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Por que a Natura&Co trocou o salário mínimo pelo “salário digno” para os colaboradores

Em 2024, gigante do setor de cosméticos afirmou ter alcançado “renda digna” para todos os colaboradores, uma métrica baseada nos custos para uma boa qualidade de vida; ação faz parte de uma série de compromissos da companhia para uma agenda socioambiental positiva até o final desta década

Maria Clara Dias
20 de março de 2024
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A infinidade de fatores que influenciam a definição do salário de um colaborador é algo com o que o RH já está bem familiarizado. Do piso instituído por entidades de classe e a comparação constante com concorrentes do mercado ao desejo de profissionais por pacotes de remuneração que vão além da folha de pagamento, atender à complexidade de detalhes envolvendo a quantia recebida todo mês é um dos principais desafios das empresas. Na gigante brasileira de cosméticos Natura&Co, esse desafio chegou a um novo patamar: o salário agora também tem de seguir o propósito da sustentabilidade e igualdade social. 

Em 2020, a companhia lançou mão do Visão 2030, conjunto de medidas a serem adotadas até 2030, com o objetivo de tornar o grupo mais próximo do desenvolvimento sustentável. Uma dessas ações é o programa Renda Digna, que estabelece novas diretrizes na definição da remuneração de todos os colaboradores na América Latina. Na prática, a empresa resolveu abandonar as bases estabelecidas pelos governos locais (os chamados salários mínimos), e criar sua própria definição de “mínimo” a ser pago por uma jornada de trabalho. Por trás da definição da renda digna, estão uma série de parâmetros que incluem, entre outros fatores, o custo de vida por região e os valores necessários para se ter acesso à saúde, educação, transporte e saneamento básico.

O pagamento de renda digna é a porta de entrada para a garantia do bem-estar e esse programa é um dos pilares centrais da nossa estratégia de regeneração social.

Quem faz a afirmação acima é Gleycia Leite, diretora de compensação, organização e gestão da Natura. O propósito, segundo ela, é oferecer um salário compatível com as necessidades de cada funcionário, considerando estilo de vida, cargo e local de trabalho. É algo que vale para todos: das comunidades extrativistas responsáveis pelo plantio e colheita das matérias-primas utilizadas em perfumes e loções até a alta liderança. Além da renda digna, a estratégia de regeneração social da Natura também compreende a equidade de gênero e salarial — a companhia afirma ter acabado com as diferenças salariais entre homens e mulheres na América Latina.

Na entrevista a seguir, Gleycia explica a motivação da companhia em adotar novos indicadores para remuneração, além de detalhar o passo a passo do processo de implementação dos novos “salários dignos” para seus mais de 16 mil colaboradores na região. A executiva também aborda os desafios de estabelecer a nova política salarial em diferentes regiões e culturas e como tudo isso traduz as ambições da Natura&Co de se tornar uma empresa-modelo quando o assunto é ESG. “Temos a visão holística de que a renda digna não deriva de um olhar de competitividade salarial, mas na crença de que todos os indivíduos têm o direito à uma vida próspera, pertencente e com propósito”, diz ela.

De onde surgiu a iniciativa para implementar o salário digno e como funcionou o processo de estruturação dessa meta internamente?

Em 2020, nos comprometemos com a Visão 2030, também conhecida como “Compromisso com a Vida”. Dentro desse prazo de 10 anos, o plano traz uma série de compromissos e ações para abordar algumas das questões mais urgentes do mundo: enfrentar a crise climática e proteger a Amazônia, garantir igualdade e inclusão, e mudar nossos negócios para circularidade e regeneração.

Para cada uma dessas questões, a Natura traçou metas e, a partir desse desdobramento foi definida especificamente a meta de garantir salário digno para todos os colaboradores. Vale ressaltar que, a métrica de Renda Digna também é umas das principais metodologias utilizadas no IP&L, uma ferramenta lançada em 2022 que monetiza o impacto do negócio no capital humano, social e ambiental. A partir da meta, criamos uma metodologia tendo como base os dados da organização global Wage Indicator Foundation, que pesquisa e coleta informações sobre a renda digna em mais de 140 países. Este cálculo é adaptado por país e região já que o custo de vida varia por localidade.

A empresa teve algum benchmark, nacional ou internacional, em relação ao salário digno? Há outras grandes empresas adotando essa medida e que serviram de inspiração?

No Brasil são poucas as iniciativas que consideram o padrão de dignidade para criar faixas salariais. A Natura &Co, no entanto, está uns passos à frente nesse quesito, pois integramos o Movimento Salário Digno do Pacto Global da ONU Brasil. A iniciativa é baseada em quatro pilares estratégicos: engajar a alta liderança; oferecer a construção de capacidades, por meio de lives, workshops, treinamentos e conteúdos sobre o tema; engajar os stakeholders e o monitorar e compartilhar as nossas boas práticas.

A Natura tem sido um exemplo de como companhias podem estender ações de gestão de pessoas para além do RH, tornando isso uma política permanente ligada aos direitos humanos. Na sua opinião, como a questão salarial pode ir além do dia a dia operacional do RH, assumindo essa agenda propositiva?

