Trabalhar embarcado em alto-mar, longe da família e da vida em terra firme pode exigir mais do que preparo técnico. Na Seagems, empresa brasileira de engenharia submarina formada por uma joint venture entre duas multinacionais, cerca de 80% dos 1,2 mil colaboradores mantêm essa rotina atuando fora da costa, nas bacias do Rio de Janeiro e do Espírito Santo.
As escalas variam conforme a função e podem incluir regimes como:
- 14 dias a bordo e 14 em terra;
- 28 por 28;
- ou até 35 por 35 – caso dos cerca de 70 profissionais expatriados.
Diante dessa dinâmica, a saúde mental tornou-se uma das prioridades da companhia. “Existe a questão de estar distante da família, da casa e do dia a dia. Costumo dizer que trabalhar embarcado é um estilo de vida”, afirma Glaucia Maciel, diretora de Recursos Humanos da Seagems.
No ano passado, a empresa lançou um programa de educação emocional em parceria com o Centro de Psicologia Empresarial (CEPEM), levando psicólogos para dentro das embarcações. A iniciativa começou com ações educativas presenciais sobre estresse, ansiedade, depressão e ambiente de trabalho saudável, mas evoluiu também para atendimentos individuais. Na conversa com Cajuína, Glaucia detalha como nasceu a iniciativa e por que o cuidado com a saúde mental ganhou centralidade em uma rotina marcada por escalas intensas e de isolamento. Confira, abaixo, os principais trechos:
Como surgiu o programa de educação emocional da Seamgens?
Somos uma empresa muito preocupada em cuidar e servir. Um dos nossos valores é a segurança. Ano após ano, implementamos novas ações de benefícios e bem-estar. Temos academias a bordo, sala de entretenimento com videogames e instrumentos musicais, TV e acesso à internet para que o empregado possa se distrair nos períodos de folga. Mas precisávamos implementar uma ação que pudesse dar um conforto psicológico aos colaboradores. A meta é que eles se sentissem mais tranquilos, acolhidos, diminuíssem a ansiedade e a preocupação de estar longe de casa.
A primeira delas foi a plataforma online Oriente-me, uma parceria com o seguro saúde da Bradesco, de atendimento psicológico para os empregados e os dependentes. Quando veio a época do Covid, passamos por uma situação extremamente delicada. Tínhamos que manter as operações a bordo e a questão emocional e psicológica ficou mais latente. Começamos a nos preocupar como íamos dar suporte aos empregados. Foi aí que buscamos a parceria com o CEPEM, que é uma empresa já conhecida no ramo. Entendo que essa percepção começou muito desse nosso olhar cada vez mais assim contundente, porque já fazíamos algumas ações, mas entendemos que tínhamos de dar um passo a mais.
Como ele funciona na prática?
No início, tivemos a ideia de ter uma psicóloga a bordo por período determinado para que ela pudesse dar palestras e conversar com os empregados sobre temas como ansiedade e depressão, que são delicados para quem trabalha embarcado. Organizamos para que elas realizassem embarques esporádicos em todos os navios. Cada profissional ficava quatro dias a bordo. Elas atendiam a maior parte dos empregados, dentro do efetivo que tempos a bordo – na média, são 85 a 90 empregados por embarcação, num grupo que chamamos de POB (sigla para o termo em inglês “people on board”).
Nossa meta era atingir pelo menos 80% do POB por meio das palestras. Precisávamos influenciar, convidar, bater um papo com eles. O que aconteceu foi que os empregados foram gostando, aderindo ao ponto até de pedir atendimento psicológico individualizado – o que não estava programado inicialmente. Eles assistiam às palestras, entendiam o assunto, participavam do workshop e se eles sentissem necessidade, ainda poderiam ter sessões individuais. As psicólogas se organizaram e conversaram com as lideranças de bordo. Isso foi algo fundamental para o programa funcionar e todos trabalharam juntos para que isso pudesse acontecer.
Quantos atendimentos foram realizados no passado?
Ao longo de 2025, foram realizadas 323 turmas, com 1.975 participações, além de 159 atendimentos personalizados individuais. As ações ocorreram tanto nos ambientes corporativos quanto a bordo das embarcações, reforçando o acesso ao cuidado emocional em diferentes contextos de trabalho. Foram 47 embarques de psicólogos, totalizando 153 dias de atividades a bordo. Ao todo, alcançamos 82% dos profissionais embarcados, índice superior à meta inicial, que era de 80%. Outro dado é que 98% dos participantes classificaram o programa como “muito bom” ou “excelente”. Recebemos 2.065 feedbacks descritivos espontâneos dos participantes.
A maioria dos colaboradores embarcados são homens, que por sua vez, costumam ser mais reticentes ao apoio psicológico. O que motivou a adesão ao programa?
Hoje 92% do time offshore da Seagems é composto por homens. Entendo que eles aderem ao programa por se sentirem acolhidos e prestigiados, já que estamos indo até eles, a bordo, no ambiente de trabalho, onde se sentem bem e ao lado, como eles mesmos relatam, da segunda família deles.
O programa foi renovado para 2026, mas haverá alguma novidade?
A nova fase do programa prevê aprofundamento temático, ampliação de ações voltadas à liderança e uso mais estruturado de indicadores para mensurar impactos emocionais e organizacionais. Nossa perspectiva é consolidar o papel de uma empresa acolhedora, que pratica a escuta ativa e implementa ações que viabilizam um ambiente de trabalho cada vez mais pautado no bem-estar e na segurança psicológica.
Quais os ganhos para a companhia dessa iniciativa? Qual a importância da saúde mental para a Seagems?
Para a empresa, ao implementarmos ações como essa, reforçamos para os empregados, familiares e possíveis contratados que somos um bom lugar para trabalhar, com cuidado e um ambiente de trabalho harmonioso, seguro e acolhedor. Implementar ações que possibilitem uma melhora contínua na saúde mental de todos os empregados é importante por contribuir para termos um ambiente de trabalho emocionalmente seguro que gera engajamento das equipes, contribuição e o cuidado coletivo, tão reforçado pela empresa com a cultura prática de “nós cuidamos uns dos outros.”
Para finalizar, pode dar uma dica de conteúdo para quem acompanhou a entrevista até aqui?
Vou indicar alguns livros que me marcaram em diferentes fases da vida. Curiosidade Premiada, de Alcy e Fernanda Lopes de Almeida, conta a história da menina Glorinha, extremamente curiosa e que queria saber os porquês de tudo. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupery, me fez despertar o agir e o cuidar ao abordar que nos tornamos responsáveis por quem ou por aquilo que cativamos. Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes, de Stephen Covey, aborda com facilidade e clareza de entendimento a forma como podemos agir para impactar de maneira positiva o nosso dia a dia no trabalho. Por fim, também indico Os Quatro Compromissos, de Don Miguel Ruiz, que traz uma jornada de vida feliz e amorosa.