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Por que estão falando tanto de… quit-tok

Por que estão falando tanto de… quit-tok

Muito distante do quiet quitting, a prática de publicar vídeos que mostram a própria demissão nas redes sociais ganhou popularidade entre a fatia mais jovem da atual força de trabalho. O quit-tok, trend que já soma muitos adeptos no TikTok, mostra como estamos diante de um novo perfil profissional – e um novo desafio para o RH.

“Se a sociedade não dialoga sobre HIV e AIDS, que dirá as organizações?”, diz Fernando Koja, do Grupo SBF

Formado em Engenharia de Biossistemas, gerente de desenvolvimento organizacional da varejista traçou carreira no RH ao mesmo tempo em que se aceitou gay e descobriu ter o vírus do HIV; para executivo, empresas podem aprender a ressignificar narrativas de transformação com debate.

Bruno Capelas
5 de março de 2024
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Durante muito tempo, separar vida pessoal e profissional era a norma. Hoje, profissionais e organizações estão aprendendo a derrubar essa barreira – e, mais do que isso, utilizar as potencialidades de cada lado para gerar impacto e resultados. Para Fernando Koja, gerente de desenvolvimento organizacional do Grupo SBF (varejista responsável por marcas como Centauro e Nike Store), essa é uma verdade todos os dias. 

Formado em Engenharia de Biossistemas pela USP, ele traçou, ao longo da última década, uma carreira na área de desenvolvimento organizacional, com passagens por empresas como a Raízen. Enquanto isso, viveu um processo de aceitação sexual como homem gay e descobriu-se portador do vírus HIV, duas experiências que lhe transformaram radicalmente. 

Mais do que isso, são vivências que lhe permitiram novos caminhos, pensando em um RH movido por palavras como amor, gentileza e carinho – algo que não veio sem medo, mas tem dado resultados. “Quando percebo que me permitem alçar voo numa posição de liderança, de média gestão, isso é um símbolo e uma chancela da qualidade desse trabalho”, diz o executivo, que acaba de assumir o posto de gerente de DHO e cultura no Grupo SBF. 

Quando me assumi gay, isso me deu uma coragem de lutar por mim mesmo e lutar pela sobrevivência. Eu sabia que, independentemente do que eu fosse fazer, na engenharia ou no RH, eu ia dar certo. 

Na entrevista a seguir, Fernando conta mais sobre a sua história, fala sobre como decidiu permanecer trabalhando no RH e revela seu estilo de liderança baseado no respeito e na inclusão. Ele também fala sobre o que as organizações podem aprender com o HIV, não só naturalizando o debate em torno do vírus, mas também utilizando-o como ponto de partida para novas narrativas. “Se eu consigo ressignificar um estigma, qual é o limite de transformação que a gente consegue estabelecer para organizações que enfrentam problemas complexos?”, questiona. 

Você se formou em Engenharia de Biossistemas pela USP. Como sua carreira se direcionou para o RH? 

Na faculdade, eu me identifiquei muito com a vivência estudantil, participando da empresa júnior e de várias iniciativas extracurriculares Ao me formar, porém, eu tinha pouca experiência profissional e achava que a engenharia abriria portas para mim, mas não exclusivamente. Na mesma época, comecei um processo de aceitação sexual, me descobrindo como um homem gay, o que fez uma boa virada na minha cabeça e como eu enxergava o mundo. Eu só queria contar para minha família quando tivesse um bom estágio ou emprego, caso desse algum BO e eu tivesse que me bancar.

Comecei a fazer vários processos seletivos e eu sempre escolhia a área de Engenharia. Nas primeiras entrevistas, o RH sempre me amava, mas o mesmo não acontecia nas entrevistas com os gestores. Uma delas me marcou muito: o gestor fez uma pergunta sobre qual seria o meu sonho nos próximos anos e eu respondi que eu já tinha realizado meu grande sonho, que era ser quem eu sou, e que eu queria contribuir com impacto a partir daquele lugar. Sei que era uma pergunta batida, mas achei que não fazia sentido responder aquilo de uma forma que não fosse genuína. E ele me respondeu que, ao me ouvir, ele achava que meu lugar não era naquela empresa, mas para o terceiro setor.

Saí daquela entrevista muito incomodado, chateado, e voltei para casa reflexivo se deveria mesmo seguir o caminho da engenharia. Como o tempo estava passando, decidi que deveria abrir o leque – e acabei recebendo uma ligação de uma das empresas de recrutamento falando que havia uma vaga em desenvolvimento organizacional, no RH da Raízen. Eu não sabia nem o que era desenvolvimento organizacional, mas topei. Eu já estava numa vibe de experimentar tudo que surgia de oportunidade e acabei indo. 

E como foi essa entrevista? 