Vivemos em um cenário marcado pelo distanciamento sistemático entre o homem e a natureza, e por um crescente desequilíbrio social. Isso tudo manifesta significativas desigualdades no acesso a direitos fundamentais. Sendo assim, surge a necessidade de uma agenda de impacto mais transformacional por parte dos negócios, uma agenda baseada na regeneração. Aqui está o ponto de ir além do operacional do RH.

O programa de renda digna é um dos pilares centrais da nossa estratégia de regeneração social. Para nós, a regeneração social é um processo de renovação positiva da sociedade através da transformação dos valores, do propósito das instituições e das interações sociais de maneira que cada indivíduo tenha a possibilidade de suprir seu próprio bem-estar, e contribuir para o bem-estar daqueles ao seu redor. O pagamento de renda digna é a porta de entrada para a garantia do “Bem Estar Bem”. Além da renda digna, a estratégia de regeneração social ainda conta com os pilares de educação, saúde e bem-estar, cidadania e diversidade. 

A premissa do salário digno é a de considerar o mínimo necessário para se viver com qualidade em diferentes regiões. Muita gente olha para o cálculo feito pelo Dieese, no chamado “salário mínimo necessário” – que, em janeiro de 2024, seria de R$ 6,7 mil. É esse o cálculo feito pela Natura&Co? Se não, como é feito esse cálculo na prática e o que está incluído nesta conta?

A Natura&Co adotou a referência de salário digno fornecida pela Wage Indicator Foundation, baseada no custo de vida em diferentes regiões do Brasil e América Hispânica. A renda digna é calculada considerando todas as necessidades essenciais, indo além do salário-mínimo governamental. Ela é calculada com base em uma pesquisa de custo de vida local e o que é necessário para um nível de vida decente, em um determinado lugar e em jornadas normais de trabalho. Isso inclui a possibilidade de acesso à alimentação, água, habitação, educação, saúde, transporte, vestuário e outras necessidades essenciais, além de provisão para situações inesperadas.

Certamente, fazer esse cálculo (que considera a realidade de diferentes regiões) é algo que demanda muito esforço, principalmente em um país extenso como o Brasil. Além da questão territorial, que outros desafios a Natura&Co tem encarado no processo de implementação do salário digno?

A meta de salário digno abrange toda a nossa operação na América Latina. Logo, nosso desafio foi o de olhar a granularidade do custo de vida em todos os países em que atuamos. No caso do Brasil, por exemplo, esse esforço é muito maior pois cada região tem suas peculiaridades e isso precisa ser considerado. 

Mas além da questão territorial, destacamos a periodicidade que coletamos essa informação. Em um país como a Argentina, por exemplo, com a alta pressão inflacionária, não podemos olhar para essas informações uma vez por ano e achar que está tudo bem. É preciso uma análise contínua e trimestral. Fomos, então, buscar dados baseados em pesquisas de custos de vida que tivessem essa granularidade e periodicidade que nos permitisse avaliar o que seria o salário digno para além daquele mínimo governamental, que geralmente é adotado como referência.

A partir do momento em que declaramos esse nosso compromisso, é importante assegurar sua gestão, já que ele é aplicado no dia a dia da nossa operação. Então, da mesma forma que acompanhamos receita, venda e outros ativos da empresa, é relevante ter um instrumento que me permita monitorar e tomar decisões sobre o estabelecimento desse salário digno.

A Natura anunciou em 2020 a meta de ter 100% da força de trabalho recebendo a renda digna como parte da sua agenda 2030, e atingiu essa meta já em 2023. Quais foram as principais lições que a empresa tem aprendido até aqui, nesses últimos três anos?

Ao longo dos últimos três anos, tivemos aprendizados importantes enquanto trabalhávamos para alcançar essa meta. A importância de ter um compromisso claro e alinhado com a Visão 2030 foi fundamental para impulsionar ações concretas em direção aos objetivos estabelecidos. Já na fase em que desenvolvemos a metodologia com base nos dados da Wage Indicator Foundation, aprendemos a reconhecer e nos adaptar às diferentes realidades locais em que a empresa opera. Isso foi essencial para garantir que as políticas e práticas de remuneração fossem justas e adequadas em todas as regiões.

Com isso, fomos capazes desenvolver métricas robustas que tivessem granularidade suficiente para respeitar essas diferenças e ter coerência. Uma das metodologias utilizadas foi a Integrated Profit & Loss Accounting (IP&L ou Contabilidade Integrada de Lucros e Perdas), lançada em 2022 e que consegue mensurar e monetizar o impacto dos negócios nos capitais humano, social e ambiental.

Adotar uma renda digna pode ser o pontapé para que uma companhia esteja alinhada a alguns compromissos sociais e a outras diretrizes ESG. Ao mesmo tempo, muitas não conseguiram encontrar essa “liga” entre o que é de responsabilidade de uma área e o que fica a cargo do RH. Que lições a Natura&Co pode dar em relação à intersecção dessas duas áreas e à convivência harmônica entre elas?

