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Google investe bilhões em arquitetura e urbanismo de suas sedes

Quando a arquitetura deixa de ser só cenário e passa a impactar produtividade, saúde e bem-estar dos colaboradores, também vira assunto para o RH

Raul Juste Lores
28 de agosto de 2025
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A arquitetura da sede de uma empresa tem que ir muito além de pufe colorido, uma sala de jogos e frases motivacionais nas paredes. Com inteligência e investimentos até modestos, a empresa pode até melhorar o urbanismo da rua, do quarteirão e do bairro onde fica. 

O Google é considerado o pai dos escritórios lúdicos. Ter sinuca no trabalho, um monte de quitutes (de graça, claro), pufes coloridos. A decoração do escritório de São Paulo inclui diversas referências a cartões postais da cidade. Nos últimos vinte anos, não são poucas organizações querendo ter cara de Google.

Mas o gigante das pesquisas online foi muito além disso, faz tempo. Para a marca e para a produtividade, saúde e ânimo das equipes, o prédio conta muito. Um exemplo é a nova sede da empresa em Londres, que deve ser inaugurada neste semestre. É uma espécie de arranha-céu horizontal. Em vez de uma torre altíssima, um edifício deitado e escalonado — o ponto mais alto chega a só onze andares, com diversos terraços e contato visual com a rua. A cobertura é um jardim descoberto, também escalonado, com 300 metros de extensão. Parece um morro!

Nem é espelhado. O vidro, de alta qualidade e bem transparente, permite que se veja o movimento interno, e vice-versa. Na fachada, colunas verticais, parecidas aos populares brises do modernismo brasileiro, vão sombrear o prédio. Mais importante: fica bem em cima da estação de metrôs e trens King’s Cross. A mobilidade ainda é escassa em muita empresa brasileira grande, onde até para tomar café ou almoçar, o pobre colaborador precisa ficar esperando uma van.

Ao redor da sede, pracinhas híbridas onde não só os fumantes terão direito de descomprimir um pouco, mas as equipes de diferentes áreas poderão também se conhecer e interagir. Talvez até criando novos produtos e ideias de forma espontânea — deve ser a aposta do Google. A sede, estimada em 1,5 bilhão de dólares, vai abrigar os 7 mil Googlers em Londres. É a primeira sede própria fora dos Estados Unidos.

Um dos escritórios de arquitetura mais badalados do mundo, o dinamarquês BIG, é o responsável pela rara colina londrina. Pergunto a você, meu conterrâneo: quem é o arquiteto que projetou o prédio onde sua firma está? Se quase ninguém sabe, ou só se lembra do decorador, a arquitetura não foi levada em conta.

A relação do Google com o urbanismo não se resume ao Google Maps, se intensificou em Nova York. Como atrair e reter os melhores talentos de um mercado tão competitivo em uma sede distante, isolada e suburbana? Em 2010, ainda na ressaca da grande crise bancária e hipotecaria nos EUA, a pioneira digital comprou por 2 bilhões de dólares um edificio art deco que pertencia à Capitania dos Portos de Nova York com 15 andares, ocupando um quarteirão inteiro, na vizinhança entre Meat Packing e o Chelsea. O parque suspenso High Line tinha sido inaugurado um ano antes e era um sucesso instantâneo. Imagina dar acesso fácil a 10 mil funcionários a um parque bacana, novidadeiro?

Não ficou por aí: quando o histórico e movimentadíssimo Chelsea Market começou a ser assediado por incorporadoras, que queriam demoli-lo e fazer condomínios de luxo ali, o Google avançou e comprou o mercadão adorado pelos Googlers, que almoçam, bebem e fazem compras ali. Ou seja, o Google virou um guardião da qualidade de vida no bairro, muito além das fronteiras do seu quartel-general. Se o bairro piora, ou vira um tédio, não são poucos que podem pensar duas vezes em aceitar a proposta para se mudar para um lugar mais quente. Pense nisso.

O Google gostou tanto dessa fase meio Jaime Lerner, meio Jane Jacobs, que se tornou desenvolvedor imobiliário em San José, a maior cidade do Vale do Silício, criando um complexo de 3,5 bilhões de dólares ao longo de uma estação de trem. Das praças ao mix de lojas, apartamentos, entretenimento, estão no masterplan da empresa. 

Fiz um vídeo recente no meu canal Sao Paulo nas Alturas, no YouTube, sobre outras sedes inventivas, da Amazon em Seattle ao Linkedin em Manhattan. Urbanismo também é assunto para o RH.

Raul Juste Lores é jornalista e escritor. É autor do livro “São Paulo nas Alturas”, colunista do UOL e criador do canal São Paulo nas Alturas, que já superou a marca de 20 milhões de visualizações no Youtube.