Antes da entrevista, me questionei muito se deveria ser mais conservador, e julguei que não era correto me esconder. Deu certo. Foi uma entrevista muito especial, com uma pessoa que eu admiro muito, a Juliana Latre, que foi minha primeira chefe. Nós falamos pouco de trabalho, mas falamos de vida, viagens, e ela se mostrou totalmente oposta àquele gestor, mesmo dentro de uma empresa com 40 mil pessoas no ramo do agronegócio. É engraçado: eu fui trabalhar com um negócio que conversava com a minha formação, mas de uma perspectiva que eu não tinha experimentado ainda. Eu sabia falar de etanol, mas aprendi do zero o serviço de RH – e a Juliana me ajudou muito, de corrigir meus emails até me fazer compreender os organismos corporativos. 

Você acredita que há alguma relação entre a sua aceitação sexual e a abertura para uma área que não fosse de Engenharia? 

Não sei se meu processo puxou a vontade de sair da Engenharia, mas me deu força. Foi um processo que me fez ganhar uma consciência sistêmica em relação a mim mesmo, me fez descobrir um vocabulário de mim mesmo. Ter frustrado as expectativas sociais me deu liberdade para sair de outras caixas. Se eu não tivesse me aceitado, dificilmente eu manteria essa coragem de chegar numa segunda entrevista e ser ainda mais autêntico.

Ter frustrado as expectativas sociais me deu liberdade para sair de outras caixas.

Não é uma relação de causa e efeito, mas uma coisa permite que a outra coisa aconteça. Eu tinha muito medo do risco de vida que eu sofreria em relação à sociedade quando me assumi gay, mas isso me deu uma coragem de lutar por mim mesmo e lutar pela sobrevivência. Eu sabia que, independentemente do que eu fosse fazer, na engenharia ou no RH, eu ia dar certo. 

A Raízen é uma empresa que tem muitos postos em Engenharia. Você chegou a ter uma ideia de voltar para “exercer a profissão”? 

Não. Eu tinha medo de que trabalhar fosse muito chato, mas acabei me encontrando pra caramba no RH, aprendendo bastante dentro das organizações. Quando comecei a ter respostas positivas da minha performance, senti que aquilo era o que queria fazer. Eu queria provocar impacto e o RH acabou sendo um caminho mais curto para fazer isso. E é engraçado, porque em feedbacks subsequentes, às vezes algum gestor desavisado falava que eu era diferente do ambiente e perguntava se tinha certeza do meu caminho, e eu dizia que sim. Recebi algumas provocações para voltar pra Engenharia, tinha gente que dizia que eu estava perdendo dinheiro ficando no RH, mas em vontade individual, isso nunca passou pela minha cabeça – até porque sempre defendi que as organizações também são responsáveis por influenciar comportamento e cultura na sociedade

Entre a Raízen e a sua chegada ao Grupo SBF, você teve um período distante do mercado, em que descobriu que convivia com o vírus do HIV. Como foi esse processo? 

Quando eu cheguei à Raízen, eu fiquei em desenvolvimento organizacional – e eu e minha coordenadora tínhamos de pensar soluções para 40 mil pessoas. Fui efetivado em talent acquisition e passei a me inserir em discussões da pauta de diversidade e inclusão, mesmo ainda sendo analista júnior. No entanto, era um momento em que a pauta de DEI ainda estava engatinhando na empresa. Coincidentemente, esse período casa com o meu diagnóstico de que vivo com o vírus HIV e percebi que a Raízen não ia ser um ambiente bacana para viver aquilo de uma maneira profunda. Fiz um combinado com o vírus dele ser gentil comigo, combinamos de ser uma dupla até o fim da minha vida.

Foi um período intenso de processar essa informação internamente e me reentender enquanto ser humano: revisei minha forma de vestir, minha orientação sexual, minha profissão, tudo o que eu queria fazer. Daí, eu entrei na TODXS, que é uma ONG de diversidade voltada para o recorte LGBT, e percebi que conseguia contribuir por uma ótica bastante inusitada dentro da minha interseccionalidade. Se a sociedade não dialoga sobre HIV e AIDS, que dirá as organizações? Acredito que o HIV pode gerar muito aprendizado para as organizações, falando sobre saúde, bem-estar e relações interpessoais. Trabalhei na TODXS enquanto fui morar em Caraíva, trocando trabalho por hospedagem por um ano. Voltei para São Paulo no final de 2019 quebrado, mas ir para Caraíva foi um reforço dos motivos que me fizeram ficar no planeta. Quando você ganha o diagnóstico de HIV, você ganha também um atestado de óbito, a morte se aproxima e dá essa sensação de limite de vida.

