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Por que estão falando tanto do perfil do CHRO nas grandes empresas do Brasil?

Pesquisa da Myndz e da Fundação Dom Cabral traça o perfil dos líderes de RH de companhias que faturam acima de R$ 1 bi; estudo encontra uma função reconhecida como estratégica, mas com lacunas em sucessão, capacidade analítica e preparação para futuro

Redação
13 de outubro de 2026
Capa do artigo Por que estão falando tanto sobre… a pressão para adoção de IA nas empresas
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O que você precisa saber

Quem ocupa a cadeira mais alta de Recursos Humanos nas grandes empresas brasileiras? E o que esse perfil diz sobre o estágio atual da função?

Essas são algumas das perguntas que orientam O Perfil do CHRO no Brasil 2026, levantamento realizado pela Myndz e pela Fundação Dom Cabral. Em sua primeira edição, a pesquisa ouviu executivos de RH de 65 empresas brasileiras, todas com faturamento superior a R$ 1 bilhão e atuação na economia real – instituições financeiras, seguradoras e corretoras ficaram de fora.

A pesquisa investigou as trajetórias dos profissionais, sua formação, competências, relação com o negócio, sucessão e também como eles veem os impactos da inteligência artificial sobre a função.

Segundo o estudo, o CHRO das grandes empresas brasileiras é um executivo experiente e altamente qualificado. A idade média dos respondentes é de 49,5 anos, enquanto o tempo médio de experiência na posição chega a 11,8 anos. Quase metade dos participantes é mulher (46,2%), embora a composição racial seja bastante homogênea: 86,2% se autodeclaram brancos.

A formação acadêmica também é elevada: 90,8% têm especialização lato sensu e 75,4% possuem MBA. A chegada à cadeira, porém, acontece mais frequentemente pelo mercado do que por promoção interna: 66,2% chegaram à posição por contratação externa, contra 32,3% que foram promovidos dentro da própria empresa. Além disso, 56,9% já ocupavam uma posição de CHRO na companhia anterior.

O dado mais interessante, entretanto, aparece quando a pesquisa olha para a relação entre RH e estratégia. Para 87,5% dos respondentes, o CEO reconhece o RH como parceiro estratégico. Outros 84,6% afirmam conseguir traduzir o impacto das iniciativas de pessoas em resultados financeiros mensuráveis. E a participação média do RH nas decisões estratégicas chega a 78,2 pontos em uma escala de zero a 100.

Mas esses números caem quando a pergunta deixa de ser sobre reconhecimento e passa a ser sobre capacidade de sustentar o futuro. Apenas 61,5% consideram que o modelo atual de RH está preparado para sustentar a estratégia futura da empresa. Entre os principais pontos de dificuldade aparecem conduzir transformações com velocidade, fazer workforce planning estratégico e conectar pessoas a resultados financeiros.

A sucessão revela outra diferença entre a responsabilidade atribuída ao CHRO e a estrutura criada para sustentá-la. Os executivos dedicam, em média, 51,8% da agenda semanal à liderança e ao desenvolvimento de seus times. Por outro lado, somente 33,8% contam com um sucessor interno preparado para assumir imediatamente a cadeira.

O estudo ainda mostra que o tempo dedicado ao desenvolvimento de pessoas é praticamente igual entre CHROs que têm e que não têm sucessor pronto – 52,5% e 51,4%, respectivamente. Para os pesquisadores, isso sugere que a sucessão não depende apenas do esforço individual do executivo, mas também do desenho institucional da empresa.

E há, claro, a inteligência artificial. Para 80% dos CHROs, IA é o principal tema da agenda de 2026. A maioria também afirma manter algum grau de supervisão humana sobre as ferramentas: 83,1% dizem questionar ou validar criticamente recomendações algorítmicas antes de tomar decisões.

O problema aparece novamente quando a pesquisa deixa o indivíduo e olha para a organização. Apenas 29,2% afirmam que suas empresas têm iniciativas estruturadas e consistentes para desenvolver julgamento crítico entre os líderes. Ou seja: a capacidade de questionar a IA parece estar mais desenvolvida como competência individual do que como capacidade institucional.

Há ainda um dado relevante sobre gênero. Embora as mulheres representem 46,2% da amostra, a participação relatada nas decisões estratégicas é diferente: 70,6 pontos entre mulheres, contra 84,8 entre homens. Esse foi o único contraste de gênero que atingiu significância estatística convencional na análise, embora os demais indicadores tenham apontado na mesma direção.

O que isso significa para o RH

A principal conclusão do estudo não parece estar em um número isolado, mas na distância entre eles.

O RH das grandes empresas brasileiras já conquistou legitimidade. A função participa das discussões estratégicas, tem acesso à alta liderança e é reconhecida pelos CEOs como parceira do negócio. Ao mesmo tempo, a pesquisa identifica um desenvolvimento mais desigual das estruturas que deveriam sustentar essa legitimidade: sucessão, capacidade analítica, sistemas de gestão e mecanismos institucionais para lidar com novas tecnologias.

É essa diferença que os pesquisadores resumem como uma tensão entre “legitimidade e prontidão”. O RH chegou a um lugar mais estratégico, mas ainda precisa construir a infraestrutura necessária para permanecer nele.

A questão da sucessão é um bom exemplo. Se dois terços dos CHROs chegam à posição por contratação externa e apenas um terço tem alguém pronto para assumir sua cadeira, existe uma discussão que vai além das carreiras individuais: o quanto as empresas tratam a liderança de RH como uma posição que demanda pipeline e sucessão estruturados?

O mesmo vale para dados e IA. A pesquisa aponta que os CHROs reconhecem a importância de conectar decisões de pessoas a resultados financeiros, mas a própria capacidade analítica ainda aparece como uma fronteira de desenvolvimento. Na agenda de 2026, 30,8% apontam a elevação da qualidade da liderança como principal acelerador da contribuição do RH para o negócio, enquanto 24,6% citam o uso avançado de people analytics para tomada de decisão.

No caso da inteligência artificial, a provocação é parecida: não basta que o CHRO individualmente saiba desconfiar de uma recomendação algorítmica. Se a IA passa a fazer parte dos processos de gestão de pessoas, julgamento crítico, governança e supervisão precisam deixar de depender apenas da competência de quem ocupa a cadeira e virar capacidade da própria organização.

No fim, o retrato produzido pela pesquisa é menos o de um RH que ainda busca espaço na mesa de decisões e mais o de uma função que já chegou à mesa – mas precisa provar que tem estrutura para continuar ali. E talvez seja justamente essa a pergunta que fica para as próximas edições do estudo: quanto dessa legitimidade hoje concentrada na figura do CHRO será transformada em sistemas, métricas, sucessão e capacidades que permaneçam na organização independentemente de quem ocupa a cadeira?