Dona de ecossistema com mais de 25 mil colaboradores, empresa tem formação de lideranças antirracistas como pilar; em 2025, 53% dos contratados foram pessoas negras
Yoga na praça. Às 18 horas, naquele horário que saímos do trabalho já sofrendo, por antecipação, com os vagões lotados do metrô, com a espera no ponto de ônibus e até com fila pra tirar o carro do estacionamento. Quer ver um outro tipo de happy hour?
A loja da marca esportiva Lululemon pagava diariamente uma professora de ioga para dar aulas gratuitas em uma praça, do lado de onde eu morava, em Logan Circle, Washington DC. E dezenas de pessoas chegavam com seus tapetinhos e se espalhavam pelo gramado e pela calçada da pracinha. Antes disso, o lugar mais parecia uma rotatória, inventada apenas como divisor de vias para carros. A grama nunca ficou alta, afinal, os habitantes do bairro começaram a notá-la.
Em tempos de resoluções de ano novo (e de planejamento das empresas, do que se fazer em 2026), minhas preces são de que empresas, ao pensar no bem-estar dos funcionários, lembrem-se da cidade ao redor. Investir em urbanismo é melhorar a qualidade de vida de todos. A Lululemon pode até ter vendido muitos outros tapetinhos de ioga, mas sua ação — barata que só — melhorava a cidade. Tem algo mais deprê que praça vazia, cercada de carros? E yoga, dizem, faz muito bem contra o stress.
O programa “Adote uma praça”, criado pelo então prefeito Mário Covas na década de 1980, até cresceu e foi desburocratizado recentemente. Cerca de 800 das 4500 praças paulistanas têm algum tipo de apoio privado. Mas, na maioria das vezes, limita-se a uma filantropia terceirizada, que, com sorte, serve para manter a grama aparada ou ter canteiros de avenidas um pouco cuidados com uma placa do patrocinador. Limita-se à zeladoria, mas não tem maiores impactos na vida do funcionário quando saí da empresa, ou do cidadão. Vira patrocínio invisível.
Imagina uma empresa que não pensa apenas no pátio interno da firma, em eventos fechados e normalmente de costas para a calçada? Quando reformou sua sede em Torino, na Itália, a Lavazza criou uma passagem-praça no seu próprio prédio. Até hoje, você vê os vizinhos passeando com seus pets por ali.
Na escala chinesa, a incorporadora Vanke criou um arranha-céu horizontal como sua sede, em Shenzhen, no extremo sul da China. Ao longo do térreo surgido pelo prédio projetado pelo arquiteto Steven Holl, sustentado por pilotis, surgiu um parque horizontal com ciclovia. Como se fosse um vão do Masp bem mais verde _ e com espelhos d’água _ e muito mais longo.
Há investimentos infinitamente mais modestos, mas que já causam um belo impacto. Na entrada do Itaú Cultural, na avenida Paulista, um assento de concreto, pintado de branco, foi instalado. E dia e noite, o banco horizontal é ocupado por gente — frequentadora ou não do centro cultural. Ao contrário do “proibido sentar” ou do “não pise na grama”, virou um espaço de uso. Mais recentemente, junto com seu vizinho Sesc Paulista, Itaú e Sesc patrocinaram um mini-mini calçadão na rua Leôncio de Carvalho. Com apenas algumas jardineiras e cadeirinhas reclináveis móveis, surgiu um lugar de descanso em plena Paulista. A cidade agradece.
Ao contrário do que suspeitam as cabeças do urbanismo-cada-um-por-si, que sempre foca no pior da nossa sociedade, o banco do Itaú Cultural vai bem obrigado e o calçadãozinho da Leoncio não virou uma nova Cracolândia. Ideia boa, uso e zeladoria preveniram o pior.
Sua empresa já pensou em postes de iluminação criativos na calçada? Ou, melhor ainda, iluminação no próprio piso da calçada, no caminho dos colaboradores ao ponto de ônibus? Vale conversar com as prefeituras e ver as possibilidades de uma iluminação esperta, indireta, até nos canteiros e nos bancos das praças? Uma luzinha nos deixa bem mais seguros? Para que se limitar a pensar em iluminação pública no Natal?
Que neste novo ano, pensemos em bebedouros, assentos, iluminação, praças vizinhas, calçadas cuidadas e que não sejam escorregadias. E que fachadas ativas não sejam apenas comércio. Que a ativação seja vista como descompressão — e espaço para levar nossas equipes para aproveitar do ar livre.
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