De fato, adotar uma renda digna é mais do que uma simples prática de remuneração.É um compromisso com os valores fundamentais de dignidade humana e equidade, além de ser um passo significativo em direção à incorporação de diretrizes ESG. Acreditamos que as empresas devem assumir uma responsabilidade muito clara na defesa e promoção dos direitos humanos e isso deve acontecer de forma transversal dentro da companhia. O pagamento de renda digna é um pilar central na manutenção desses direitos. Ela é importante não só como meio de subsistência digna, ou seja, de garantia que as pessoas tenham acesso a itens básicos como alimentação, moradia, transporte e lazer, mas como gerador de impacto nas gerações futuras e na própria economia da sociedade.

Como o salário digno está inserido nessas iniciativas em prol do fim da desigualdade salarial na Natura?

O salário digno está intrinsecamente ligado às nossas iniciativas para acabar com a desigualdade salarial. É um componente essencial para o cumprimento das metas no segundo pilar da nossa Visão 2030, “Defender os direitos humanos e sermos mais humanos”, aplicando essa premissa em todas as nossas operações. O nosso compromisso com a dignidade humana busca eliminar essas desigualdades, então o letramento das pessoas gera esse entendimento para sairmos das grandes bolhas sociais nas quais podemos estar inseridos. Temos a visão holística de que a renda digna não deriva de um olhar de competitividade salarial, mas na crença de que todos os indivíduos têm o direito à uma vida próspera, pertencente e com propósito. Acreditamos que através de programas e posicionamentos como esse, somos capazes de reduzir as desigualdades e combater as injustiças.

Temos visto uma tendência crescente de colaboradores valorizando tópicos que vão muito além da questão salarial como o “pacote mínimo” em relação à qualidade de vida no trabalho. O pacote de benefícios, a rotina flexível, a rede de apoio oferecida pela empresa… tudo agora faz parte desse conjunto de critérios para atração e retenção de talentos. Como o salário digno se encaixa nessa realidade? Além do compromisso social por parte da Natura, também é um esforço por reter talentos?

Além de ser uma questão de justiça social, o salário digno reflete o compromisso da empresa com o bem-estar e a valorização dos colaboradores. Evidentemente que, em um mercado de trabalho competitivo, oferecer uma remuneração justa e equitativa torna a empresa mais atrativa para talentos qualificados, contribuindo para a construção de equipes engajadas e comprometidas. Colaboradores que se sentem valorizados e justamente remunerados têm maior probabilidade de permanecer na empresa a longo prazo, reduzindo a rotatividade e promovendo a estabilidade organizacional. Dessa forma, o salário digno não só fortalece o compromisso social de Natura&Co, mas também é um investimento estratégico no crescimento e sucesso sustentável da empresa.

Quais você acredita serem os maiores desafios futuros e também os próximos passos da empresa nessa jornada da remuneração digna?

Para nós, garantir renda digna e equidade salarial é uma jornada contínua. Os próximos passos de Natura&Co na jornada da remuneração digna incluem manter a equidade em todas as regiões, atualizar continuamente os critérios de cálculo, avaliar o impacto além dos aspectos econômicos, incluir novos públicos e buscar constantemente por inovação e melhorias. Estas ações são fundamentais para garantir o compromisso da empresa com o bem-estar e a dignidade não apenas de seus colaboradores, mas também das consultoras e das comunidades com as quais ela se relaciona. 

Nesse sentido, buscamos fortalecer o desenvolvimento econômico de nossa rede, focando em seus públicos prioritários. Na Visão 2030, ressaltamos nossa meta de aumentar em 10% o Índice de Desenvolvimento Humano das Consultoras e avanços sociais nas comunidades agroextrativistas, por exemplo. O objetivo é gerar impacto mensurável em renda digna, refletindo em saúde, educação e cidadania, ancorado na equidade de gênero e racial.

Que dicas você daria a outras companhias que também estão pensando em outros caminhos para compensação e remuneração de seus funcionários, também seguindo esse viés de impacto econômico e social?

Com base em toda nossa jornada, acredito ser essencial estabelecer uma visão clara alinhada aos valores da empresa. Em seguida, adaptar-se às diferentes realidades locais e desenvolver métricas eficazes para avaliar o impacto das práticas de remuneração. Essas métricas devem abranger não apenas aspectos econômicos, mas também questões sociais e de bem-estar dos colaboradores.

Por fim, o engajamento em iniciativas sérias sobre o tema pode ser um bom começo para aquelas empresas que estejam pensando em caminhos para propiciar uma remuneração digna a seus colaboradores. O Movimento Salário Digno, por exemplo, tem a credibilidade do Pacto Global e pode oferecer as ferramentas e capacidades necessárias para as companhias atinjam suas metas, além de um ecossistema mais completo e potente para questões relacionadas ao tema e os especialistas e empresas mais influentes no tema para apoiá-las nesta jornada.

Jornalista de negócios, empreendedorismo e tecnologia. Passou por publicações como Exame, Época Negócios e Autoesporte, além de colaborar com reportagens especiais para a Gazeta do Povo. É vencedora do Prêmio de Destaque em Franchising na categoria Jornalismo de Revista pela ABF em 2022.

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