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Cultura em startup: como foi criar a da Alice

Com o cofundador Gui Azevedo e a head de People Ops Grazi Ballico

Luiza Terpins
4 de maio de 2022
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Aqui na Cajuína, assim como em muitas startups, somos fãs do livro A Regra é Não Ter Regras, escrito por Reed Hastings e Erin Meyer e que conta os bastidores da criação da cultura da Netflix. Foi então que tivemos a ideia: seria incrível se a gente conseguisse contar como é esse processo dentro de uma startup brasileira! Logo pensamos na Alice, gestora de saúde fundada em 2020 e que já passou de 700 colaboradores.

Sem mais delongas: leia a seguir o papo que batemos com Gui Azevedo, cofundador da Alice; e Grazi Ballico, head de People Ops. Os dois trabalham juntos desde os primeiros dias da startup e compartilharam com a gente algumas curiosidades e insights valiosos tanto para profissionais de RH, quanto líderes e empreendedores.

Gui, que tipo de problema você pensou em resolver ao fundar a Alice?

Nós estávamos bastante inconformados para onde a sociedade está indo em termos de saúde. Já bateu no muro. Existe uma epidemia de doenças crônicas que está super presente fora do Brasil e está se tornando presente aqui também.

Eu venho da área da saúde, estou há 10 anos como co-fundador do Dr.Consulta, e os meus cofundadores André e Matheus vêm da 99. O que uniu a gente foi um certo inconformismo: o que precisa para transformar a forma como as pessoas lidam com a saúde delas? E a Alice é a criação em cima de uma solução para tentar ajudar as pessoas a se tornarem mais saudáveis, e a forma que achamos de fazer isso é a partir de uma gestora de saúde, que por acaso também tem seu plano de saúde, porque o membro paga uma mensalidade. A gente também dá o serviço da pessoa buscar hospitais e médicos quando precisar, então isso configura uma operadora de saúde, mas isso é um componente do produto.

O produto é muito maior do que isso e o nosso objetivo é tornar o mundo mais saudável. A gente quer ajudar as pessoas em suas jornadas de saúde. Todo mundo tem um avatar mais saudável que dá para vestir. Muitas pessoas não conhecem esse avatar, nunca foram apresentadas a ele. Nós queremos que elas conheçam, descubram uma versão que as torna melhor, mais potente, mais plena, mais feliz e é muito sobre isso a Alice.

Nós começamos com um produto individual, B2C, e hoje a gente está com um produto B2B, apesar de ainda não estar divulgando. Estamos em uma fase evoluída de testes. Mas, no final, o que importa é a pessoa. O “B”, infelizmente, é um intermediário, mas ele é necessário, porque é um benefício que a empresa dá, mas a saúde é da pessoa, o que importa para a saúde é aquele indivíduo.

Então, a Alice se chama Alice para a gente nunca esquecer que é uma pessoa que está lá e que a pessoa é o centro de tudo. O B2B é o canal para a gente se relacionar com a pessoa, essa relação direta com a pessoa existe no B2B também, se não existir a gente não quer. As empresas que trabalham com a Alice tem que topar esse modelo, senão não faz sentido.

Grazi, você vem de uma área totalmente diferente de RH. Conta um pouco da sua trajetória e como foi aprender na prática enquanto construía a área na Alice?

Eu nunca tinha considerado a área de RH, porque minha família inteira é engenheira, eu venho de uma família muito tradicional, então nunca pensei fora da caixa. Eu sou formada em engenharia civil e comecei trabalhando nessa área, mas não via sentido, tudo engessado, um ambiente ruim e quis sair. Fui fazer uma pós em administração e achei uma oportunidade para ir para planejamento financeiro na 99. Na obra eu trabalhava bastante com a parte de finanças, quando eu fui pra 99 fui pra outro tema, a mobilidade. Eu adorei, startup é um outro mundo, você consegue implementar mudanças muito mais rápidas, todo mundo te escuta, adorei o ambiente.

