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“Trabalho presencial e saúde social não são sinônimos”, diz a escritora Kasley Killam

Pioneira em divulgar dimensão do bem-estar que surge das relações sociais, autora canadense defende que conexão no trabalho é vital para gerar colaboração, resiliência, crescimento profissional e inovação

Bruno Capelas
27 de janeiro de 2026
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Durante muito tempo, acreditou-se que apenas o aspecto físico era importante para a saúde. Ao longo das últimas décadas, e especialmente após a pandemia, a saúde mental ganhou espaço – e hoje, os cuidados com o corpo rivalizam com os da mente. Mas, na visão da autora canadense Kasley Killam, há uma dimensão do bem-estar que está sendo negligenciada e tem um impacto importante não só na saúde, como na felicidade, na longevidade e na produtividade: as relações sociais. “Se você come bem, vai à academia ou faz terapia, também deveria investir na sua saúde social”, diz ela, que passou recentemente pelo Brasil para lançar o livro “Saúde Social”, pela editora Amarilys. 

Mais do que apenas uma questão individual, porém, a escritora defende que a saúde social é um tema que precisa estar na pauta de todas as empresas. “Há estatísticas que mostram isso: um colaborador que tem um melhor amigo no trabalho é até sete vezes mais engajado, além de produzir um trabalho de melhor qualidade e estar mais satisfeito com o que faz”, diz. “Além disso, passamos mais tempo com nossos colegas do que com amigos ou com a família. O trabalho pode ser uma fonte valiosa da saúde social, mas também pode afetá-la dramaticamente.” 

Na entrevista a seguir, realizada dias após a vinda da escritora e psicóloga ao País, Kasley fala sobre como as empresas, o RH e os líderes podem criar ambientes seguros para a criação de conexões significativas. Spoiler: “é muito fácil fazer as pessoas ficarem entediadas quando a empresa propõe ‘mais um happy hour’”, diz ela. Temas como inteligência artificial, pressão por resultados, diferentes culturas e a volta ao presencial também aparecem na pauta. “Antes da pandemia, já havia uma prevalência de trabalhadores que se sentiam solitários”, ressalta. “É algo que ilustra que trabalho presencial e saúde social não são necessariamente sinônimos.” 

O principal conceito por trás da sua obra é a saúde social. Como você o define? 

A saúde social é a dimensão da nossa saúde e do bem-estar que surge das conexões que fazemos com outras pessoas. Da maneira que penso, a saúde física fala sobre o nosso corpo. A saúde mental fala sobre a nossa mente. E a nossa saúde social fala sobre nossas relações. Não só as empresas, mas todos nós, humanos, precisamos começar a  reconhecer que a nossa saúde não tem só uma divisão entre físico e mental. É importante priorizar a nossa saúde social da mesma forma que os outros aspectos. Se você come bem ou vai à academia, se faz terapia, você também deveria investir na sua saúde social. Hoje, as pesquisas são claras em dizer que a sociabilidade é um fator importante quanto à saúde, mas também quanto à felicidade e à longevidade. 

Colaboradores conectados são colaboradores mais efetivos.

E por que esse tema deve estar na pauta de qualquer empresa? 

Do ponto de vista dos negócios, os dados também são claros em dizer que colaboradores conectados são colaboradores mais efetivos. Há estatísticas que mostram isso: um colaborador que tem um melhor amigo no trabalho é até sete vezes mais engajado, além de produzir um trabalho de melhor qualidade e estar mais satisfeito com o que faz. Também vemos uma performance melhor, na entrega e na inovação, das pessoas que têm boas relações com seus times. São pessoas mais colaborativas, resilientes, com maior crescimento profissional e menos propensas a buscarem um novo emprego. Além disso, já há análises sobre o custo da solidão nos Estados Unidos.

Hoje, a economia americana perde US$ 406 bilhões por ano graças à solidão e seu impacto na perda de produtividade, no absenteísmo, na busca por novos empregos. Acredito que estão claros os benefícios que a saúde social pode trazer para as organizações – e os líderes inovadores e que buscam avançar serão os primeiros a reconhecer seu valor e priorizar esse tema. 

Como criar o ambiente correto para promover conexões genuínas, sem que a interação no mundo corporativo pareça forçada? 

Entendo seu ponto: é muito fácil fazer as pessoas ficarem entediadas quando a empresa propõe “mais um happy hour”. Encorajo as pessoas a pensar em dois caminhos. O primeiro fala sobre criar oportunidades estruturadas, mas que sejam significativas para os colaboradores. Em alguns casos, isso significa investir na co-criação de eventos, ouvindo as pessoas. Outro ponto importante é entender que quem trabalha – e especialmente que não está numa posição de liderança – passa muito tempo das suas horas ativas no trabalho. Às vezes, passamos mais tempo com nossos colegas do que com amigos ou com a família.

