Responsável por mais de 23 mil colaboradores em todo o Brasil, diretor de RH destaca importância dos ‘porquês’ no dia a dia das organizações e defende que a área deve ter habilidade de gestão de projetos.
Após um 2025 marcado por recordes históricos, com mais de 534 mil afastamentos de profissionais do trabalho por transtornos mentais, o início de 2026 traz um novo dado relevante: uma leve desaceleração no volume de afastamentos no primeiro trimestre do ano.
Entre janeiro e março de 2026, o Brasil registrou 105.874 afastamentos por saúde mental, uma redução de 3% em relação ao mesmo período de 2025.
Mas essa queda precisa ser analisada com cautela. Quando observamos o comportamento mensal e o contexto operacional do INSS, fica claro que o cenário está longe de indicar uma reversão da tendência.
Na série Data Cajuína, seguimos analisando os dados públicos do INSS de forma estruturada e comparável ao longo do tempo para ajudar você a entender o que de fato está mudando e o que permanece como padrão no adoecimento mental no trabalho.
No recorte mensal, os dados mostram um comportamento desigual:
A queda no trimestre é fortemente influenciada pelo desempenho de fevereiro, tradicionalmente um mês mais curto e impactado por fatores sazonais, como o Carnaval. Com menos dias úteis e o fechamento das agências durante o feriado prolongado, o volume de perícias presenciais e análises de sistemas cai naturalmente.
Há também o represamento: como o fluxo de pedidos não para, o que não é processado em fevereiro acaba ficando para o mês seguinte, inflando os números desse mês. Já março apresenta um comportamento oposto, com crescimento expressivo.
Esse aumento no 3º mês do ano não é aleatório. Em março, o governo realizou um mutirão nacional do INSS que antecipou cerca de 30 mil atendimentos, o que ajuda a explicar parte desse salto no número de concessões. Geralmente, em março, o Ministério da Previdência Social intensifica os mutirões para cumprir metas do primeiro trimestre
Além disso, novos mutirões realizados em abril indicam que esse efeito pode continuar impactando os dados ao longo do segundo trimestre.
Parte das variações observadas em 2026 também está relacionada a mudanças recentes no processo de concessão de benefícios.
Entre elas:
Essas mudanças aumentam a capacidade de processamento do sistema e podem gerar picos de concessão em meses específicos e redistribuição dos volumes ao longo do tempo.
Ou seja: parte da oscilação não está na redução do adoecimento em si, mas na forma como o sistema funciona atualmente.
Mesmo com a redução de 3% em relação ao Q1 de 2025, o volume de afastamentos permanece elevado, acima dos 100 mil afastamentos de profissionais do trabalho por trimestre.
O Q1/2026 também registrou uma queda de 19,6% em relação ao Q4 de 2025, mostrando uma desaceleração no curto prazo, mas ainda dentro de um patamar alto na série histórica.
Ao longo deste 1º trimestre de 2026, os afastamentos por saúde mental representaram, em média, 12,9% de todos os auxílios-doença concedidos pelo INSS, percentual que é exatamente 1 ponto percentual abaixo comparado com o 1º trimestre de 2025 (13,9%).
Apesar da leve queda em relação ao ano anterior, o dado reforça que:
O ranking das doenças no Q1/2026 se manteve inalterado:
As 10 principais condições concentraram 98.965 afastamentos, ou seja, 93,2% de todos os afastamentos do trimestre, mantendo o padrão observado em trimestre anteriores.
A liderança no número de casos segue clara: a Ansiedade (F41) segue como principal causa de afastamento.
Para todas essas doenças, o padrão foi registrar uma queda em janeiro e fevereiro, enquanto em março foi registrado um aumento de afastamentos.
Além dos transtornos classificados como F00–F99, há um grupo de registros que ajuda a entender o que antecede o adoecimento mental: o Z73.0 – Esgotamento, associado principalmente a burnout, mas também ao estresse crônico e sobrecarga no trabalho.
