Busque por temas

Em alta

“Quando as pessoas se sentem seguras para serem elas mesmas, o ambiente se torna propício a bons resultados – e aí entra o amor”, diz Vanessa Cabral, da Lockton

Com mais de 20 anos de carreira, a diretora de RH para a América Latina aposta na qualidade das relações como diferencial em um ambiente de mudanças constantes.

Karina Sérgio Gomes
5 de maio de 2026
Capa do artigo Tim-Tim com Vanessa Cabral da Lockton
Leia emminutos
Voltar ao topo

Para Vanessa Cabral, diretora de Recursos Humanos da Lockton na América Latina, correr é mais do que um hábito: é uma forma de organizar a rotina. Durante a corrida, ideias se organizam e conversas difíceis começam a ser elaboradas. “Às vezes eu paro para anotar, porque vem uma ideia na cabeça”, diz em entrevista à Cajuína. “É o meu espaço de oxigenação.”

Corredora há 20 anos e com duas maratonas no currículo, Vanessa vê os avanços de sua vida profissional se misturarem com cada quilômetro rodado. Sua trajetória começa na Korn Ferry, em 2002, e passa por instituições como Santander, Itaú e Banco BV, onde atuou por mais de uma década em iniciativas de transformação cultural, inovação e desenvolvimento organizacional, além de integrar comitês executivos e liderar frentes em momentos críticos, como a pandemia. 

Hoje, a executiva lidera a estratégia de pessoas para a América Latina em uma das maiores multinacionais de seguros, em um contexto que combina diversidade cultural e integração de operações. Ao longo desse percurso, consolidou uma visão em que pessoas e negócios não são dimensões separadas. 

É nesse ponto que sua abordagem se afasta do vocabulário mais tradicional da gestão, a ponto de Vanessa recorrer, sem abstração, a um termo pouco comum no mundo corporativo: amor.

Quando as pessoas se sentem seguras para serem elas mesmas, o ambiente se torna mais propício a bons resultados – e é aí que entra o amor.

A convicção é tão grande que ela até escreveu recentemente um artigo sobre o tema, publicado no livro O poder da inteligência emocional – vol. 2, de 2025. 

No artigo e na conversa a seguir, Vanessa deixa claro que o papel do RH não é apenas estrutural, passando pela garantia de qualidade das relações que sustentam as estratégias do negócio. E assim como a corrida exige constância, escuta do corpo e capacidade de lidar com o desconforto, o mesmo parece valer para o tipo de cultura que Vanessa busca construir. A seguir, confira os principais trechos da entrevista.

Você se formou em Administração, mas sempre atuou em RH. Como foi esse início?

Comecei minha carreira na Korn Ferry, trabalhando com recrutamento executivo, e esse primeiro contato foi muito determinante para mim. Foi ali que eu entendi a dimensão do impacto que as decisões de pessoas têm dentro das organizações – especialmente quando estamos falando de posições de liderança. Depois, morei um período fora do Brasil e, quando voltei, segui construindo minha trajetória no mercado financeiro. Já são mais de 20 anos na área, passando por instituições como Santander, Itaú e BV, onde fiquei quase 14 anos.

Hoje estou na Lockton, em uma posição que olha para Brasil e América Latina, muito conectada à estratégia regional. Ao longo da minha trajetória, algo que foi muito importante para mim foi conhecer mais profundamente o negócio. Toda a formação em pessoas, desenvolvimento organizacional e comportamento humano é fundamental, mas entender como o negócio opera também faz muita diferença. A formação em Administração contribuiu para isso e, depois, o MBA em Finanças e Gestão de Negócios trouxe um olhar ainda mais complementar. Acredito que estratégia de negócios e gestão de pessoas caminham juntas. Foi a partir dessa visão que fui orientando minhas decisões ao longo da carreira.

Essa formação em Finanças e Administração te dá uma compreensão mais profunda do profissional, da forma como ele pensa e toma decisões?

Sem dúvida. Acho que temos um olhar para desenvolvimento humano e organizacional, mas sempre conectado ao impacto no negócio. Por exemplo, quando estou em um processo de contratação, é fundamental pensar: o que vai mudar no negócio? Quais são as transformações no futuro do trabalho? E como isso vai moldar o perfil dos profissionais que precisamos trazer? Casar essa visão mais ampla é essencial para o que fazemos.