Foi lá que eu conheci o André e quando ele saiu da 99 e estava abrindo a Alice, me chamou para conhecer o propósito. Cheguei em casa e eu só pensava que eu precisava encontrar um jeito de trabalhar lá. Aí eu fui pra Alice na área de finanças, mas no comecinho você faz um pouco de tudo. A gente foi crescendo, foi abrir conta no banco, cadastrar funcionário no eSocial e eu não sabia nem o que era isso. A gente tem um escritório de contabilidade e eu fui tomando conta disso, porque no fim das contas a gente precisava que todas as pessoas ficassem muito felizes para dar o seu melhor. A gente precisava garantir um ambiente sensacional para as pessoas trabalharem da melhor maneira.

E aí eu fui aprendendo na prática…foi muito desafiador, porque agora eu tenho um monte de clientes que olham pra mim pra tirar dúvidas e eu acabo mexendo no bolso das pessoas, mudando a vida delas, uma a uma, de uma maneira diferente. Então, a gente precisa ter esse cuidado máximo para que ninguém saia prejudicado e é muito desafiador, porque qualquer pequeno erro você já pensa em consertar o quanto antes. Aos poucos eu fui aprendendo a lidar com essa ansiedade e achar uma solução um pouco mais rápida e dinâmica para solucionar os problemas da pessoa.

A gente precisava garantir um ambiente sensacional para as pessoas trabalharem da melhor maneira.

Quando eu fui pra RH, era só eu, não tinha muito tempo para adotar soluções burocráticas e manuais. Então, eu tive que automatizar o máximo que eu pude, só dessa maneira a gente conseguiu escalar a operação e as pessoas não tivessem problemas.

Como surgiu a cultura da Alice?

GUI: A gente se preocupou com cultura desde o dia zero, desde antes para falar a verdade. Quando eu conheci o André, a gente fez um trabalho de speed date, num processo de se conhecer profundamente, para entender se aquela sociedade poderia funcionar ou não. Foi muito interessante, porque eu comecei a conhecer o André profundamente, os processos se repetindo. A gente escreveu uma redação para cada, inclusive no processo de escolher o CEO, onde ele foi escolhido por nós dois. Então, desde o dia 1, foi um processo de transparência absoluta, e isso é uma das pedras fundamentais da nossa cultura.

Depois, a gente fez um off site com os fundadores e saiu de lá com as virtudes da empresa. Preferimos virtude do que valores, porque virtude é algo que você pratica no dia a dia. O nome Alice é porque a gente achou legal, mas desde o começo estava definido que teria o nome de uma pessoa, porque nossa cultura é voltada para as pessoas. 

Aí, a gente foi pra minha casa e fez uma discussão dos valores, em 15 pessoas, toda a galera participou e chegamos nas virtudes como elas são hoje.

A pedra fundamental da Alice é sobre cultura e dentro dela, transparência absoluta.

Como vocês usaram as virtudes para atrair os primeiros colaboradores?

GRAZI: O André era super apaixonado pelo propósito de tornar o mundo mais saudável. A gente respira isso todos os dias. Complementando o Gui, as nossas virtudes foram construídas a partir de uma virtude de cada um na vida pessoal. Nós elegemos as principais e definimos, mas foi só uma formalidade, porque a gente já fazia isso em tudo que discutimos, construímos.

A gente deixa isso muito transparente em todas as conversas. Eu ajudo o time de health a fazer entrevistas com enfermeiros e médicos e pergunto o que eles acharam da Alice. Eles sempre respondem que as virtudes saem da gente, é muito claro que todo mundo está focado no que está fazendo. Não tem uma regra, “você tem que fazer aquilo”, no processo de fundação da Alice, antes dela existir, as virtudes vieram junto.

Já tivemos algumas discussões para pensar se isso está alinhado com as nossas virtudes ou propósito. Absolutamente tudo é embasado nessa transparência e as virtudes a gente respira todos os dias.

Na hora de buscar captação financeira, muitos empreendedores acabam se preocupando mais com modelo de negócio, time…Vocês acham que a cultura é tão importante quanto na hora de captar investimento?

GUI: É super importante, mas a cultura transparece. Em um pitch você pode até falar da sua cultura, mas ela está transparecendo na fala, no deck, no resultado, em tudo. O investidor que é experiente saca quando a empresa tem uma cultura forte, daí que vem o conceito de virtude. A virtude não se fala, se pratica, ela emana das pessoas.