O trabalho pode ser uma fonte valiosa da nossa saúde social, mas também pode afetá-la dramaticamente. Assim, é importante pensar no tipo de ambiente de trabalho que temos e como ele oferece oportunidades para criação de comunidades. Isso dá trabalho – muito mais do que fazer só outro happy hour. Algumas das pesquisas mais interessantes que saíram este ano mostraram que os times que tem mais rituais são aqueles que são mais conectados. E esses rituais começam desde o onboarding. Como ele faz com que as pessoas se sintam bem-vindas? Desde o primeiro dia, um colaborador constrói relações para se tornar parte do time. O que aconteceria se todas as reuniões tivessem um quebra-gelo?

No Hinge, um app de namoro dos EUA, toda reunião quinzenal dos executivos começa com 30 minutos dedicados a compartilhar assuntos de gratidão, ansiedade e esperança. Do CEO aos C-Levels, todos falam sobre suas vidas pessoais nesses três temas. É um ritual que ajuda a desenvolver relações, construindo confiança e intimidade. O ritual pode ser uma retrospectiva depois do lançamento de um produto ou acontecer dentro das reuniões que já existem.

Uma das minhas dicas favoritas é bem simples, mas muito poderosa: programar um aviso de gratidão. Seja você o CEO ou um colaborador jovem, separe cinco minutos da sua semana para mandar uma mensagem de agradecimento a alguém com quem você trabalha. Não é para passar um retiro de uma semana para unir os times, é simples como dizer “obrigado”. Mas isso pode criar uma cultura de saúde social muito melhor do que um happy hour cheio de sorrisos amarelos. 

O cotidiano de muitos trabalhadores é cada vez mais marcado pela pressão. Muita gente não se engaja nos rituais porque está preocupada com os resultados. Como criar um ambiente propício quando o dia a dia é tão estressante? 

A verdade é que muitos de nós somos mesmo ocupados e não achamos que temos tempo para nada. Sei que no Brasil, o burnout tem sido um problema sério e comum, como é aqui nos EUA e no Canadá. É por isso que uma das recomendações que dou aos líderes é a ideia de “desconectar para reconectar”. Isso significa que precisamos nos desligar do trabalho para nos conectarmos com nós mesmos, com quem amamos, com a família ou os amigos. É preciso ter limites saudáveis. Parece fácil falar, sabe? Mas gosto de citar algo que aconteceu com o Brian Chesky, o CEO do Airbnb.

Ele trabalhou duro por muitos anos, sete dias por semanas, sempre por mais de dez horas. Até que um dia percebeu que não era mais tão bom no trabalho quanto era antes. Ele não conseguia pensar direito e não era eficiente se não tirasse tempo para estar com amigos e família. Acredito que está na hora dos líderes reconhecerem que esse equilíbrio é necessário. Pode ser ainda necessário trabalhar ao fim de semana e de noite? Pode. Mas será que é preciso enviar um email aos sábados às 15h? Não é melhor agendá-los para segunda-feira, às 9h? São pequenas coisas, mas que influenciam muito na criação de uma cultura saudável – que, por sua vez, vai beneficiar a performance e o balanço das empresas. 

capa do livro “Saúde social: A arte e a ciência da conexão humana”, de Kasley Killam.

Desde o fim da pandemia, temos visto muitas empresas voltarem ao presencial – e usando a necessidade de conexão entre os colaboradores como desculpa. Como você vê esse tema? A volta ao presencial é realmente necessária para a saúde social? 

Antes da pandemia, o trabalho era basicamente presencial. E naquela época, já havia uma prevalência de trabalhadores que se sentiam solitários, antes mesmo que o trabalho remoto se tornasse uma possibilidade. É algo que ilustra que trabalho presencial e saúde social não são necessariamente sinônimos – porque nem sempre as pessoas estavam conectadas de forma significativa. É importante ter isso em mente porque não basta colocar as pessoas no mesmo teto.

O que importa é como usar o tempo de forma produtiva. Odeio quando ouço que as pessoas estão voltando para cubículos em que passam o dia todo fazendo chamadas no Zoom. É uma grande perda de tempo! É preciso voltar à intencionalidade, entendendo que as pessoas podem ser produtivas e eficientes de muitas maneiras. Quando as pessoas estão juntas no mesmo local, é preciso aproveitar esse tempo em conexões profundas. É ótimo estar ao lado das pessoas, mas é preciso ter flexibilidade. Meu cenário ideal de trabalho é um modelo híbrido no qual os colaboradores têm autonomia para decidir como se sentem melhor, com o RH e os líderes estruturando ações presenciais de alta qualidade.  

