Em meio à transformação da Caloi, diretora sênior de recursos humanos defende que as capacidades humanas serão cada vez mais decisivas para o sucesso das organizações; com 25 anos de carreira, executiva mescla experiências em empresas como Pepsico e Avon com o saber da academia para fazer turnaround em fabricante de bicicletas
Em coluna para Cajuína, Raul Juste Lores conecta a ausência da decoração verde e amarela nas ruas brasileiras à fuga do espaço público e provoca: o gestor de RH precisa sair da bolha e conhecer a cidade que cerca a empresa antes da Copa do Mundo de 2030.
À frente de 12 mil colaboradores do Grupo Heineken, executiva fala sobre saúde mental, maternidade, inteligência artificial, diversidade e os desafios de liderar pessoas em um cenário de transformação acelerada do trabalho.
Pesquisa da Fundação Dom Cabral com 24 CEOs de empresas familiares brasileiras mostra que 60% dos líderes são executivos externos à família controladora; sucesso da liderança depende de inteligência relacional, leitura sistêmica e capacidade de navegar um “organograma invisível” paralelo à governança formal.
Após passar por empresas como C&A, Nestlé e Unilever, executiva tem a missão de cuidar de quem faz a Turma da Mônica acontecer; para Patrícia, organizações precisam entender contexto, manter toque humano e preservar senioridade da área de Pessoas.
“Um ambiente onde as mulheres ocupam posições de liderança é um motor de performance”, diz Aline Almeida, gerente de pessoas e organização da Novartis; políticas incluem jornada flexível e licença parental de seis meses.
Com mais de três décadas de experiência no RH, executivo acredita no papel das organizações para transformar a sociedade; na visão dele, popularização da IA vai tornar o contato humano mais legítimo, mas também mais caro e raro.
Pesquisa da Randstad mostra que o sucesso da transformação da IA dependerá menos da tecnologia e mais da capacidade das organizações de construir confiança, desenvolver lideranças e integrar gerações; gap de otimismo entre empresas e empregadores preocupa.
Em meio à transformação causada pela inteligência artificial e às mudanças nas expectativas das novas gerações, a diretora de Pessoas do Magalu afirma que as empresas precisarão rever práticas históricas de recrutamento, liderança e organização do trabalho.
No recém-lançado livro ‘The Age of HR’, o pai do RH moderno reúne mais de 80 líderes globais para responder o que acontece quando o RH para de medir atividades e passa a criar valor humano.
“Sem intencionalidade, a atuação do RH fica vazia”, diz Afrânio Haag, do Grupo Fleury
Responsável por mais de 23 mil colaboradores em todo o Brasil, diretor de RH destaca importância dos ‘porquês’ no dia a dia das organizações e defende que a área deve ter habilidade de gestão de projetos.
Bruno Capelas
6 de maio de 2026
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Há quase cinco anos como diretor de Pessoas do Grupo Fleury, Afrânio Haag acredita que o futuro do trabalho será implacável com quem resistir às transformações correntes. “Quem não souber ser flexível ou gerir a mudança vai sofrer bastante”, afirma o executivo, responsável por uma equipe que atende mais de 23 mil colaboradores em todo o Brasil. Em um contexto de transformações tecnológicas, demográficas e culturais, ele vê o papel do RH como o de ajudar as pessoas a se prepararem – e, mais do que isso, a se adaptarem rapidamente.
Para o engenheiro e contador de formação, o segredo está em combinar técnica e sensibilidade.
O RH precisa aprender a lidar com projetos e portfólios, mas sem perder de vista os porquês de cada ação.
Entre a pressão por resultados e a necessidade de cuidado, Afrânio aposta na intencionalidade e na gestão de mudanças como pilares para o futuro da área. Afinal, se a transformação é inevitável, o que faz a diferença é como as pessoas – e as empresas – escolhem enfrentá-la.
Afrânio, você é formado em Ciências Contábeis e teve uma longa carreira em negócios. Como é que você foi parar no RH?
Venho de uma família de Exatas: minha mãe é professora de matemática, meu pai é da área de finanças. Fiz Ciências Contábeis e Engenharia de Produção, atuei em supply chain e também em finanças, além de gerenciar equipes de campo quando trabalhei na indústria automotiva. Isso moldou o meu perfil. Estou no Fleury há 18 anos, iniciando minha carreira com suporte a operações. Acumulei diversas experiências no grupo em áreas como regulatório, facilities, utilities, e isso me levou também a estudar um pouco de liderança e desenvolvimento de equipes ao longo do tempo.
No final de 2020, depois de um ano de pandemia liderando supply chain, fui convidado para fazer esse movimento para a área de pessoas. Não foi uma mudança simples sair de uma área de domínio técnico para uma nova abordagem. O desafio se tornou ainda maior porque, desde a pandemia, a área de pessoas passou por uma mudança de exigências, de competências e de posição dentro das empresas. Mas acho que tive sorte de vir para o RH nesse momento bastante transformacional.
Uma coisa é ser líder de uma equipe ou líder de líderes dentro do negócio. Outra é estar no RH. Como foi esse primeiro impacto, ainda mais considerando o contexto da pandemia em uma empresa de saúde?
A amplitude da liderança é diferente. Quem não está dentro do RH não tem a percepção da quantidade de políticas, normas e processos que existem nela. Além disso, é preciso entender as necessidades do negócio, as necessidades regionais, as necessidades de cada indivíduo. É preciso entender que nem sempre uma política única vai atender a todos. Hoje, nós temos 23 mil colaboradores. Mesmo que por áudio ou vídeo, não é possível conversar com todos ao mesmo tempo. Então, é preciso se comunicar de maneira formal, ao mesmo tempo em que é preciso ter empatia e escuta com quem está na operação. No meu caso, ter vivido a operação me ajuda muito.
