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Por que estão falando tanto sobre… a pressão para adoção de IA nas empresas

Novo estudo reforça o quanto a discussão atualmente não está mais em se as organizações devem utilizar a tecnologia, mas sim como a inovação deve ser usada no ambiente corporativo.

Bruno Capelas
5 de março de 2026
Capa do artigo Por que estão falando tanto sobre… a pressão para adoção de IA nas empresas
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O que você precisa saber

O fato de que a inteligência artificial está cada vez mais entrando no dia a dia das empresas não é novidade para ninguém. A forma como isso está acontecendo, porém, pode trazer consequências muito interessantes para as organizações – e um novo estudo lançado esta semana no Brasil dá conta do quanto a pressão para adoção da IA está reorganizando o cenário. 

Lançado nesta terça-feira, 03/03, pela newnew, a 3ª edição do Panorama de Sentimento das Lideranças ouviu mais de 300 executivos de médias e grandes empresas para entender como a IA está mudando emoções, decisões e prioridades estratégicas nas empresas brasileiras.

Segundo o estudo, 80% das empresas já adotaram IA, com a maioria das lideranças (59%) se dizendo otimista ou cautelosamente otimista. 

Ao mesmo tempo, só 11% afirmam que a implementação “deu super certo”. A maturidade média declarada é 6, em uma escala de 0 a 10.

Os ganhos existem: 51% relatam aumento de produtividade e eficiência operacional. Ao mesmo tempo, 41% apontam saúde mental como principal preocupação no contexto atual. Ansiedade, perda de senso crítico e sobrecarga aparecem como efeitos colaterais de uma adoção acelerada.

O dado mais estrutural está nos gargalos: 38% dos entraves estão ligados a pessoas, envolvendo questões como lacuna de habilidades, cultura e letramento em IA. Outros 32%, segundo os respondentes, dizem respeito à estratégia. Tecnologia e dados representam uma parcela menor do problema. E 53% das empresas ainda não têm governança estruturada para IA.

Não são preocupações inéditas: feita pela Cajuína em parceria com a Fundação Dom Cabral, uma pesquisa recente sobre o uso de IA no RH aponta questões parecidas. 

Publicado no Goles de Inspiração para o RH 2026, o levantamento mostra que 52,4% dos profissionais de RH já se sentem pressionados a trabalhar com IA, enquanto 68% das empresas utilizam ou testam a tecnologia. Ao mesmo tempo, 41,4% relatam desafios legais ou regulatórios e 55,3% demonstram preocupação com vieses algorítmicos. 

O dado reforça que a adoção avança, mas ainda convive com lacunas de preparo técnico e ético, ampliando a tensão entre expectativa de resultado e capacidade real de sustentação.

O que isso significa para o RH?

Se o gargalo não é tecnológico, ele passa a ser organizacional – e, portanto, humano.

O estudo reforça que a discussão deixou de ser “adotar ou não IA” e passou a ser “como sustentar o uso”. Isso envolve três frentes que recaem diretamente sobre RH e liderança:

  • Aprendizagem prática e contínua: a prática do upskilling precisa virar um sistema dentro do RH das empresas. Não basta ensinar a usar as ferramentas; é preciso desenvolver o pensamento crítico, a capacidade analítica e a clareza de decisão em torno da IA.
  • Saúde mental e cognitiva: a pressão não vem só da demanda por velocidade nas entregas, mas da expectativa de que a IA resolva tudo a partir de agora. Sem direcionamento claro, a sobrecarga aumenta – e a responsabilidade difusa desgasta tanto líderes quanto suas equipes.
  • Governança e clareza estratégica: com mais da metade das empresas sem diretrizes estruturadas, o RH tende a precisar assumir papel de articulador entre cultura, política de uso e desenvolvimento de competências.

O Panorama de Sentimento das Lideranças, assim como o Goles de inspiração para o RH, sugere que a próxima etapa da transformação não será sobre novas ferramentas, mas sobre organização do trabalho. E isso desloca a conversa da TI para a liderança – e, inevitavelmente, para a agenda de pessoas.

Bruno Capelas é jornalista. Foi repórter e editor de tecnologia do Estadão e líder de comunicação da firma de venture capital Canary. Também escreveu o livro 'Raios e Trovões – A História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum'.