Como vocês lidam com atritos dentro da Alice, com relação à cultura?

GRAZI: A gente está sempre muito aberto a todas as discussões. O core não pode ter atrito, senão fica insustentável, mas se tem alguma incompatibilidade com algum detalhe da virtude a gente conversa, adapta.

GUI: Um exemplo da nossa virtude é: nos importamos com as pessoas genuinamente. E uma derivada disso é que não falamos dos outros quando o outro não está na sala, isso é um pecado mortal. Se estamos na sala e você começa a falar de alguém que não está, você está fora da Alice, a gente não aceita.

GRAZI: Acho que não pode demorar para agir também. Quando fica algum problema ou algum erro de contratação, a gente já senta, conversa para entender se é algo pontual ou se aquela pessoa não é compatível com a Alice e a gente já toma a decisão ali. Como o Gui falou, tem que ser muito pragmático.

GUI: Um exemplo de um ritual de cultura interessante é o ‘Alice na Arena’, toda segunda-feira, que tem como essência fazer, sujar a mão. Não é a crítica que conta. O nome é pelo discurso “The Man in The Arena”. Esse ritual é sagrado, os profissionais de saúde não têm agenda durante o horário do Alice na Arena. Quando você está de férias, você não participa, porque outra virtude é que nos importamos com a sua saúde e felicidade, quando você está de férias você está cuidando disso e não vai trabalhar.

Mas esse ritual pega outra virtude que é subir a barra e evoluir todos os dias. No Alice na Arena a gente mede o NPS e a gente é obcecado em fazer esse valor subir. Todo Alice na Arena tem que ser melhor que o anterior, a gente sobe a barra toda semana. É um veículo de transmissão de cultura também. Outro dia, eu falei sobre um tema de expansão e eu fiquei no domingo refinando a apresentação. Gastei umas quatro horas, porque eu precisava fazer a barra subir. Senão, eu não estou praticando a virtude.

Uma das características mais marcantes da cultura da Netflix é o lance da liberdade com responsabilidade. Sei que vocês também aplicam isso, inclusive oferecem férias flexíveis. Elas funcionam mesmo?

GRAZI: A gente tem 30 dias úteis de férias flexíveis e é um benefício que eu nunca tinha visto. Quando lançamos, eu fiquei meio assim, porque são quase 45 dias corridos, mas as pessoas são muito responsáveis, porque quando elas vêm pra Alice, elas têm uma meta, uma missão, e ela precisa fazer aquilo. Então, ela vai se organizar, entender quando é a melhor época para ela tirar férias. Você se alinhou, se organizou com seu time para não deixar ninguém na mão, pode descansar.

O exemplo vem dos próprios fundadores, eles usam o benefício, desligam completamente e as pessoas também usam e ninguém sumiu da Alice, continua todo mundo lá, a operação indo super bem, funciona super. Agrega muito valor, com certeza.

GUI: Eu acabei de voltar da Disney. Emendei com o carnaval, antes eu tirei 10 dias em janeiro. Eu tento dar o exemplo, agora, as pessoas que estão lá são responsáveis. Nosso processo de recrutamento é ‘treta’, se a pessoa entra na Alice é porque ela tem os traços de aderência à cultura e a gente sabe que esse tipo de pessoa tem responsabilidade dentro do DNA dela. Para esse tipo de pessoa você dá o desafio, ela agarra e vai.

Acho que a gente tem no Brasil uma cultura de controle e comando, e a Alice é o oposto disso. É delegar com responsabilidade.

GRAZI: No processo de recrutamento, você não faz só uma entrevista técnica. Tem uma entrevista de cultura com um pitaya [como são chamados os colaboradores], não é com o RH. Esse pitaya vai bater um papo com a pessoa para entender se ela tem a cultura. Isso ajuda bastante.

GUI: Nos primeiros 400 pitayas, hoje somos em 700, foram poucos os que entraram na Alice que eu, André e Matheus não entrevistamos. Tive meses que 40% do meu tempo era entrevistar gente e isso dá certo pra caramba. Ajuda muito a construir, dar exemplo e formar o time que, hoje, trabalha com autonomia para recrutar as pessoas da forma que a gente os recrutou.