Quando estava pronto para voltar para o mercado, encontrei os processos seletivos congelados por conta da pandemia. Os únicos que permaneceram de pé eram os processos seletivos de trainee, que muitas empresas mantiveram por visão de marca empregadora. Decidi prestar , mesmo achando que não fosse passar. Fui para a final de três processos – e um deles foi o do Grupo SBF, no qual eu contei minha história e falando que o esporte sempre foi um lugar de muita exclusão para mim. Eu nem era escolhido para jogar, eu fazia amizade com as professoras de educação física para me liberarem. Mas eu queria fazer do esporte um lugar que não fosse exclusão, até porque minha vivência com esporte hoje é um sinal de saúde. Surpreendentemente, eu fui bem recebido, passei no processo e entrei em desenvolvimento organizacional para criar uma linguagem de desenvolvimento para as lideranças, até o momento em que assumi uma cadeira como coordenador.

Sempre tive uma visão de liderança por influência, influenciado por lideranças que me fizeram entender que time não é quem está embaixo, mas sim que time é todo mundo. Acho que foi minha virada de chave enquanto líder de RH. Em paralelo à SBF, eu comecei um projeto chamado Humana, uma consultoria de RH que me sofisticou minha percepção enquanto liderança, me fez ganhar consciência do meu nível de contribuição e impacto. 

Entre as duas experiências, o que mudou no Fernando e na forma do Fernando trabalhar? 

O Fernando da época da Raízen era tiro, porrada e bomba. Eu era beligerante e colérico nas minhas discussões. Hoje, compreendo meu poder de mudança de forma diferente. Minha permanência nos espaços corporativos, por si só, já gera uma movimentação do status quo, do racional mais conservador da área de RH. Entendi que a mudança nos extremos gera muito atrito, sofrimento e fricção, podendo comprometer o impacto final que eu quero causar. A magia acontece dentro da mudança nas relações, que não são fatores binários. Hoje, busco a mesma desconstrução, mas pelo caminho da gentileza, do carinho e do cuidado.

Eu desviei de tentar fazer grandes implosões organizacionais, porque nem sempre as grandes mudanças trazem o que a gente precisa.

Eu tento fazer uma reflexão mais profunda, para me conectar, entender o mindset da outra pessoa e, aos poucos, buscar essa mudança, me guiando por palavras pouco convencionais no RH, como afeto, amor, carinho e gentileza. É quase uma ginástica das relações. Isso parte de uma perspectiva individual minha, mas quando percebo que me permitem alçar voo numa posição de liderança, de média gestão, isso é um símbolo e uma chancela da qualidade desse trabalho. Antes, eu era muito mais crítico às estruturas verticalizadas das instituições, mas mesmo com as organizações sendo como são, é possível fazer um trabalho com sensibilidade, respeito e inclusão. Eu desviei de tentar fazer grandes implosões organizacionais, porque nem sempre as grandes mudanças trazem o que a gente precisa. 

Você comentou que as organizações não discutem o HIV, mas poderiam ter muito a ganhar com essa experiência. O que as empresas podem aprender com a experiência do HIV? 

A parte mais óbvia é a naturalização da pauta, desassociando a imagem do HIV da que existia nos anos 1980, com a capa da revista Veja com o Cazuza. Aquela narrativa não é a mesma de hoje. Mudamos em vocabulário e em narrativa. Mas além disso, tem um papel para as organizações que é o de aprendizado, que é mais interessante e mais profundo. Entendo as organizações como fractais, um conjunto de organismos muito parecidos – que são as pessoas. Se formos dividir a organização, temos vários conjuntos de pessoas, e aí consigo estabelecer um paralelo da minha vivência com o vírus. Se eu consigo ressignificar algo que é um estigma, um atestado de óbito que provoca alto nível de suicídio e mata muita gente sem acesso à saúde, e consigo transformar isso em gentileza, qual é o limite de transformação que a gente consegue estabelecer para organizações que enfrentam problemas complexos?

O vírus é um problema complexo para o indivíduo e para a sociedade, mas ele pode ser ressignificado – e se tornar uma nova narrativa. Não é só naturalizar o HIV na conversa do almoço, tirando a conotação de que uma pessoa com HIV é promíscua, suja ou que “vai dar trabalho com plano de saúde”. É um aprendizado profundo de construção de narrativa como veículo de transformação. 

Pra gente fechar o papo: você tem alguma indicação de livro ou filme para quem leu essa entrevista? 

Tem um livro que eu gosto muito, que fala sobre relações e sobre a arte do encontro. É o The Art of Gathering, da Priya Parker: um livro supergostoso de ler, não necessariamente corporativo, que fala da importância do encontro e de conexões profundas. Além disso, tem um documentário na Netflix que eu gosto muito, que chama Carta Para Além dos Muros – o nome é baseado num texto do Caio Fernando Abreu, escritor que viveu com HIV. O filme fala do processo de uma pessoa recebendo o diagnóstico do vírus, convivendo com ele, com uma série de personalidades de saúde, mídia, recontando a história do HIV sob uma ótica bastante gentil e acolhedora. 

Bruno Capelas é jornalista. Foi repórter e editor de tecnologia do Estadão e líder de comunicação da firma de venture capital Canary. Também escreveu o livro 'Raios e Trovões – A História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum'.