Pesquisa do MIT Technology Review Brasil não deixa dúvidas que inteligência artificial será importante no mundo do trabalho, mas adoção real será cheia de obstáculos
Por Mariana Mesquita, Global Talent Manager da Hotmart*
Este mês estive pela primeira vez no SXSW (South by Southwest), um festival de inovação, tecnologia, música, cinema e cultura do mundo que acontece anualmente em Austin, desde 1987. Foi uma experiência muito rica, intensa e, até, transformadora.
O evento é conhecido por antecipar tendências, especialmente em tecnologia, mas para mim, ele vai além disso, sendo um verdadeiro observatório do comportamento humano, fundamental e imperdível para profissionais envolvidos na gestão de talentos e estratégia corporativa.
Eu escolhi sessões das trilhas de 2050 (futurismo), da creator economy, Indústria de Tecnologia, me aventurei em um tema ou outro fora da caixa, e por atuar em uma posição global, voltada ao desenvolvimento de pessoas, cultura e engajamento corporativo, dediquei bastante tempo em sessões da trilha de Workplace, que discutiu a evolução contínua de como trabalhamos, desde espaços físicos e redefinição das expectativas até a execução de ambientes diversos, avaliando o impacto de tais mudanças tanto nos funcionários quanto dos empregadores.

Eu sempre me interessei por assuntos e práticas diversas, nos quais construí conhecimento e domínio, mas sem necessariamente aprofundamento. Eu gosto de cozinhar, sou uma surfista iniciante, e falo um francês “meia boca”. Essa característica por muito tempo me pareceu um aspecto a desenvolver – eu acreditava que deveria encontrar áreas para ser especialista, ser referência no assunto. Acontece que meu repertório diverso, e o pensamento crítico que desenvolvi ao longo dos anos com ajuda de alguns bons líderes, foi moldando uma profissional hábil em diferentes temas e com amplo conhecimento para atuar na resolução de problemas complexos e com nível de abstração. E por fim, não é que virei referência em alguns assuntos?
Meu repertório diverso, e o pensamento crítico que desenvolvi ao longo dos anos com ajuda de alguns bons líderes, foi moldando uma profissional hábil em diferentes temas
Escrevo isso com o objetivo de encorajar a busca por eventos e experiências que ampliem horizontes, eventos, podcasts, leituras e práticas não óbvias ou da sua área de atuação, pois sabemos que conhecimento é transferível. A inovação vem das conexões que fazemos. E se “Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, também nos negócios, soluções podem surgir de paralelos de coisas que já existem, e por vezes, vir de conexões incomuns.
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Compartilho alguns insights que tive após ouvir e interagir com profissionais relevantes do mercado no SXSW, discutindo e compartilhando suas visões, tendências, e ideias do que está por vir.
– Um líder que gerencia apenas através de entregas e resultados, ficou no passado. Em inúmeras sessões, foi trazida a importância da liderança com empatia e autenticidade, demonstrando interesse genuíno pelo bem estar e desenvolvimento das pessoas, cultivando conexões reais. Esse aspecto foi o que mais me chamou a atenção pois foi recorrente em diversas sessões.
– Líderes perfeitos não são reais, e a demonstração de vulnerabilidade com o uso de storytelling na conexão com o funcionário é valorizada.
– Líderes impactam mais a saúde mental e o bem estar dos funcionários do que seus médicos ou terapeutas, de forma que promover um ambiente de trabalho onde as pessoas se sintam vistas, reconhecidas e conectadas ao propósito é essencial.
– Estamos imersos em um momento de avanço tecnológico impulsionado pela inteligência artificial, biotecnologia e internet das coisas, moldando profundamente nossa forma de viver e trabalhar.
– A demanda por inteligência artificial é motivada principalmente pela busca por velocidade e escalabilidade. Há preocupações sobre a segurança dos modelos de IA e a privacidade dos dados, o que torna essencial a responsabilização e a regulação das empresas por trás de tais tecnologias.
– Amy Webb compartilhou o conceito de FUD (Fear, uncertainty and doubt), para se referir ao medo, a incerteza e a dúvida que estão presentes em nossas vidas devido às rápidas mudanças tecnológicas.
– Um grande receio, em um passado recente, era o quanto a inteligência artificial iria substituir a força de trabalho humana. O que está mais claro agora, é que a IA irá transformar a maneira como a muitas tarefas serão realizadas, e nosso desafio é utilizá-la para automatizar processos e liberar as pessoas para atividades mais significativas: as estratégicas e criativas.
– Trabalhar com flexibilidade agrega valor à experiência e a vida dos funcionários. O futuro do trabalho é sobre a escolha de onde trabalhar. Há estudos que sugerem, que momentos presenciais intencionais de team building, se bem estruturados, têm efeitos positivos nos times que duram cerca de 4 meses.
– Reuniões são para resolver problemas e pensar criticamente. Precisamos encontrar novas estratégias para compartilhamento de informações e alinhamentos, tornando o ambiente mais produtivo.
– A cultura organizacional desempenha um papel crucial no bem-estar e na produtividade dos funcionários. Se o ambiente de trabalho não permite que as pessoas sejam autênticas, elas terão menos conversas honestas e discussões menos produtivas.
– Ainda há desconexão entre discurso e prática sobre qualidade de vida nas empresas ao se recompensar pessoas que trabalham longas horas para atingir suas metas. Implementar práticas eficazes que promovam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional é uma prioridade estratégica.
– O desafio das organizações deveria ser fazer com que as pessoas sintam-se melhor dentro das empresas do que na sociedade em geral, com ambientes inclusivos.
– Apesar do reconhecimento da importância da diversidade, equidade e inclusão, há um movimento contra o tema no mercado, observado pelo desmonte das áreas em algumas empresas e/ou da redução de incentivos financeiros.
– A inteligência artificial pode ser uma ferramenta poderosa para identificar e mitigar preconceitos em processos de recrutamento e comunicação, mas é essencial que as organizações estejam comprometidas com a promoção de uma cultura inclusiva e equitativa.
O SXSW não apenas antecipa tendências e te faz experimentar um constante FOMO (Fear Of Missing Out) por todas as sessões que não conseguiu participar, mas te inspira e leva a reflexões profundas sobre o futuro do trabalho, liderança, cultura organizacional e sobre sua própria prática profissional.
*Formada em Psicologia pela UFF e com pós em Gestão Empresarial pela FGV, Mariana Mesquita atua há 15 anos criando estratégias e produtos para melhorar os resultados do negócio através do desempenho das pessoas.
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