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Brasil bate recorde e registra mais de 534 mil afastamentos de profissionais do trabalho por problemas de saúde mental em 2025

Os números de afastamentos crescem pelo 5º ano seguido, custam mais de R$ 3,5 bilhões ao INSS e escancaram crise estrutural no país.

Jonatan Rodrigues
30 de janeiro de 2026
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O Brasil fechou 2025 com um novo e preocupante recorde: mais de 534 mil profissionais precisaram se afastar do trabalho por problemas relacionados à saúde mental. É o maior número já registrado na série histórica e confirma uma tendência de crise de saúde mental que vem se intensificando ano após ano.

Os dados são públicos, divulgados mensalmente pelo INSS e pelo Ministério da Previdência Social, mas ganham uma nova dimensão quando analisados de forma consolidada, comparativa e histórica. É esse o papel do Data Cajuína, série produzida pela frente de inteligência e conteúdo da Caju: transformar dados em análises acessíveis, conectadas à realidade das empresas, do RH e das lideranças.

Em 2025, os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais não apenas cresceram pelo 5º ano consecutivo, como também aparecem na lista de custos bilionários para o país, ultrapassando R$ 3,5 bilhões em benefícios pagos pelo INSS. Mais do que um problema pontual, os números evidenciam uma crise estrutural no trabalho.

Neste artigo, vamos analisar os dados completos de 2025, entender como esse crescimento se distribuiu ao longo do ano, quais doenças mais afastaram profissionais do trabalho e por que esse debate precisa estar no centro das decisões de empresas e lideranças.

2025 entra para a história como o ano com mais afastamentos por saúde mental no Brasil

Se antes todos citavam os dados alarmantes de 2024, ao longo de 2025 o cenário foi ainda pior: o Brasil registrou 534.904 afastamentos por transtornos mentais, considerando os dados oficiais de janeiro a dezembro. Esse número representa o total de benefícios concedidos pelo INSS, ou seja:

  • São mais de 534 mil vezes em que pessoas deixaram seus postos de trabalho temporariamente;
  • Elas ficaram em média 3 meses longe das atividades profissionais;
  • O INSS fez o pagamento dos salários durante o período.

O volume representa um crescimento de +13,2% em relação a 2024, quando foram registrados 472.328 afastamentos. Em termos absolutos, são mais 62.576 pessoas afastadas em apenas um ano.

Outro dado que reforça essa tendência é a média mensal de afastamentos. Em 2025, foram 44.575 afastamentos por mês, bem acima da média de 39.360 casos mensais em 2024.

Quando ampliamos a comparação, o cenário se torna ainda mais alarmante: o total de 2025 é 88% maior do que todo o volume registrado em 2023, confirmando que o crescimento não é pontual, mas contínuo e estrutural.

O crescimento se mantém mesmo com desaceleração no segundo semestre

Ao observar os dados por trimestre, fica claro que 2025 manteve volumes elevados de afastamentos ao longo de todo o ano:

  • Q1/25: 109.153 afastamentos
  • Q2/25: 158.537 afastamentos (trimestre com maior volume do ano)
  • Q3/25: 135.395 afastamentos
  • Q4/25: 131.819 afastamentos

Mesmo com uma leve desaceleração no segundo semestre, os números permaneceram muito acima dos patamares históricos. O segundo trimestre concentrou o maior volume de afastamentos do ano, com mais de 158 mil benefícios concedidos, reforçando a pressão sobre o sistema previdenciário e as organizações.

Saúde mental já representa mais de 13% de todos os auxílios-doença concedidos

Em 2025, os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais representaram, em média, 13,6% de todos os auxílios-doença concedidos pelo INSS. Durante todo o ano de 2025, foram quase 4 milhões de pedidos (exatos 3.933.701) de licença atendidos pelo INSS por várias doenças diferentes, como dor na coluna, fraturas e outras lesões.

Esse percentual se manteve estável ao longo do ano e ficou ligeiramente acima da média de 2024 (13,5%), mostrando que a saúde mental já ocupa um espaço estrutural dentro do sistema previdenciário. Esse não é mais um fenômeno pontual.

O comportamento atual dos dados reforça um ponto central: o crescimento dos afastamentos por saúde mental não depende de picos sazonais ou eventos isolados. Ele se sustenta em um patamar elevado, mês após mês, indicando que o adoecimento mental já está incorporado à dinâmica de concessão de auxílios-doença no Brasil.

Acontece que o comportamento ao redor do mundo é semelhante. Em setembro de 2024 a OMS publicou uma ficha informativa onde indica que, globalmente, 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e à ansiedade, a um custo de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade.

Ansiedade e depressão seguem concentrando a maior parte dos afastamentos

O ranking das doenças que mais geraram afastamentos em 2025 se manteve praticamente inalterado em relação a 2024 e aos trimestres anteriores.

As 10 principais condições mentais concentraram 498.438 afastamentos, o equivalente a 93,2% de todos os casos registrados no ano.

Entre elas, a liderança no número de casos segue clara: a Ansiedade (F41) é a principal causa de afastamento.

  • F41 – Outros transtornos ansiosos: 161.303 afastamentos
    • Crescimento de +19.889 casos em relação a 2024, o maior em números absolutos.
    • Representa 30% de todos os afastamentos de 2025.
  • F32 – Episódios depressivos: 124.221 casos (+10.617 vs 2024)
  • F31 – Transtorno afetivo bipolar: 60.459 afastamentos (+9.145)
  • F33 – Transtorno depressivo recorrente: 59.664 afastamentos (+7.037)

Quando somamos Episódios depressivos (F32) e Depressão recorrente (F33), o total chega a 183.885 afastamentos, superando inclusive o volume total da Ansiedade isoladamente.

