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Por que estão falando tanto de… quit-tok

Por que estão falando tanto de… quit-tok

Muito distante do quiet quitting, a prática de publicar vídeos que mostram a própria demissão nas redes sociais ganhou popularidade entre a fatia mais jovem da atual força de trabalho. O quit-tok, trend que já soma muitos adeptos no TikTok, mostra como estamos diante de um novo perfil profissional – e um novo desafio para o RH.

O que está por trás do sucesso das férias ilimitadas na Nilo Saúde

Na healthtech, os funcionários podem sair além dos 30 dias estipulados pela CLT, seja por uma questão de saúde, seja para viajar ou fazer um curso; ter uma cultura bem consolidada e líderes como exemplo sustentam esse modelo, diz cofundador e CHRO da empresa

Caroline Marino
27 de março de 2024
Leia emminutos
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Antes da Nilo Saúde contratar seu primeiro funcionário, uma das primeiras preocupações foi estabelecer uma cultura bem-estruturada para, assim, pensar de que forma seus valores e princípios estariam refletidos nas ações e benefícios corporativos. Entre as preocupações estavam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e a saúde mental das pessoas. Tendo como base a experiência de Isadora Kimura, cofundadora da empresa, que já havia trabalho em companhias do Vale dos Silício, foi desenhada a oferta das chamadas “férias ilimitadas”. 

Não se trata de incentivar as pessoas a tirarem folgas o tempo todo, mas mostrar que o time tem autonomia para identificar se precisa de um tempo para cuidar da saúde mental ou de outra demanda.

A prática – que se popularizou após a publicação do livro A regra é não ter regras, do CEO da Netflix Reed Hastings – começou nos pequenos negócios do pólo tecnológico mundial e se difundiu entre outras grandes companhias, como LinkedIn, Bumble e o banco de investimentos Goldman Sachs. De maneira prática, a ação possibilita que o funcionário tire o tempo de descanso que for necessário, sem determinar datas fixas ou se limitar aos 30 dias previstos pela CLT. Em entrevista à Cajuína, Victor Marcondes, também cofundador e CHRO da Nilo, explica como o benefício funciona e os segredos para fazê-lo funcionar sem transformar a empresa em bagunça.

Quais os pontos mais importantes para que as férias ilimitadas realmente deem certo e sejam usadas com consciência? 

A cultura permeia tudo. Muitas pessoas me perguntam se qualquer empresa pode implementar esse benefício e minha resposta é sempre a mesma: depende da cultura. Se ela empodera as pessoas para tomarem decisões de maneira autônoma, é um sinal de que a companhia está bem posicionada para ter uma iniciativa como essa e implementá-la com sucesso. Se, por outro lado, houver uma gestão de microgerenciamento e comando e controle, será preciso, primeiro, trabalhar na mudança de mentalidade. Não tem nada a ver com o porte ou segmento do negócio e, sim, com os valores e o jeito de trabalhar. Na Nilo, as férias ilimitadas estão alinhadas com a cultura, que é baseada em seis mindsets – como autonomia e responsabilidade para as pessoas tomarem suas decisões e agirem conforme acreditam ser a melhor maneira para a empresa. Esse benefício é uma forma de reforçar isso. 

Como a iniciativa funciona na prática?

A única regra é avisar o gestor com antecedência e planejar bem a saída, com todas as entregas alinhadas. Isso varia conforme o tempo de afastamento. Para folgas de um dia, o funcionário deve avisar uma semana antes; para as de até sete dias, duas semanas. Já para aquelas de mais de 15 dias, o aviso deve ser feito com um mês de antecedência. Há uma cartilha que orienta como o benefício deve ser utilizado, com todos esses detalhes e o processo de comunicação e alinhamento que deve ser feito para que o funcionário saia tranquilo. É importante ressaltar que não se trata de incentivar as pessoas a tirarem folgas o tempo todo, mas mostrar que o time tem autonomia para identificar, por exemplo, se precisa de um tempo para cuidar da saúde mental ou de outra demanda. A ideia é atuar antes do cansaço ou de doenças surgirem e não depois.

Vemos muitos casos de pessoas no limite, mas que não têm coragem de pedir folga ao gestor. Aqui, queremos que todos sejam donos de seu bem-estar.

O benefício surgiu com a criação dos nossos valores e, por isso, funciona tão bem. Está longe da linha: “Se existem férias ilimitadas, significa que posso sumir amanhã e não aparecer durante um mês na empresa?” Não. Por isso é tão importante incentivar a autonomia e a responsabilidade. Se alguém decidir tirar mais dias do que o estipulado na CLT, por exemplo, precisa garantir que está saindo num momento em que as atividades não vão parar. Além disso, salvo emergências, é importante que tenha tempo suficiente para estruturar as demandas, comunicar as pessoas envolvidas no trabalho e delegar o que for necessário. 