No primeiro trimestre de 2026:
Esse dado reforça um ponto central da análise: nem todo afastamento relacionado à saúde mental aparece como diagnóstico clínico. Parte deles surge como sinais prévios, como esgotamento e dificuldades de adaptação.
Vale destacar a forma como esses afastamentos são classificados pelo INSS. Os registros de burnout podem ser concedidos como:
No primeiro trimestre de 2026, a maior parte dos afastamentos por burnout ainda foi enquadrada como benefício comum (Espécie 31):
Na prática, isso mostra que, mesmo quando há forte associação com o ambiente de trabalho, o burnout ainda é majoritariamente tratado como um afastamento temporário. Essa diferença de classificação é relevante porque impacta:
Ao incluir o Z73.0 como uma camada complementar nesta análise, queremos ampliar o olhar sobre saúde mental no trabalho não apenas para os diagnósticos consolidados, mas também para os sinais que antecedem o adoecimento.
Observação: o total de afastamentos registrados como “Z73.0 – Esgotamento” não foram somados ao total de afastamentos por saúde mental, pois pertencem a uma categorização distinta dentro da CID-10, diferente do Capítulo V – Transtornos mentais e comportamentais.
Na prática, os dados do início de 2026 mostram que, mesmo com oscilações pontuais, o padrão de adoecimento mental no trabalho permanece consistente.
A combinação de volumes elevados de afastamentos, recorrência e previsibilidade nos dados reforça que estamos diante de um fenômeno estrutural.
E esse cenário ganha ainda mais relevância com a entrada em vigor da nova NR-1, neste mês de maio de 2026, que passa a exigir que empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais.
Os dados de 2025 e 2026 ajudam a explicar por quê: eles mostram que saúde mental deixou de ser apenas uma agenda de conscientização e passou a integrar o campo da gestão de risco, compliance e sustentabilidade do trabalho.
Este conteúdo foi produzido a partir da análise de dados públicos oficiais, disponibilizados mensalmente pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e pelo Ministério da Previdência Social por meio do Portal de Dados Abertos do Governo Federal.
Para este levantamento, a equipe Cajuína analisou as bases mensais de benefícios concedidos associados a transtornos mentais e comportamentais, conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID-10).
Este estudo contempla todo o conjunto de transtornos mentais listados no Capítulo V da CID-10 (códigos F00 a F99). Isso inclui, além de quadros ansiosos e depressivos, condições mais graves e complexas, como esquizofrenia, transtornos psicóticos, transtornos de personalidade e transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de álcool e outras substâncias.
Essa escolha metodológica amplia o escopo da análise e permite uma visão mais completa do impacto da saúde mental no afastamento de profissionais do trabalho. Dessa forma, evitamos a exclusão de grupos relevantes de diagnósticos.
Além disso, como camada complementar de análise, a Cajuína também extraiu os dados relacionados ao código Z73.0 – Esgotamento (burnout). No entanto, esses registros não são somados ao total de afastamentos por saúde mental, pois pertencem a uma categorização distinta dentro da CID-10, classificada como “Problemas relacionados com a organização de seu modo de vida”, fora do Capítulo V (F00–F99). A inclusão deste dado tem caráter analítico e visa ampliar a compreensão sobre sinais prévios de adoecimento mental no trabalho.
Os dados são extraídos mensalmente dos arquivos disponibilizados no portal de Dados Abertos, sempre no mês subsequente ao período de referência, em formato estruturado (CSV). A partir dessas bases, a Cajuína realiza processos próprios de tratamento, padronização e consolidação, incluindo:
Ao adotar essa metodologia, a Cajuína busca oferecer uma leitura transparente, consistente e comparável ao longo do tempo. Nosso objetivo é contribuir para um debate mais qualificado sobre saúde mental nas empresas brasileiras.

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