Formada em Direito, Nélia Lapa não teve no RH sua primeira experiência profissional. A atuação em serviços jurídicos, porém, lhe trouxe o reconhecimento da habilidade natural de capacitar pessoas. O gosto por lidar com o lado humano e a evolução de competências de gestão, assim, a fizeram abandonar a prática trabalhista e focar no desenvolvimento humano.
Há mais de duas décadas no RH, Nélia vê na evolução de cada indivíduo a sua vocação até hoje, ao ocupar o posto de vice-presidente sênior de Pessoas, Saúde & Segurança do Trabalho da Hydro. Líder no setor de alumínios, a multinacional norueguesa decidiu unir as três áreas sob o comando da executiva justamente pela compreensão de que o fator humano está indiscutivelmente embasado nesses três pilares. “O sucesso nos negócios só possui valor se a integridade física e emocional de cada trabalhador for plenamente preservada”, defende a executiva.
A posição também coloca Nélia à frente de uma operação global complexa que envolve riscos ocupacionais e adaptações culturais constantes. No Brasil, por exemplo, a Hydro concentra pouco mais de 7 mil dos mais de 30 mil colaboradores globais, sendo a maior parte deles alocada na Amazônia.
Em entrevista a Cajuína, ela destaca a singularidade de liderar pessoas em uma indústria pesada, além dos desafios da agenda da diversidade e adaptação cultural da Hydro no Brasil, tendo em vista a realidade do Norte do país e a filosofia nórdica de gestão de pessoas, baseada em princípios de igualdade, bem-estar e equidade.
Nélia, para começar, você tem uma longa trajetória no RH, tendo começado em funções relacionadas aos detalhes burocráticos e jurídicos da área, como compliance e folha de pagamento. Como você foi dos processos para a gestão estratégica de pessoas?
De fato, aproximadamente metade de minha carreira foi construída na esfera operacional e de conformidade. Contudo, mesmo quando estive à frente de serviços compartilhados, que chamamos de “shared services”, sempre atuei muito próxima a projetos estratégicos. Na Hydro, diferentemente de muitas organizações, esse escopo de serviços de RH é integral: vai da estratégia de atração e seleção, employer branding, até o desenvolvimento de pessoas. Assim que ingressei na companhia, assumi a responsabilidade por iniciativas estratégicas globais e minha posição ganhou envergadura. Por isso a mudança para estratégico se tornou algo tão natural. Vale dizer também que minha mudança para Oslo, na Noruega, onde está nossa sede, representou um marco importante, já que passei a liderar globalmente essa estrutura operacional, que reunia cerca de 90% dos profissionais de RH.
O universo jurídico e regulatório, por sua própria natureza, opera na lógica do veto e da restrição, sempre delimitando o que não é permitido. O que me atrai no RH é justamente o oposto: nossa missão é cuidar, viabilizar e transformar a vida das pessoas.
E o que a levou a abrir mão do direito e continuar no RH desde então?
Após me formar em Direito, dediquei alguns anos ao compliance, mas logo compreendi onde residia minha verdadeira paixão. O universo jurídico e regulatório, por sua própria natureza, opera na lógica do veto e da restrição, sempre delimitando o que não é permitido. O que me atrai no RH é justamente o oposto: nossa missão é cuidar, viabilizar e transformar a vida das pessoas. É sobre identificar talentos, plantar sementes de desenvolvimento, criar oportunidades e testemunhar a evolução profissional de cada um deles. A satisfação de gerar impacto positivo na vida e no desenvolvimento humano é o que me move.
Foi uma união de longa data entre o estudo formal, mentorias e, claro, a prática diária. Sempre tive o hábito da leitura de publicações especializadas, artigos de gestão e psicologia organizacional, numa tentativa legítima de ganhar conhecimento teórico de várias fontes. Também tive o privilégio de conviver com excelentes líderes e mentores ao longo da minha jornada. Além disso, entendo que o profissional de RH precisa dominar a linguagem e os fundamentos do negócio e, por isso, há mais de vinte anos concluí um MBA em Gestão Empresarial.
Não foi algo casual. Meus primeiros anos foram em empresas prestadoras de serviços terceirizados para grandes corporações, o que me garantiu contato direto com diretores e vice-presidentes de Recursos Humanos. Um dia, um desses executivos reconheceu meu trabalho e me convidou para participar do processo seletivo na Anglo American, onde fiquei por cerca de dois anos. Tempos depois, recebi o contato de uma consultoria de recrutamento executivo para uma oportunidade na Hydro. Aquilo me despertou um profundo interesse, já que a Noruega tem uma cultura admiravelmente igualitária, pautada pelo bem-estar social, proximidade e baixa distância de poder – lá, o presidente de uma empresa utiliza o transporte público com a mesma naturalidade que qualquer cidadão. Já são, desde então, onze anos de história na Hydro.
Na indústria pesada, o cuidado com a segurança ocupa o primeiro lugar absoluto e é conduzido com rigor em todos os níveis da empresa. É o assunto de abertura de qualquer reunião diária. É inconcebível falar em segurança sem falar no cuidado genuíno com as pessoas: proteger a segurança é, fundamentalmente, preservar a vida humana.
Existe uma dinâmica ou método particular de gestão de pessoas em indústrias pesadas e mineradoras? Considerando os riscos operacionais e, claro, as múltiplas cadeias operacionais e presença global?