E que tipo de atividades podem criar senso de pertencimento quando as pessoas estão distribuídas geograficamente? 

É preciso pensar no que faz as pessoas serem parte de uma comunidade. Pode ser ter um propósito em comum? Então é importante que as ações reforcem esse propósito. Outro tema importante é ter uma voz que seja ouvida e valorizada. Aqui, cabe aos líderes abrirem espaço e terem uma escuta ativa, seja quando estão frente a alguém ou em uma chamada de Zoom intercontinental. São táticas que podem ser aplicadas em qualquer canal de comunicação. Também vale a pena pensar na criatividade sobre o motivo de uma reunião existir.

Na Microsoft, certos times têm encontros dedicados a falar sobre erros ou fracassos – e o que aprenderam com eles. Nessas reuniões, sempre quem fala primeiro é a pessoa mais sênior, a fim de permitir que todos entendam que estão num ambiente psicologicamente seguro. É um exemplo que mostra uma mentalidade de crescimento e de união, criando uma camaradagem entre as pessoas. E claro, isso pode acontecer online ou presencialmente. É claro que nem toda reunião precisa disso – algumas reuniões podem ser táticas, mas às vezes vale a pena dar um passo atrás e fazer um esforço para repensar esse espaço. 

A abertura é um tema importante na criação de relações de confiança, mas dependendo do ambiente, ela pode ser um problema. Se um médico ou um jornalista compartilha um erro, isso pode dar início a um processo judicial. Como ambientes delicados podem construir esse tipo de relação? 

Não é só o compartilhamento de erros e fracassos que constrói uma relação. Compartilhar o que deu certo e celebrar também ajuda nesse sentido. A construção de confiança não precisa vir de algo negativo – embora os dados mostrem que, quando há vulnerabilidade, aumenta a chance de se criar um ambiente de segurança psicológica, o que é fundamental para a saúde social e para o sucesso dos times. Infelizmente, não há uma resposta universal que se aplique para cada equipe, há muitas nuances envolvidas. Ao mesmo tempo, encorajo o RH e os líderes a pensar sobre os princípios e valores da organização e como eles podem ser desenvolvidos no ambiente específico. É preciso experimentar e co-criar esse tipo de espaço com as pessoas para gerar uma cultura positiva. 

O RH é cada vez mais movido a dados. Como medir a saúde social de uma empresa?  

É algo que precisa ser criado dentro de cada empresa. Há pesquisas já validadas que podem ajudar, mas imagino que cada empresa precise customizar o trabalho existente, até para identificar o pulso ou o ponteiro de cada ambiente. É preciso entender também o que se quer medir: uma coisa é compreender a relação de confiança. Outra é o pertencimento, ou a desconexão que as pessoas sentem com seu trabalho. Adoraria dizer que há uma ferramenta universal, mas há muita especificidade dentro de cada processo. 

Você esteve no Brasil recentemente para lançar seu livro em português. Imagino que tenha percebido como o aspecto social é importante para nós – mas nem sempre isso significa que há uma conexão entre as pessoas. Como essas nuances culturais transformam a saúde social? 

É um aspecto fascinante – e um tema sobre o qual quero me debruçar no futuro. Tive a chance de viajar a lugares diferentes como o Brasil, o Japão, o Butão e Singapura nos últimos tempos e explorar essas diferenças. É fascinante. O Brasil tem essa reputação global de ser um país social, comunitário, mas ao mesmo tempo há pesquisas que mostram que um em cada dois brasileiros se sentem solitários. É possível ser social e ao mesmo tempo não se sentir conectado com as pessoas de forma profunda – o que é uma amostra importante de que a saúde social depende do contexto cultural em que estamos.

Além disso, há aspectos comunitários e regras sociais que afetam esse tema, como a segurança de uma vizinhança. Se você se sente seguro para sair de casa e encontrar amigos, isso ajuda na sua saúde social. A violência ou o urbanismo das cidades é algo que afeta muito a nossa experiência, além das normas culturais. 

Não dá para discutir saúde social hoje em dia sem falar de inteligência artificial generativa. Nossa interação com a tecnologia está cada vez mais conversacional. Hoje, falamos não só com nossos chefes e colegas, mas também com agentes e assistentes digitais. Você acha que haverá um declínio na saúde social graças ao trabalho com IA? 

Enquanto eu pesquisava para o meu livro, fiz uma pesquisa profunda sobre isso. Há três anos, já havia centenas de milhões de usuários de IA – e muita gente buscando companhia na tecnologia, até mesmo tratando um assistente como namorado. Parece distópico, mas é um futuro que está cada vez mais entre nós. Gosto de pensar no uso de inteligência artificial como um espectro – e uma forma fácil de entender isso é usando a analogia de um semáforo.