Como funciona as tomadas de decisões para que não tenha nenhum atrito?

GUI: Existe um processo de decisão e a condução desse processo é a partir do texto. É muito difícil existir uma reunião na Alice em que a gente começa a argumentar para tentar tomar uma decisão. Para toda decisão importante tem um owner e esse owner escreve um docs. Ele compartilha o docs, coloca a linha de raciocínio, o contexto, a hipótese, o problema que ele quer resolver e as pessoas comentam. Lembra um pouco a ideia do ‘Six Pager’ da Amazon, mas a gente foi fazendo e foi dando certo.

O que vale na Alice é a capacidade de argumentação lógica. Qualquer decisão é baseada na estrutura lógica do processo. “Ganha” a melhor lógica, não a voz mais potente ou a mais eloquente. Nós tiramos todos esses aspectos. E é difícil enfatizar o quanto isso é importante na Alice, é uma cultura muito forte.

GRAZI: A pandemia deu um boost nesse docs, porque obrigou a gente a se comunicar de forma assíncrona. A gente sempre senta, monta um docs, compartilha com todo mundo e a reunião só acontece se existe algum ponto a ser discutido, senão é assíncrono mesmo.

Voltando para a sua pergunta, entre o RH e os fundadores não tem atrito, porque é sempre uma discussão. Eu tenho bastante contato com o André e sempre que chego para falar com ele, já trago as ideias estruturadas. Ele fala o que gostou, o que concorda e pergunta o que eu penso de volta. É uma discussão de duas mãos sempre.

GUI: Não existe o “acho que”. O que existe é a melhor lógica, o melhor argumento. Isso é uma cabeça bastante engenheira e evita o atrito de ego.

Na Alice, o ego não é bem vindo, apesar da gente não ter nada sobre isso nas nossas virtudes, mas ele fica na porta e a gente combate fortemente. Ele destrói as empresas, destrói os líderes.

Qual método vocês usam para medir o sucesso, principalmente em pessoas?

GRAZI: A gente tem uma pesquisa de vibe periodicamente e não é só por fazer, olhar se as pessoas estão felizes. A gente pega essa pesquisa, todos os feedbacks e cada gestor é responsável por atuar no ponto fraco da área. É sempre atuar ativamente para subir a barra todos os dias. A gente precisa que a vibe esteja ótima, porque pessoas felizes trabalham bem e essa é uma das nossas virtudes.

Para finalizar, sempre pedimos para nossos convidados compartilharem quais livros, filmes ou podcasts os inspiram. Contem para a gente?

GUI: Eu acho que nesse tema que a gente está conversando, além do livro da Netflix já mencionado, tem um atemporal que fala de relações humanas, chamado Como fazer amigos e influenciar pessoas, do Dale Carnegie. É um livro que pelo nome você acha que compra ali no posto de gasolina, mas o livro é ‘treta’, porque fala coisas muito profundas de relações humanas e é absolutamente relevante.

Outro livro importante é esse Ego is the enemy, do Ryan Holiday. As empresas são destruídas pelo ego das pessoas e catástrofes acontecem por isso. Todos nós temos ego, precisamos identificar e deixar fora.

Podcast tem um fenomenal que eu estou escutando agora, chama The Generalist. Eles fazem um deep dive em empresas, mas de um jeito que poucas vezes eu vi. Eles escrevem, muito bem escrito, e alguns desses textos o escritor narra. Ele fala  profundamente de cultura de empresas de tecnologia. Empresas jovens, série A, série B, às vezes até pouco conhecidas.

GRAZI: Um livro que eu acabei de ler, que eu achei sensacional, é o Antifrágil, do Nassim Taleb. Ele puxa bastante para o lado de não dar tanto ouvido para quem não entregou/construiu nada e ser responsável pelas coisas da sua vida, assumir as rédeas para se responsabilizar pelas consequências que acontecem com você. Isso é um dos mantras que eu tenho para o meu dia a dia.

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Luiza Terpins é Editora de Cajuína e Líder de Conteúdo e Comunicação da Caju.

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