Outro destaque é o crescimento percentual de condições mais graves. F20 – Esquizofrenia apresentou o maior crescimento percentual do ano (+26,8%), sinalizando um avanço também de quadros complexos e de maior impacto funcional.

O custo invisível da crise: mais de R$ 3,5 bilhões pagos em benefícios

Além do impacto humano e organizacional, os afastamentos por saúde mental têm um custo financeiro expressivo para o país.

Com base na média de valor pago por beneficiário em 2024, que foi de R$ 6.568,49 por um tempo médio de 96 dias de afastamento, o Brasil gastou em 2025 aproximadamente R$ 3.513.511.574,96 com benefícios relacionados à saúde mental.

Esse valor representa:

  • Mais de R$ 3,5 bilhões em um único ano
  • Um aumento de R$ 411 milhões em relação a 2024
  • Um novo recorde histórico de gastos previdenciários com saúde mental

Esse cálculo considera o número total de afastamentos em 2025 multiplicado pela média de custo por beneficiário apurada em 2024, metodologia utilizada em análises econômicas e já aplicada em reportagens nacionais.

Um problema estrutural que agora enfim entra no radar da fiscalização trabalhista

Os dados de 2025 deixam claro que não estamos diante de uma exceção, mas de um padrão estrutural de adoecimento mental no trabalho. O crescimento pelo quinto ano consecutivo indica que iniciativas pontuais, campanhas sazonais ou ações isoladas não são suficientes. Ele passou a ser, também, uma questão regulatória.

Para empresas, lideranças e profissionais de RH, os números reforçam a urgência de:

  • Políticas consistentes de prevenção;
  • Ambientes de trabalho mais saudáveis;
  • Uso de dados para orientar decisões;
  • Adoção de práticas contínuas de cuidado e gestão de pessoas.

Para o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a entrada em vigor da NR-1 revisada, em 2026, vai ampliar o olhar sobre riscos psicossociais e tornar esse debate ainda mais urgente e estratégico.

A atualização da NR-1, norma que estabelece as diretrizes gerais de saúde e segurança no ambiente de trabalho, terá como principal mudança a inclusão explícita dos riscos psicossociais, como estresse crônico, sobrecarga e fatores organizacionais que afetam a saúde mental, dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).

A norma revisada entra em vigor em 26 de maio de 2026 e, a partir dessa data, empresas passam a ser fiscalizadas quanto à identificação, avaliação e gestão desses riscos. O descumprimento pode gerar autuações e multas, assim como já ocorre com riscos físicos, químicos e ergonômicos.

É nesse contexto que os números apresentados neste artigo ganham ainda mais relevância. Esses dados evidenciam que os riscos psicossociais não são abstratos: eles se materializam em afastamentos prolongados, perda de capacidade produtiva e impacto financeiro direto para o sistema previdenciário, além das empresas.

Saúde mental exige ações concretas e imediatas

Na prática, os números de ansiedade, depressão, transtorno bipolar e outros quadros que lideram os afastamentos em 2025 ajudam a explicar por que a NR-1 foi atualizada.

O volume, a recorrência e a tendência de crescimento mostram que o adoecimento mental no trabalho é estrutural, previsível e mensurável. Esse é exatamente o tipo de risco que a legislação passa a exigir que as organizações gerenciem de forma urgente.

Para empresas e lideranças, o recado é claro: em 2026 saúde mental deixa de ser apenas uma agenda de conscientização e passa a integrar o campo da conformidade legal. Os dados de 2025 não apenas ilustram o problema, como também antecipam o cenário que será observado pelos auditores do trabalho a partir da vigência da nova NR-1.

Metodologia

Este conteúdo foi produzido a partir da análise de dados públicos oficiais, disponibilizados mensalmente pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e pelo Ministério da Previdência Social por meio do Portal de Dados Abertos do Governo Federal.

Para este levantamento, a equipe Cajuína analisou as bases mensais de benefícios concedidos, considerando exclusivamente os registros de Auxílio-Doença Previdenciário (espécie 31) associados a transtornos mentais e comportamentais, conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID-10).

Este estudo contempla todo o conjunto de transtornos mentais listados no Capítulo V da CID-10 (códigos F00 a F99). Isso inclui, além de quadros ansiosos e depressivos, condições mais graves e complexas, como esquizofrenia, transtornos psicóticos, transtornos de personalidade e transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de álcool e outras substâncias.

Essa escolha metodológica amplia o escopo da análise e permite uma visão mais completa do impacto da saúde mental no afastamento de profissionais do trabalho. Dessa forma, evitamos a exclusão de grupos relevantes de diagnósticos.

Os dados são extraídos mensalmente dos arquivos disponibilizados no portal de Dados Abertos, sempre no mês subsequente ao período de referência, em formato estruturado (CSV). A partir dessas bases, a Cajuína realiza processos próprios de tratamento, padronização e consolidação, incluindo:

  • Filtragem por espécie de benefício;
  • Identificação dos códigos CID relacionados à saúde mental;
  • Agregações por mês, trimestre e ano;
  • Comparações históricas entre diferentes períodos.

Ao adotar essa metodologia, a Cajuína busca oferecer uma leitura transparente, consistente e comparável ao longo do tempo. Nosso objetivo é contribuir para um debate mais qualificado sobre saúde mental nas empresas brasileiras.

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Jonatan Rodrigues é apaixonado por números, gráficos e por escrever. Tem como foco tirar insights e contar histórias através dos dados e desenvolver projetos que lhe permitam enxergar as histórias que os números contam.