Busque por temas

Em alta

Como a Cargill mobiliza 1,7 mil colaboradores no programa de voluntariado

Presente em 94 cidades brasileiras, iniciativa está ligada à alimentação, eixo de negócios da companhia; colaboradores passam por treinamento e têm carga horária específica para as ações voluntárias

Vanessa Fajardo
5 de fevereiro de 2026
Leia emminutos
Voltar ao topo

Diretora de Responsabilidade Corporativa da Cargill na América Latina, Flavia Tayama cresceu em uma família onde a cultura da doação fazia parte da rotina. Ainda criança, ajudava o pai e o irmão a embalar e realizar a entrega de materiais escolares arrecadados entre amigos, destinados a comunidades em situação de vulnerabilidade. “Desde pequena, desenvolvi essa capacidade de olhar para o outro, mesmo quando a realidade não é fácil. Isso foi sendo despertado em mim”, conta.

Não por acaso, Flavia se tornou uma entusiasta do voluntariado. Para ela, a experiência transforma quem participa. “Saímos de uma ação voluntária diferentes do que entramos. Aprendemos muito com o processo e com as pessoas que são beneficiadas. É muito gratificante”, afirma. 

Na Cargill, multinacional do setor de alimentos, ingredientes, agricultura e produtos industriais, a diretora é responsável pelo programa Nutrindo o Presente, Alimentando o Futuro, gerido pela Fundação Cargill. Com quase três décadas de atuação, a iniciativa está diretamente conectada ao propósito da companhia de promover a segurança alimentar, com atenção especial ao combate ao desperdício e à fome.

Em 2025, o programa mobilizou 1,7 mil funcionários voluntários em 94 cidades brasileiras, beneficiando diretamente mais de 49 mil pessoas. Na entrevista à Cajuína, Flavia fala não apenas sobre os ganhos individuais proporcionados pelo voluntariado, mas também sobre o impacto positivo para a corporação, que conta com cerca de 16 mil funcionários no país. Confira, a seguir, os principais trechos da conversa: 

Como o programa de voluntariado corporativo da Cargill está estruturado?

É um programa bastante maduro, conceituado e renomado, que existe há 28 anos. Incentivamos que cada um seja voluntário da sua causa. Mas para quem quiser ser voluntário da causa da Fundação Cargill, que é a alimentação, temos alguns incentivos. Oferecemos um curso preparatório de três módulos, que pode ser feito online. Disponibilizamos um orçamento para cada um dos comitês de voluntariado, são R$ 150 mil por projeto, e uma média de 15 a 20 projetos apoiados por ano. Hoje, temos 101 comitês no Brasil, que podem investir nesses projetos nos mais diversos territórios.

Temos uma política que libera cada colaborador por quatro horas ao mês para poder fazer trabalho voluntário nas causas da fundação. Hoje, somos 1.741 voluntários ativos, engajados nos sistemas socioambientais. No último ano, os voluntários investiram cerca de 10,3 mil horas no voluntariado. É um número bastante importante. Se compararmos os anos de 2024 com 2025, tivemos um aumento de quase 25% do número de horas investidas em programa de voluntariado.

Como funcionam esses comitês?

Os comitês são formados por grupos de pessoas que possuem um coordenador, que lidera as ações de voluntariado naquele território.  Esse coordenador é responsável pela construção de orçamento, pelo mapeamento de demandas locais e pela identificação de oportunidades de parcerias em algumas organizações sociais, para que possamos ter esse planejamento por município. Entre os eixos de atuação, temos sistemas alimentares, diálogo comunitário, agricultura familiar, além do voluntariado baseado em habilidades, e o aliado à diversidade e inclusão. 

A fundação abre anualmente duas chamadas públicas para investir em projetos sociais e ambientais. O nosso voluntário nos ajuda a visitar e conhecer os projetos aprovados. Às vezes, por exemplo, precisamos de alguém da área jurídica. Usamos um conceito para o voluntariado que consiste em três Ts: tempo, trabalho e talento. A ideia é entender como esse colaborador pode combinar essas habilidades, o tempo e a disposição de participar de um programa de voluntariado dentro das demandas que existem.

Um diferencial é que conseguimos trazer o corporativo para o voluntariado, mensurando os resultados.