Quando conseguimos combinar bem o entendimento do perfil das pessoas com as necessidades do negócio, é aí que acontece o match perfeito. Hoje, ainda bem, o RH vem conquistando cada vez mais espaço à mesa no corpo executivo. Passa a ser uma área diretamente ligada a processos de transformação, à longevidade do negócio, com um olhar para governança e sustentabilidade.

Você lidera o RH na América Latina, uma região com culturas e cenários econômicos bastante distintos. Como estabelecer uma estratégia de pessoas que funcione de forma integrada, respeitando essas diferenças?

O que nos conecta, quando pensamos em uma empresa global como a Lockton, é a cultura interna. Temos pilares muito claros, filosofias que se traduzem nos nossos valores – e, independentemente de você estar no Brasil, no México ou na Argentina, esses valores são os mesmos. Claro que existem diferenças culturais entre os países, mas, pela minha experiência, quando a cultura organizacional é forte, ela funciona como um elemento unificador. Mesmo com desafios de idioma ou contexto, há algo em comum que conecta todas as pessoas: esses valores.

Um ponto importante também é como atraímos profissionais que compartilhem essa visão de conexão. Como profissionais de pessoas e cultura, precisamos estar atentos a como combinamos essas diferentes perspectivas. Vejo essas diferenças de forma muito positiva. Quando falamos de diversidade – cultural, cognitiva, de experiências, de trajetórias, de línguas –, estamos falando de uma grande potência. Isso amplia a capacidade de inovação e traz um olhar mais apurado para o cliente, que também é diverso. Por isso, gosto de pensar as diferenças como complementaridade. É esse olhar que, no fim, fortalece a organização.

Você atua há muitos anos no mercado financeiro, um setor muito impactado por mudanças externas, inovações tecnológicas e crises globais. Qual é, na sua visão, o papel do RH diante desse cenário de instabilidade?

O mundo é volátil, incerto, dinâmico. Isso é uma realidade. Lidamos com diferentes variáveis o tempo todo e precisamos estar muito atentos ao que está acontecendo, além de sermos flexíveis para ajustar a rota quando necessário. Quando definimos uma estratégia, ela é pensada para o médio e longo prazo, mas o caminho nem sempre segue como previsto.

A pandemia foi um exemplo claro. Ninguém imaginava que viveríamos algo assim, e isso transformou profundamente o ambiente de trabalho, o engajamento das pessoas e a forma como nos relacionamos com o trabalho. Como profissionais de pessoas e cultura, precisamos estar muito atentos ao impacto desses acontecimentos nas pessoas e reagir rapidamente. Se há, por exemplo, um conflito em uma região onde temos colaboradores, como oferecer suporte a essas pessoas? Esse cenário de transformação constante – seja por tecnologia, crises ou mudanças globais – já está dado.

O grande diferencial dos profissionais de RH hoje é justamente a agilidade de resposta e a capacidade de manter um olhar cuidadoso para as pessoas. Porque, no fim, não lidamos com processos, mas com pessoas. E isso exige escuta, acolhimento e a capacidade de não perder o olhar humano, mesmo em contextos de alta complexidade.

Imagino que a comunicação seja uma peça importante nesses momentos?

Mesmo quando você não tem todas as respostas, é importante dizer: “não sei como responder a todas as dúvidas, mas estou aqui para compartilhar o que sabemos e manter vocês atualizados”. Eu acredito muito em processos de comunicação que informem, acolham e orientem, além de criarem canais de escuta abertos.

Ouvir o colaborador é fundamental, entendendo como as pessoas estão percebendo e vivendo aquele momento. Por isso, trabalhar a comunicação corporativa em contextos de mudança é essencial para que esses processos aconteçam de forma mais clara, mais fluida e, na medida do possível, mais confortável para todos.

Quando as pessoas se sentem seguras para serem elas mesmas, para se expressarem com autenticidade, esse ambiente naturalmente se torna mais propício a bons resultados.

No seu artigo “O amor, uma resposta às emoções”, publicado em O poder da inteligência emocional – vol. 2 (Literare Books, 2025), você propõe que o profissional de RH vá além de uma atuação técnica, incorporando também o afeto. Como transformar isso em algo concreto dentro das organizações?