Nos cinco anos que você está no RH, o setor mudou muito. Como você vê o momento atual?
Estamos vivendo um momento atípico. Socialmente, nós temos historicamente o menor índice de desemprego já registrado, segundo o IBGE. É um momento em que a nossa população ativa está produtiva. Ao mesmo tempo, temos muitos desafios. Há um aumento no turnover e na rotatividade no mercado. Muitas empresas relatam questões com saúde mental. E o RH precisa entender como as pessoas se desenvolvem, e como ele mesmo propicia esse desenvolvimento para que as pessoas também devolvam uma máxima contribuição para o negócio.
São pautas que vão do aspecto tático-operacional até o aspecto mais estratégico, pensando na cultura, por exemplo. Trabalhando com saúde, temos uma questão forte sobre o propósito do cuidado – e um dos nossos desafios hoje é justamente como incorporar o cuidado e o acolhimento dentro da cultura.
Além de ter muitos colaboradores, o Fleury também é uma empresa complexa, com diferentes negócios, uma variedade de carreiras e uma amplitude geográfica nacional. Como vocês conseguem olhar para os interesses de cada indivíduo, em meio a tanta diversidade?
É uma questão que faz parte da beleza do desafio que temos todos os dias. Para começar, vamos falar de remuneração. Hoje, existem muitas pesquisas de mercado, considerando o posicionamento da remuneração dentro dos quartis. Buscamos ser competitivos em cada proposta de posicionamento – mas, para isso, as empresas precisam ter uma política de remuneração clara e bem discutida antes de ser implementada.
Outra discussão está presente nos benefícios flexíveis, que é uma pauta presente no nosso dia a dia. É uma pauta delicada, porque também envolve a cultura. Imagine se um colaborador pede para trocar o plano de saúde por um vale-combustível. É preciso ter cuidado com o que se vai flexibilizar – até porque, para nós, saúde é um valor, então não é algo que colocaríamos dentro de uma ‘cesta’. É só um exemplo, mas serve para ilustrar como a discussão é difícil.
Mais do que apenas oferecer flexibilidade, é preciso ter intencionalidade no trabalho do RH. Como você vê esse valor dentro do trabalho no Fleury?
Toda vez que vamos fazer um programa novo, antes de iniciar o desenvolvimento, sempre nós perguntamos os porquês. “Por que isso é importante?”. “Por que nós vamos fazer?”. Trazer a questão da intencionalidade, colocando o colaborador no centro, é sempre importante. Senão, não seremos um RH que busca o equilíbrio – e sigo uma teoria de que o papel do RH é gerenciar as agendas dos múltiplos stakeholders que existem. Parece discurso, mas é uma batalha de todos os dias. Sem intencionalidade, a atuação do RH fica vazia. Sem um propósito ou uma intenção, nenhum programa perdura.
Ao mesmo tempo, não dá para filosofar indefinidamente. Antes de começar um projeto, não temos a certeza do resultado. Assim, é importante ter a certeza do que se busca. Para mim, que venho da área de operações, todo projeto tem de ter início, meio e fim. Por isso, acredito que uma das competências que o RH precisa ter no presente e no futuro é o de gestão de portfólio de projetos.
Na sua visão, qual é o grande desafio do RH nos próximos anos?
O perfil demográfico do Brasil está mudando. Além da questão geracional, possivelmente nós todos vamos trabalhar por mais tempo. E acredito que as empresas precisam discutir qual vai ser o nosso papel, enquanto seres humanos, dentro das instituições. Há o desafio de letrar e capacitar as pessoas para a inteligência artificial, que vai nos trazer mais qualidade, velocidade e produtividade.
Outro desafio é a disciplina de People Analytics, trazendo cruzamento de dados que permitam capturar, por meio de ferramentas, pontos e ideias que hoje são inalcançáveis. Em meio a isso, há ainda dois desafios em termos de competências que precisam ser desenvolvidas: liderança e gestão de mudanças. Já estamos vivendo muitas mudanças, mas elas se tornarão ainda mais dramáticas nos próximos anos. Quem não tiver a habilidade de ser flexível ou saber gerir a mudança vai sofrer bastante.
Preparar lideranças sempre foi uma missão do RH. O que muda agora?
Durante muito tempo, o desenvolvimento foi pensado como sinônimo de educação. Isso vem mudando radicalmente. Hoje, o paradigma de desenvolvimento está no tripé 70-20-10: 70% do aprendizado é feito no próprio trabalho, 20% em trocas com colegas e 10% só vem do aspecto formal. Outra mudança importante é que, dentro desses 10% do treinamento formal, é preciso cada vez mais pensar em desenvolver competências comportamentais – e isso vale para qualquer colaborador, mas especialmente para a liderança.
Vamos ter de desenvolver o acolhimento, a empatia, a comunicação, o pensamento crítico, a capacidade analítica, a solução de problemas, a antecipação de questões. Não dá para dizer que, do âmbito técnico, a questão está resolvida, mas ele tem um peso menor frente aos desafios comportamentais.
Bruno Capelas é jornalista. Foi repórter e editor de tecnologia do Estadão e líder de comunicação da firma de venture capital Canary. Também escreveu o livro 'Raios e Trovões – A História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum'.