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Propósito de vida: como equilibrá-lo com o trabalho

Autora de livro sobre o tema, Carol Shinoda discute sobre o que exatamente é propósito de vida e por que ele está influenciando o mercado de trabalho

Luiza Terpins
23 de junho de 2022
Propósito de vida: como equilibrá-lo com o trabalho
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Desde abril de 2021, o mercado de trabalho está sendo abalado por uma onda de pedidos de demissão em massa. A peculiaridade desses pedidos é que boa parte dos profissionais não está fazendo necessariamente uma troca de empresa…mas uma troca de mentalidade. A Grande Renúncia, como foi nomeado, é um movimento voluntário provocado pela pandemia, que despertou diversas reflexões sobre trabalho e propósito de vida. Mas a questão que fica é: o que exatamente é um propósito de vida?

Para ajudar a mergulhar de cabeça no assunto e entender essa tendência mundial, conversamos com Carol Shinoda, doutora pela FEA/USP com tese sobre o Desenvolvimento do Propósito de Vida e autora do livro Propósito de vida: um guia prático para desenvolver o seu (ed. Benvirá). 

Como você definiria o que é propósito de vida?

No meu livro, eu uso a seguinte definição: “Propósito de vida é a intenção de colocar as suas capacidades a serviço de algo significativo para você e com impacto além de si por meio dos projetos de vida”.

Explicando: a intenção remete a uma dimensão futura, é como se fosse aquele pote de ouro no final do arco-íris, que conforme a gente corre atrás se movimenta. É algo que talvez nunca seja alcançado. Já o projeto é algo que tem começo e fim e, nesse sentido, você pode fazer vários projetos alinhados a um propósito. 

Por exemplo: se eu falo que meu propósito é ajudar outras pessoas a encontrarem o seu propósito de vida, esta entrevista seria um projeto – ela tem um fim. Ao mesmo tempo, ela está alinhada ao meu propósito, pois estou passando meu conhecimento adiante, e, uma vez que a gente termine a conversa, seguirei sendo guiada pelo desejo de ajudar os outros nessa busca. 

Aqui vale deixar claro outra questão que eu menciono que é o impacto além de nós. Existe hoje uma perspectiva muito individualista, só se fala em meu propósito, isso é um mito. Mas para que você está fazendo isso? Para quem? Essa dimensão além de si é muito abordada academicamente e entende-se que para algo se caracterizar como um propósito ele deve ter o objetivo de fazer algo para ajudar outras pessoas ou causas.

Propósito de vida é a intenção de colocar as suas capacidades a serviço de algo significativo para você e com impacto além de si por meio dos projetos de vida

Você comentou que a ideia de propósito como uma busca individual é um mito. Quais os mitos sobre propósitos?

São seis os principais mitos:

– Propósito é para os iluminados: é aquela ideia de que ter um propósito é somente para pessoas muito especiais, como uma Madre Teresa ou um Buda, por exemplo. Ela é usada muitas vezes como uma desculpa para não olhar de forma mais aprofundada para as nossas vidas, tornando mais fácil se conformar e fugir da busca do propósito.

– Propósito tem que ser algo grandioso: é o mito de que é preciso ter um propósito muito grande, por exemplo, revolucionar a educação no Brasil ou no mundo. Na verdade, não há tamanho para o propósito, há o que faz sentido para você, de preferência, o que esteja no seu alcance. A partir do momento que você tem uma intenção além de si (ajudar amigos, família, sua comunidade), isso já pode ser chamado de propósito.

– Propósito é único para toda vida: há a ideia que só se pode ter um propósito até a morte. Isso é um mito e pode atrelar a ideia de propósito a uma verdadeira prisão. É natural revermos nossos propósitos ao longo da vida – passamos por muitas mudanças e com elas também mudamos nosso olhar e prioridades.

– Propósito é um sucesso individual: como mencionei, uma ideia equivocada é a de que objetivos individuais, como alcançar um cargo ou trabalhar em um lugar específico, são propósitos. Ter um propósito de vida é algo que está relacionado a alcançar um maior bem-estar e está comprovado que ajudar os outros resulta em sentimentos mais positivos. Um exemplo é uma pesquisa, aprofundada em seu livro Luxury Fever, que foi liderada pelo especialista Robert Frank, que revelou que a felicidade de comprar um presente para outra pessoa é mais duradoura do que comprar algo para si mesmo.

