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O colorido nas ruas para a Copa do Mundo de 2030!

Em coluna para Cajuína, Raul Juste Lores conecta a ausência da decoração verde e amarela nas ruas brasileiras à fuga do espaço público e provoca: o gestor de RH precisa sair da bolha e conhecer a cidade que cerca a empresa antes da Copa do Mundo de 2030.

Raul Juste Lores
17 de junho de 2026
Capa do artigo Coluna Raul Lores junho de 2026
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A culpa é das crianças de condomínio? Dos adolescente, que só vestem a camiseta do Messi? Ou dos adultos? É o que se pergunta muita gente pela ausência de decoração verde e amarela para a Copa do Mundo nas ruas brasileiras. E nem adianta só culpar a CBF ou os jogadores que caem com uma brisa.

Nas últimas décadas, o brasileiro fugiu da rua. A tecnologia acelerou: ninguém mais vai a uma agência bancária e ninguém mais vai a uma “loja de discos” (lembra?). Nossa interação com humanos diminuiu até nos supermercados: funcionários estão antecipando o desaparecimento de seu emprego nos encaminhando para máquinas que substituem os caixas.

Tem a segurança. Tem as calçadas tão bem mantidas e conservadas, que nos obrigam muitas vezes a ir pelo asfalto (trocando de papéis com os ciclistas que insistem em pedalar na calçada). Tem as comodidades de se pedir entrega de tudo, e não se conhecer o próprio quarteirão. Saudável? Não é.

Estive neste mês pela primeira vez em São Luis do Maranhão. Dei uma palestra no famoso centro histórico da cidade, quase uma Lisboa pré-terremoto de 1755. Arquitetos portugueses visitam a capital maranhense para estudar como era a Lisboa antes da tragédia que varreu a cidade. O local onde dei a palestra era um antigo trapiche restaurado. Por todos os lados, repartições públicas, centros culturais e museus.

Às 18h, ruas vazias. A área povoada do centro, de baixa renda, fica longe da área restaurada. Isso explica mais sobre a cabeça dos gestores brasileiros que mil estatutos da cidade. Apesar da beleza, das ruas estreitas (que provocam sombra e conforto, uma inteligência que viajou dos países árabes à península ibérica), quase ninguém caminha.

Na cidade “nova”, muros e muros, condomínios fechados, shopping e vias expressas. Culpam o calor. Mas o Rio de Janeiro, tão quente no verão quanto São Luis, e muito mais verticalizada, tem gente na rua o ano inteiro: do Méier a Tijuca, do Leblon ao Botafogo.

Se você, gestor de RH, jamais anda a pé, provavelmente ignora se as ruas que circundam sua empresa têm árvores ou não. Se as calçadas podem provocar tombos ou são agradáveis. Se há comércio na rua e se ele tem um cardápio variado (só loja de capinha de celular ou cafés hipsters não geram diversidade, nem tanto quebra-galho que seus colaboradores precisam). Por desconhecer o paisagismo da entrada do seu prédio ou o caminho percorrido de quem depende de transporte público, você não pensará em medidas, iniciativas e programas para fazer uma cidade mais saudável.

A empatia acontece quando saímos de nossa bolha e espontaneamente conhecemos os diferentes. Quem não tem carro. Quem já está em idade de não poder mais dirigir. As crianças. As mães com carrinhos. Os vizinhos que precisam levar os pets para esvaziar a bexiga. Tanto se fala em zona de conforto, mas nossas cidades são zona de desconforto permanente.

As Copas do Mundo de futebol sempre foram grandes momentos de congraçamento nacional. Quando o CEO conversa com o valet sobre os gols ou os frangos. Quando na entrada de um prédio alguém revela que também jogava futebol. Ou sabe a escalação inteirinha da seleção. Era quando vizinhos de idades diversas saíam para pintar o asfalto e espalhar bandeirinhas verdes e amarelas. E a cornetar todo mundo.

No dia a dia, podemos dissolver essas barreiras invisíveis e voltar a nos conectar. A zelar pela rua. Quem sabe, na Copa do Mundo de 2030, teremos as ruas coloridas novamente.

Raul Juste Lores é jornalista e escritor. É autor do livro “São Paulo nas Alturas”, colunista do UOL e criador do canal São Paulo nas Alturas, que já superou a marca de 20 milhões de visualizações no Youtube.