento mostram que o adoecimento mental no trabalho é estrutural, previsível e mensurável. Esse é exatamente o tipo de risco que a legislação passa a exigir que as organizações gerenciem de forma urgente.
Para empresas e lideranças, o recado é claro: em 2026 saúde mental deixa de ser apenas uma agenda de conscientização e passa a integrar o campo da conformidade legal. Os dados de 2025 não apenas ilustram o problema, como também antecipam o cenário que será observado pelos auditores do trabalho a partir da vigência da nova NR-1.
Este conteúdo foi produzido a partir da análise de dados públicos oficiais, disponibilizados mensalmente pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e pelo Ministério da Previdência Social por meio do Portal de Dados Abertos do Governo Federal.
Para este levantamento, a equipe Cajuína analisou as bases mensais de benefícios concedidos, considerando exclusivamente os registros de Auxílio-Doença Previdenciário (espécie 31) associados a transtornos mentais e comportamentais, conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID-10).
Este estudo contempla todo o conjunto de transtornos mentais listados no Capítulo V da CID-10 (códigos F00 a F99). Isso inclui, além de quadros ansiosos e depressivos, condições mais graves e complexas, como esquizofrenia, transtornos psicóticos, transtornos de personalidade e transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de álcool e outras substâncias.
Essa escolha metodológica amplia o escopo da análise e permite uma visão mais completa do impacto da saúde mental no afastamento de profissionais do trabalho. Dessa forma, evitamos a exclusão de grupos relevantes de diagnósticos.
Os dados são extraídos mensalmente dos arquivos disponibilizados no portal de Dados Abertos, sempre no mês subsequente ao período de referência, em formato estruturado (CSV). A partir dessas bases, a Cajuína realiza processos próprios de tratamento, padronização e consolidação, incluindo:
Ao adotar essa metodologia, a Cajuína busca oferecer uma leitura transparente, consistente e comparável ao longo do tempo. Nosso objetivo é contribuir para um debate mais qualificado sobre saúde mental nas empresas brasileiras.
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