– Propósito é a solução para todos os problemas: há uma impressão de que quem tem propósito é feliz todos os dias e sempre tem certeza do que faz. Não é bem assim, é normal ter falta de ânimo ou ter dúvidas sobre o seu percurso. Afinal, é normal mudar de propósito ao longo da vida.

– Propósito é um luxo: por fim, como eu já comentei, o movimento de largar um emprego para buscar o seu propósito pode não ser para todos, mas isso não significa que ter um propósito é um luxo. Já está comprovado que há pessoas que têm que lutar todos os dias para se sustentar, muitas vezes realizando trabalhos que não estão diretamente alinhados ao seu propósito, mas que mesmo assim têm muita clareza do porquê levantam da cama todo dia. Ao mesmo tempo, há quem tenha muito dinheiro que não possui essa clareza.

Hoje em dia há um movimento de alinhar trabalho a propósito. O que mudou? Por que isso é tão importante hoje?

Isso é muito relativo. Esse movimento da Grande Renúncia, que começou nos EUA, não é para todo mundo, pois para se dar o luxo de largar um emprego é preciso ter como manter suas necessidades básicas. No entanto, uma vez que a pessoa tem como se sustentar, outras necessidades passaram a ser sentidas e o que ajudou muito foi a pandemia.

Enquanto a pandemia teve um reflexo muito negativo na piora da saúde mental, ela também deu espaço para parar e pensar no que estamos fazendo. Afinal, quando estamos em uma crise é um momento em que nos questionamos de que não abrimos mão. Além disso, na pandemia também vimos os índices de solidariedade aumentarem e percebemos o impacto que temos no mundo.

Como o propósito está atrelado ao trabalho?

O trabalho faz parte da vida e é um enorme potencial para exercer o propósito. Se o propósito é a intenção de colocar as nossas capacidades a serviço dos outros, trabalho é o espaço que temos para servir. A questão é que nem sempre o que eu sou bom ou faço bem gera sustentabilidade financeira. É por isso que é importante encontrar o equilíbrio de não ferir seu propósito e conseguir se sustentar financeiramente.

Também é possível ressignificar o nosso trabalho. Dentro dele, a gente tem um espaço rico de autodesenvolvimento, onde podemos encontrar sentido e alinhamento com o nosso propósito. Uma forma de fazer isso é perguntar: para que eu estou fazendo isso? Ao questionarmos, geramos consciência e a possibilidade de realizar escolhas melhores, como propor projetos que unam trabalho e propósito. Por exemplo: propor parcerias de ONGs para a sua empresa, se voluntariar para realizar treinamentos para equipe e compartilhar seus aprendizados, entre outros.

Aqui, no entanto, vale a atenção para entender os limites da ressignificação, caso contrário você pode criar um mundo imaginário.

Como ajudar outras pessoas a acharem seu propósito de vida e alinharem ele com o seu trabalho? Como profissionais de RH podem realizar esse trabalho?

Para o profissional de RH ser capaz de ajudar outras pessoas, ele precisa antes refletir sobre si mesmo, ou seja, é preciso coragem de realizar a busca pelo seu próprio propósito de vida. Feito isso, ele conseguirá ter ferramentas melhores para ajudar os outros.

No próximo passo, de alinhar propósito com trabalho, é necessário atuar em um processo de conscientização, a começar por  entender qual é o propósito da empresa. Para isso, é preciso provocar essa reflexão e alinhamento em quem ocupa as posições de alta gestão, pois é muito comum que cada um tenha o seu ponto de vista sobre o assunto.

Com isso definido, é importante criar um ambiente que forneça uma boa segurança psicológica que permita que os profissionais compartilhem suas ambições e propósitos. Uma forma de fazer isso é promover reuniões de check-in, nas quais todos contem sobre suas vidas pessoais e sintam-se confortáveis para mostrar as suas vulnerabilidades, assim como incentivar compartilhar histórias de vida, o que permite gerar empatia entre os profissionais e também encontrar possíveis pontas de contato entre propósito de vida e da empresa.

Luiza Terpins é Editora de Cajuína e Líder de Conteúdo e Comunicação da Caju.