Pode me dar exemplos das iniciativas que já realizaram?

No mês de dezembro [de 2025], estivemos em Mairinque [no interior de São Paulo], onde nós temos uma grande operação. Lá, lançamos um programa para reduzir o desperdício de alimentação e a fome. Como há uma correlação direta entre os dois temas, conectamos organizações que querem doar alimentos com quem tem fome. 

Fomos lá separar os alimentos que um supermercado parceiro estava entregando, montamos as cestas, contabilizamos e fizemos a entrega para as famílias, que são previamente cadastradas e cuja evolução acompanhamos ao longo do ano. 

Um diferencial é que conseguimos trazer o corporativo para o voluntariado, mensurando os resultados. É preciso avaliar o impacto. Que família é essa que estamos atendendo? Como podemos pensar junto com outras organizações locais em ações complementares para que elas possam acessar comida independente da nossa iniciativa? É preciso pensar nesses processos de monitoramento, justamente para me ajudar na defesa de orçamento que proporcionam cada vez mais ações de voluntariado.

Quais você acredita que são os principais benefícios do programa para toda rede envolvida?

O voluntariado traz benefícios não só para a fundação, para a Cargill, mas também para o colaborador. Trabalho em equipe, colaboração, comunicação com diversos públicos, empatia, paixão são apenas alguns dos aspectos desenvolvidos, mas também vemos uma série de outros benefícios pessoais e profissionais. Temos ainda muitos colaboradores que são voluntários e que vivem nas comunidades atendidas. Isso gera um senso de pertencimento a uma empresa que investe nas comunidades, que olha para elas com bastante cuidado.

Além disso, com o programa, desenvolvemos a liderança em um contexto bastante diferente. São comunidades com pessoas que têm backgrounds diferentes, que estão em posições diferentes da sua. Isso desenvolve a consciência social, uma visão sistêmica para o problema social. 

Muitos brasileiros e brasileiras olham o problema social como um ponto isolado. Às vezes, há uma pessoa passando fome na rua que também não é vista. Há um muro de invisibilidade natural ali. A ação voluntária quebra esse muro, mostrando que sim, existe uma pessoa ali. E mais: mostra que aquela pessoa está naquela situação por uma questão sistêmica, porque não tem trabalho, casa, educação, por uma série de questões. É algo que está longe de ser pontual, por isso precisamos de uma ação coletiva para poder contribuir com essa transformação social. Esse olhar de compaixão e de empatia é desenvolvido de forma bastante clara com as ações de voluntariado.

O desafio não é aumentar o número de pessoas voluntárias, mas sim o tempo de engajamento dessas pessoas. 

Todo colaborador, de qualquer setor ou formação, é encorajado a participar do programa?

Hoje quase 10% dos nossos colaboradores participam, mas brinco que ser voluntário é voluntário. Ou seja: as pessoas precisam ter essa vontade. Tivemos um aumento de 25% do número de horas investidas no último ano. Um grande desafio é como manter e reter essas pessoas voluntárias ao longo do ano. Assim como todas as empresas, temos uma rotina bastante corrida. O desafio não é aumentar o número de pessoas voluntárias, mas sim o tempo de engajamento dessas pessoas. 

Todos os perfis são aceitos, temos trabalho para todo mundo. Basta querer, ter vontade de compartilhar seu tempo, seu trabalho e seu talento com outra pessoa em causas sociais. Ao mesmo tempo, há uma responsabilidade. É preciso pensar se você, de fato, terá tempo para dispor, porque a organização estará esperando.

Para finalizar, teria alguma dica para deixar aos nossos leitores?

Se eu puder dar uma dica, que sempre falo quando faço apresentações, é para que cada um seja voluntário. É bom ao menos fazer um teste, porque saímos de uma ação voluntária diferentes do que entramos. Aprendemos muito com o processo, aprendemos mais com quem está sendo beneficiado do que às vezes conseguimos transferir conhecimento. É muito gratificante e vale muito a pena.

Vanessa Fajardo é jornalista, com passagens pelas redações do portal G1 e Agora SP. Também faz contribuições para veículos como Estadão, BBC Brasil, UOL e Porvir.