A legislação brasileira estabelece padrões mínimos de trabalho e determina que as empresas disponibilizem 30 dias de férias, após um ano, para os funcionários. Isso continua igual, com aviso prévio ao RH para todos os trâmites necessários. As férias ilimitadas são como um complemento e entram como licença remunerada. As pessoas podem usufruir do período mesmo antes de completar um ano de empresa ou quando tiverem necessidade – seja por uma questão de saúde, uma viagem ou curso. A diferença é que esses períodos não são lançados no e-Social, ação obrigatória no caso das férias CLT. Para garantir segurança e direcionamento formalizamos, em todas as contratações, um acordo que deve ser assinado dando ciência da prática. 

De que forma esse benefício impacta na produtividade, retenção e imagem da empresa? 

Além de auxiliar no desempenho do time e na qualidade de vida, reforça nossa marca empregadora, sendo um atrativo nas contratações. As pessoas veem como um bônus. No entanto, é importante lembrar que a escolha por uma empresa se dá por muitas questões, como o produto ou serviço que oferece, as oportunidades de crescimento, o ambiente, as perspectivas e, claro, o propósito compartilhado. As férias ilimitadas comunicam e reforçam nossa cultura. Isso quer dizer, que muitos escolhem trabalhar aqui não pelo benefício, mas pelo o que está por trás dele, pelos nossos valores. Pra mim, por exemplo, o benefício ajuda na construção de uma rotina mais alinhada com minha vida pessoal e objetivos. Uma das vezes que o usei foi para uma viagem ao Japão, no ano passado.

Isso quer dizer que o exemplo dos líderes é fundamental, né?

Sim. Na Nilo, acreditamos muito na liderança como exemplo. É ela que dá o tom à companhia. Não basta colocar no “pacote” e ninguém usar por ter receio. Além de todos se sentirem à vontade para usufruir do benefício, a gestão é muito transparente e os líderes também usam. Todos os funcionários, desde o recrutamento e seleção, sabem o jeito de trabalhar na Nilo e o que buscamos. Queremos pessoas com alta performance, que se entreguem com consistência, que sejam confiáveis e mantenham seus compromissos de alta integridade. Pessoas que desejam se desenvolver e saibam dar e receber feedback para isso, que sejam curiosas para discutir, sem medo de dar opiniões e discordar. Além disso, queremos pessoas com bastante autonomia.

Tudo isso tem como base um ambiente de segurança psicológica, caracterizado pela confiança que as pessoas têm em expressar opiniões, dar ideias, fazer perguntas, e, principalmente, saber que o erro faz parte do processo e pode ser fonte de aprendizado e não de punição. Um ambiente que permita entender que está tudo bem se alguém precisar sair por algum motivo, seja por uma viagem, talvez, um curso ou por uma questão de saúde.

E como foi o trabalho do conceito com a liderança?

Fizemos uma roda de conversa com a empresa inteira para falar sobre a iniciativa, desde como funciona e a melhor forma de utilizá-la, até quando utilizar e qual a antecedência para solicitar. Mandamos esse e outros conteúdos para as lideranças para que elas também se apropriem disso quando um liderado precisar e poder ajudá-lo a usufruir e do benefício. 

Além disso, temos uma grande preocupação em fazer uma série de treinamentos com os líderes sobre segurança psicológica, comunicação não agressiva, feedback, empatia… Esses temas são importantes quando falamos dos pilares da cultura que sustentam a questão da autonomia e responsabilidade

Nos últimos anos, as empresas passaram a dar mais destaque para a questão da saúde mental de seus colaboradores. Ao mesmo tempo, muitas adotaram o trabalho híbrido ou com mais flexibilidade para proporcionar mais qualidade de vida. Como as férias ilimitadas podem ajudar nessa questão de saúde?

As férias ilimitadas estão dentro de um pacote de benefícios que estão ligados ao bem-estar e à saúde mental. Temos uma série de benefícios voltados para o bem-estar e saúde mental, como o self-care day. Ele consiste em uma parada uma vez por trimestre. Paramos a empresa inteira para passar o recado de que todos devem cuidar da saúde mental, fazendo atividades que a promovam. Além disso, realizamos rodas de conversa sobre essa importância e, já no onboarding, o tema saúde mental está presente.

São iniciativas para ajudar os funcionários a agir de forma preventiva. Vemos muitos casos de pessoas no limite, mas que não têm coragem de pedir folga ao gestor. Aqui, queremos que todos sejam donos de seu bem-estar e não precisem adoecer para ter tempo livre. E as férias ilimitadas, em si, são muito úteis para quando acontece algo inesperado, como tratar da saúde mental ou quando há um falecimento na família. Assim como ajudam na realização de objetivos, como uma viagem ou uma especialização. Não faz sentido não sair por não ter férias para tirar.

Jornalista especializada em carreira, RH e liderança feminina. Passou por publicações como Você S/A, Cosmopolitan e Valor Econômico, além de colaborar para Época Negócios, Você RH e Universal Uol. É coautora de "O mundo (quase) secreto das startups e head de conteúdo da Tempo de Mulher.