Com certeza. Na indústria pesada, o cuidado com a segurança ocupa o primeiro lugar absoluto e é conduzido com rigor em todos os níveis da empresa. É o assunto de abertura de qualquer reunião diária. É inconcebível falar em segurança sem falar no cuidado genuíno com as pessoas: proteger a segurança é, fundamentalmente, preservar a vida humana. Por isso é bem comum nas indústrias a liderança de Recursos Humanos acumular também a diretoria de Saúde e Segurança do Trabalho, exatamente como ocorre em minha posição. O sucesso nos negócios só possui valor se a integridade física e emocional de cada trabalhador for plenamente preservada.
Você lidera as áreas de pessoas, saúde e segurança. O que isso significa na prática? E como esses três temas se cruzam no dia a dia?
Costumo afirmar que sou, essencialmente, uma líder de pessoas. Toda diretriz voltada à saúde ocupacional, aos protocolos de segurança ou aos processos de RH tem o indivíduo como ponto central. E é justamente desse princípio que parte essa “união” entre as três áreas. Como VP, hoje tenho liderados que são dedicados a cada uma dessas verticais, e meu papel é coordená-los da melhor forma.
E qual é o papel do RH nessa gestão conjunta?
Bem, no fim do dia nosso dever é conceber um ecossistema no qual o colaborador se sinta seguro, protegido, acolhido e com voz ativa. Isso significa assegurar, por exemplo, que uma profissional possa vivenciar a maternidade sem qualquer receio de prejuízo à sua ascensão na carreira. Quando garantimos estabilidade emocional e segurança psicológica, promovemos a saúde integral de todos.
Exatamente. Cerca de 87% a 90% de nossos profissionais são naturais do Pará ou residentes históricos da região. Mas temos também unidades em Santo André e Itu, no Estado de São Paulo, Blumenau, em Santa Catarina, além do escritório no Rio de Janeiro. A identidade regional já é a própria essência de nossa operação. Pessoalmente, resido em Lisboa e encaro voos diretos para Belém quase mensalmente – às vezes a cada quinze dias – para percorrer Barcarena, Belém e Paragominas. O propósito é manter o diálogo aberto com sindicatos, colaboradoras da rede de liderança feminina e equipes operacionais, e faço isso com o apoio de diversos business partners locais. Essa disposição em ouvir, estar presente, é o que faz a diferença e embasa qualquer fórmula de adaptação, em qualquer território.
E para além da diversidade cultural, como hoje você incorpora as outras frentes de diversidade? Quais outras iniciativas hoje a Hydro pode destacar?
Nossa estratégia de diversidade e Inclusão é estruturada em seis eixos: gênero, comunidade LGBTQIA+, raça e etnia, saúde mental, pessoas com deficiência (PcD) e neurodiversidade. No campo da saúde mental, atuamos preventivamente por meio da capacitação de lideranças. Sabemos que um líder bem preparado reconhece esforços, mantém diálogo transparente e constrói um ambiente psicologicamente seguro, e isso naturalmente reduz a incidência de burnout e adoecimento ocupacional.
Já o recorte de gênero é um dos nossos maiores sucessos, e onde estampamos alguns resultados concretos: encerramos 2021 com 17% de mulheres na organização, e em 2025 chegamos a 28%. Na liderança feminina, saltamos de 13% em 2021 para 21% em 2025. Isso tudo é resultado também de uma evolução na equidade logo no processo seletivo, na admissão e na retenção dessas mulheres, com programas específicos que criamos. Atualmente as mulheres representam 64% dos novos talentos contratados, por exemplo.
Mas considerando nossas ações com foco em raça e etnia, no Pará, mais de 60% de nosso time se autodeclara preto ou pardo. Nosso foco prioritário passou a ser a ascensão desses profissionais e a chegada real deles aos cargos de gestão.
Na sua visão, essa intersecção de agendas (saúde, segurança e pessoas) resume os desafios futuros do RH?
Sem dúvida. As organizações que enxergam o ser humano de forma holística têm vantagem competitiva. Empresas que ainda tratam saúde e segurança como meras obrigações ou encaram o RH como um departamento pessoal de admissão e demissão vão continuar perdendo a capacidade de atrair os melhores talentos.
E quanto a temas em alta, como a Inteligência Artificial e a convivência de diferentes gerações no ambiente de trabalho? Onde residem os maiores desafios da liderança?
O desafio central está no preparo contínuo das lideranças. São os líderes que terão de orquestrar a adoção de novas tecnologias, e também liderar essas novas gerações. Pessoalmente, discordo da premissa de que os mais jovens “não desejam trabalhar”. Eles são altamente pragmáticos e eficientes, mas demandam propósito, clareza e respeito. A minha conclusão é de que o modelo autocrático do “faça porque mandei” perdeu completamente a eficácia e sentido. Cabe aos líderes do futuro justamente a capacidade de integração entre a experiência de profissionais veteranos e a fluidez digital natural dos mais jovens.
Para finalizar, você tem alguma dica de leitura para quem acompanhou até o final?
Recomendo o livro A Jornada da Liderança, de Hans-Werner Kaas. É uma leitura obrigatória sobre os diferentes estágios de maturidade gerencial. Também sou entusiasta das reflexões do Simon Sinek, um autor que admiro profundamente. Por isso, recomendo o livro O Jogo Infinito, principalmente porque ele demonstra que nos negócios não há vencedores finais ou partidas encerradas: o propósito está em construir organizações resilientes e sustentáveis no longo prazo.