Acredito em ambientes respeitosos, amorosos e cuidadosos. Pela minha experiência como profissional de RH, para que as pessoas performem bem, se engajem e se sintam conectadas, elas precisam se sentir seguras. Precisam estar em um espaço aberto para troca, inclusive para conversas difíceis. É preciso ter confiança. Muito do que percebemos em termos de bem-estar, engajamento e qualidade das relações está diretamente ligado a essa sensação de segurança.

Quando as pessoas se sentem seguras para serem elas mesmas, para se expressarem com autenticidade, esse ambiente naturalmente se torna mais propício a bons resultados, à geração de ideias, ao desenvolvimento e ao crescimento. É aí que entra o amor. Não no sentido romântico, mas como cuidado com as relações, com o outro, com a forma como a gente constrói esses vínculos no dia a dia.

Que caminhos você sugeriria para transformar esse cuidado com as relações em prática concreta?

Ter um ambiente afetivo não significa ausência de conversas difíceis, pelo contrário. Trata-se de criar um espaço onde a transparência e a comunicação fluam com mais naturalidade. Em um ambiente cuidadoso, as pessoas se sentem mais à vontade para trazer problemas para a mesa, compartilhar dificuldades e contribuir com diferentes perspectivas, inclusive em momentos de decisão.

O que eu proponho no meu artigo não é eliminar conflitos, dado que eles fazem parte do dia a dia profissional, mas pensar em como lidamos com eles. Como conduzimos essas conversas com boas intenções, com cuidado com as pessoas e com as relações. Porque o medo é um impeditivo. Ele trava, silencia e afasta. Ao longo da minha trajetória, conversando com pessoas de diferentes idades, gerações e culturas, fica muito claro para mim que boas relações, aliadas a um olhar atento para a cultura e para o cuidado, fazem toda a diferença.

No artigo, você também fala sobre corrida. Você já completou duas maratonas e está se preparando para a terceira. De que forma essa prática influencia a sua atuação como profissional de pessoas e cultura?

Acredito muito no bem-estar integral, que envolve saúde física, mental e financeira. Quando falamos do ser integral, estamos falando de tudo isso. Como meu papel também é cuidar das pessoas, eu preciso, antes de tudo, cuidar de mim. E a corrida é um momento importante nesse sentido. É o meu espaço de oxigenação.

Muitas vezes, é durante a corrida que tenho boas ideias. Já aconteceu várias vezes de pegar o celular no meio do treino para anotar algo. E, em dias mais desafiadores, quando sei que vou enfrentar uma conversa difícil, a corrida também me prepara emocionalmente.

Alguma iniciativa que você implementou e que você acha que vale compartilhar como exemplo para outros RHs?

Implementei uma iniciativa chamada Associate Dreams, voltada à realização de sonhos dos colaboradores. Basicamente, convidamos as pessoas a compartilharem seus sonhos. E vem de tudo: fazer uma viagem internacional, levar a família para conhecer suas origens, construir uma casa para a mãe, aprender um novo idioma. Fazemos uma edição por ano e já realizamos duas. Na primeira, recebemos mais de 160 inscrições. Foi muito emocionante: brinco que, a cada sonho que lia, escorria uma lágrima. Foi muito difícil selecionar, porque todos são legítimos e muito significativos. Na última edição, selecionamos nove sonhos para serem realizados. É um momento muito especial para os colaboradores.

A empresa contribui financeiramente para viabilizar esses sonhos, sem qualquer tipo de contrapartida. Estamos ali, simplesmente, para ajudar a realizá-los. É uma iniciativa de extremo cuidado com as pessoas, com um impacto imensurável na vida delas. Dentro da empresa, o efeito também é muito forte: o nível de engajamento é altíssimo, porque deixa evidente o quanto existe um cuidado genuíno com cada pessoa.

Jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e mestre em Artes visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, já escreveu para veículos como Folha de S.Paulo, NeoFeed, Metrópoles, O Estado de S. Paulo, revistas GOL e Veja São Paulo. Trabalhou na curadoria de exposições no MAM São Paulo e no CCSP.