A luz verde aparece quando usamos a IA para reforçar a conexão humana – como quando ela nos ajuda a traduzir uma conversa em diferentes idiomas, por exemplo. A luz amarela surge quando usamos a IA para algum tipo de conexão emocional. É pouco realista pensar que ela não fará parte da nossa vida social. Já tive situações em que estava viajando, eram 3h da manhã no meu país, mas eu precisava conversar com alguém e recorri ao ChatGPT. Pode haver um caso de uso para isso, mas é preciso tomar cuidado.

E a luz vermelha acende quando a IA é a única ou a principal fonte de saúde social de uma pessoa. Isso já está acontecendo, infelizmente. Dito isso, a questão não deve ser se a inteligência artificial é má ou se ela precisa ser diferente. A pergunta é porque criamos um mundo em que as pessoas se sentem tão desconectadas uma das outras, a ponto de buscar apoio na tecnologia quando estão realmente sozinhas? É uma pauta que precisamos discutir. 

No mundo corporativo, há uma expectativa hoje que o trabalho seja feito com IA, mas isso pode alterar drasticamente a sua natureza. Escrever um texto do zero é muito diferente de editar algo que o ChatGPT fez. Como a IA pode afetar a criatividade, por exemplo, que está também ligada à saúde social? 

É complicado – e acho que ninguém tem a resposta para essa pergunta. Mas precisamos reconhecer que a IA é uma ferramenta, enquanto a conexão humana é o que dá sentido à vida. Se a IA ajuda o seu trabalho como jornalista, isso significa que você tem mais tempo para ver o mundo e conversar com mais pessoas. A IA abre um horizonte de possibilidades de conexões valiosas. E acredito que haverá um prêmio para as interações humanas, já que muito do trabalho será feito pela IA. Ao mesmo tempo, as organizações precisarão mudar continuamente, porque se adaptar será um pilar da sobrevivência – e precisamos descobrir como prosperar nesse contexto. 

Um bom primeiro passo é ouvir as pessoas, uma vez que cada colaborador contribui com a cultura de uma empresa.

Que conselho você daria a um profissional de RH que quer olhar para a saúde social? Qual é a primeira coisa que deveria ser feita? 

Eu começaria com pesquisas. Um bom primeiro passo é ouvir as pessoas, uma vez que cada colaborador contribui com a cultura de uma empresa. O ideal é que as opiniões sejam coletadas anonimamente, para que cada pessoa possa ser franca com o que sente. A partir desse pulso da organização, muitos líderes podem começar a reparar no que está funcionando ou não e avaliar a experiência completa dos colaboradores. Se alguém está chegando agora à empresa, como será que essa pessoa vai se sentir daqui a um ano, em termos de conexão e engajamento? Fazer um exercício desses pode inspirar as empresas a avançarem. Mais do que tudo, minha mensagem é que precisamos ser intencionais sobre a saúde social, entendendo que ela é uma prioridade. Faz parte do processo experimentar e aprender, mas a intenção precisa sempre estar no primeiro plano. 

Por que você decidiu se dedicar a este tema, Kasley? 

Eu amo pessoas. Acho que elas são muito interessantes e sempre fui curiosa para entender porque fazemos as coisas que fazemos. É engraçado: sou uma pessoa introvertida, que se mudou muitas vezes de cidade ao longo da vida. Isso me fez pensar sobre como conseguimos criar relacionamentos saudáveis. E sempre fui uma apaixonada em transformar minha pesquisa em algo que pode ser útil na vida das pessoas. 

Acredito que a saúde social ocupa hoje um lugar nas discussões equivalente ao que a saúde mental tinha há 10 ou 20 anos. Cada vez mais, vamos falar sobre esse tema – e é muito animador ser parte de um movimento global que está dedicado a este debate. 

Para fechar: que conselho você daria para quem está entrando em um novo emprego? 

Mudar de emprego é algo disruptivo. Pode ser difícil, pode levar muita gente a se isolar. Meu conselho principal é buscar almoçar ou tomar café com pelo menos uma nova pessoa por semana, durante o seu primeiro ano. É importante priorizar isso e colocar na agenda, dedicar tempo. Já trabalhei no mundo corporativo e sei que é muito fácil se perder em meio à enxurrada de projetos, metas e entregas. Mas é importante priorizar os relacionamentos para saber quem são as pessoas e como você pode se conectar com elas – no bom sentido. 

Bruno Capelas é jornalista. Foi repórter e editor de tecnologia do Estadão e líder de comunicação da firma de venture capital Canary. Também escreveu o livro 'Raios e Trovões – A História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum'.